Aníbal Cavaco Silva foi distinguido com a Ordem Europeia do Mérito. Na cerimónia, Paulo Rangel descreveu o ex-PM e PR como “um dos arquitectos da coesão”. No mesmo dia, é revelado um relatório da Greenpeace que conclui que, em Portugal, quase 70% das pessoas nunca utilizam os transportes públicos. Só na década de 90, Portugal perdeu 800 quilómetros de ferrovia no governo de Cavaco Silva. Como se sabe, preferiu-se alcatroar todo o dinheiro. As oportunidades de Bruxelas são como os comboios no nosso país: como não aparecem muitas, é um desastre se as perdemos.
Os indicadores dizem-nos que, em Portugal, bebe-se vinho e passa-se tempo no trânsito. Ou estamos num engarrafamento, ou estamos a esvaziar uma garrafa. Desperdiçamos a vida a ir e a voltar do trabalho. Não são movimentos pendulares, são movimentos perdulários. Por cá, o carro é tratado como uma criança de nove anos nas férias escolares. Vem sempre connosco para o trabalho porque temos medo de o deixar em casa. Noutros países da Europa, implementa-se o conceito de cidades de 15 minutos. Por cá, tendo em conta a necessidade de pegar no carro para completar tarefas como as compras semanais, a maioria das urbes portuguesas são cidades de 15 quilómetros. Há determinados bairros que só lhes falta uma cancela com uma máquina para tirar bilhete, porque, na prática, já são parques de estacionamento onde, por acaso, dormem pessoas.
Um país constrangido por amarras económicas e culturais fez do automóvel o seu simulacro de liberdade. Conferimos cidadania ao carro e demos-lhe mais direitos do que a nós próprios. O problema dos transportes públicos também se agrava por causa dos NIMBYs – em inglês, Not In My Backyard – pessoas que até podem ser a favor de determinado bem comum, desde que não seja concretizado à sua porta. Por exemplo, os moradores do Infantado, em Loures, que impediram que o seu bairro tivesse uma estação de metro de superfície porque temeram que roubasse lugares de estacionamento.
A Bimby facilita-nos a vida, o NIMBY dificulta-a. No geral, nota-se que a maioria das decisões sobre a organização das cidades foram tomadas sob um coro de críticas daqueles que preferem inviabilizar qualquer esforço de melhorar a comunidade se isso lhes exigir a mais pequena das inconveniências. Não há visão de futuro: a turba decide. Isto não é urbanismo, é turbanismo.
