Nesta semana, recebi de um amigo uma postagem no Instagram em que uma jornalista entrevistava uma pessoa sobre ESG e sustentabilidade. No vídeo, o entrevistado afirmava que ESG era uma falácia, uma grande hipocrisia, pois enquanto as grandes nações falam em sustentabilidade, continuam investindo bilhões em petróleo, energia e disputas por recursos naturais, como as terras raras.
Confesso que esse tipo de comentário sempre me faz refletir, porque ele parte de uma contradição que realmente existe. Não podemos negar que há enormes interesses econômicos e políticos envolvidos nas decisões das grandes potências mundiais. Sabemos que o petróleo continua sendo o “combustível” de muitos conflitos (com o perdão do trocadilho) e que a transição para uma economia mais sustentável é muito mais complexa do que simplesmente trocar uma fonte de energia por outra. Mas existe uma grande diferença entre reconhecer que há contradições no mundo e afirmar que, por isso, tudo é uma mentira, acho isso inclusive bem leviano.
O primeiro ponto que precisamos compreender de uma vez por todas é que ESG não se resume a energia renovável ou às questões climáticas. Esse é apenas um dos aspectos de uma agenda muito mais ampla, que envolve três grandes pilares: ambiental, social e governança. Já publiquei diversas colunas a respeito, quem quiser ler mais acesse as outras colunas por aqui.
ESG diz respeito a como as empresas se relacionam com o planeta, mas também sobre como tratam as pessoas e como tomam decisões. E mais do que isso: ESG e sustentabilidade organizacional não são contrários ao resultado econômico das empresas. Pelo contrário, quando aplicados de forma estratégica e verdadeira, contribuem para organizações mais eficientes, inovadoras e preparadas para o futuro.
- Empresas que cuidam melhor dos seus recursos reduzem desperdícios.
- Empresas que valorizam pessoas conseguem atrair e manter talentos.
- Empresas com boa governança reduzem riscos, fortalecem sua reputação e criam relações de confiança com clientes, fornecedores e sociedade.
Sustentabilidade não é quando as empresas deixam de gerar lucro. É quando geram valor de uma forma que permita que elas continuem existindo, crescendo e impactando positivamente por muito mais tempo.
Devemos nos perguntar que mundo queremos deixar para nossos filhos e netos?
Dizer que ESG é uma falácia, hipocrisia ou “coisa de esquerda” é, no mínimo, uma análise rasa de um tema extremamente complexo. E digo isso reconhecendo: existe sim uma distância enorme entre discurso e prática. A agenda da sustentabilidade ainda não acontece como deveria. Basta observar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), propostos pela ONU. Infelizmente, muitos deles ainda estão longe de serem alcançados. Mas quando olhamos para os 17 ODS (ou 18, considerando também a pauta da igualdade étnico-racial), fica difícil imaginar alguém que deseja uma sociedade melhor sendo contra aquilo que eles propõem.
Porque, deixando de lado as “trumpices”, “xijinpingzices”, “lulices” ou os interesses de qualquer outro líder mundial, a verdadeira discussão deveria ser: quais valores queremos defender enquanto sociedade?
- Queremos empresas que tratem seus funcionários com respeito e justiça?
- Queremos acabar com o trabalho análogo à escravidão?
- Queremos que mulheres parem de ser assediadas, violentadas e mortas e tenham as mesmas oportunidades que os homens, sem precisar estudar mais, trabalhar mais e provar mais para conquistar o mesmo espaço?
- Queremos organizações que atuem com ética, transparência e responsabilidade? Que tenham uma relação justa com seus concorrentes, suas comunidades e seus clientes?
- Queremos preservar e regenerar o meio ambiente para reduzir riscos e evitar que tragédias como a que aconteceu no Rio Grande do Sul, e tantas outras que acontecem no Brasil e no mundo, sejam cada vez mais frequentes e devastadoras?
Se a nossa resposta for sim, então talvez estejamos discutindo mais os rótulos do que a essência. O ESG não deveria ser tratado como uma disputa ideológica, embora muitas vezes seja levado para esse campo. Ele deveria ser uma reflexão sobre como podemos melhorar nossas escolhas, nossas organizações e nossa forma de viver em sociedade.
A humanidade chegou até aqui porque evoluiu. Porque questionou comportamentos, corrigiu erros e mudou práticas que em outros períodos da história eram consideradas normais e hoje são inaceitáveis. Evoluir faz parte da nossa trajetória.
Eu acredito muito no ESG. Estudo esse tema, trabalho com ele e vejo diariamente empresas tentando transformar conceitos em ações. Também sei que existe oportunismo, discurso vazio e muito marketing sem prática, o famoso ESGwashing. Mas o mau uso de uma ideia não invalida a importância dela.
Quando levado a sério, ESG não é sobre direita ou esquerda, nem politicagem: ESG é estratégia organizacional.
Quer receber notícias no seu whatsapp?
