Há partículas de ferro que chegam à Terra sem fazer ruído, sem deixar crateras e sem serem visíveis a olho nu. Ainda assim, podem estar a registar um dos capítulos mais antigos da viagem do Sistema Solar pelo espaço.
Um novo trabalho científico analisou vestígios do raro isótopo ferro-60 na Antártida e encontrou indícios de que continuamos a atravessar material deixado por antigas explosões estelares.
O que é o ferro-60 e porque desperta tanto interesse?
O ferro-60 é um isótopo radioativo extremamente raro. O detalhe mais importante é que praticamente não é produzido naturalmente na Terra em quantidades relevantes.
A sua presença é normalmente associada a eventos cósmicos de grande energia, sobretudo explosões de estrelas massivas, conhecidas como supernovas.
Por ter uma meia-vida de cerca de 2,6 milhões de anos, funciona como uma espécie de “assinatura temporal” do espaço profundo, quando aparece em sedimentos, neve ou gelo terrestre, os cientistas conseguem tentar reconstruir quando esse material chegou até nós.
A Antártida pode estar a guardar um registo da viagem do Sistema Solar
Para perceber melhor a origem deste material, investigadores analisaram centenas de quilogramas de gelo antártico recolhido em perfurações profundas.
Os resultados revelaram concentrações de ferro-60 superiores ao esperado apenas por processos locais ligados aos raios cósmicos. Isso sugere que parte desse material teve origem fora do Sistema Solar e foi depositado ao longo de milhares de anos.
Segundo a interpretação dos cientistas, os dados encaixam na hipótese de que o Sistema Solar está, ou esteve recentemente, a atravessar uma região do espaço conhecida como Nuvem Interestelar Local, uma estrutura composta por gás, poeira e resíduos deixados por antigas supernovas.
Estamos a atravessar os restos de explosões estelares?
Uma das conclusões mais intrigantes é que a concentração de ferro-60 encontrada em camadas recentes parece ser superior à observada em gelo muito mais antigo.
Isto pode significar que o ambiente interestelar à volta do Sistema Solar não é uniforme. Em vez disso, atravessamos regiões mais densas e outras mais dispersas, quase como quem percorre diferentes “nuvens” de poeira cósmica.
Embora ainda não exista uma confirmação absoluta sobre a origem dessa matéria, o ferro-60 continua a ser uma das pistas mais fortes de que eventos explosivos ocorridos relativamente perto do nosso bairro galáctico deixaram marcas físicas que ainda hoje chegam à Terra.

O Hubble observou a luz emitida pelo sistema estelar binário T Pyxidis (T Pyx), uma nova recorrente, durante uma erupção em abril de 2011. Os astrónomos descobriram que o material expelido em erupções anteriores permaneceu junto da estrela, formando um disco de detritos. As áreas assinaladas mostram partes desse disco iluminadas pela nova. T Pyx entra em erupção a cada 12 a 50 anos. | NASA
Uma cápsula do tempo que cai do céu
O mais impressionante desta descoberta é que não se trata de observar uma estrela distante através de telescópios.
Os investigadores estão literalmente a encontrar átomos extraterrestres preservados no gelo terrestre e a usá-los para reconstruir o caminho do Sistema Solar através da Via Láctea.
Cada átomo de ferro-60 pode ser um pequeno fragmento de uma explosão estelar ocorrida há milhões de anos.


