Cacau à vista: Belterra avança em busca de mais R$ 800 milhões para converter pastagens em agroflorestas <p>Valmir Ortega, CEO da Belterra</p>

Um, dois, três, quatro, cinco. Em menos de dez minutos, cinco pessoas interrompem a conversa de Valmir Ortega, fundador e líder da startup Belterra, com o AgFeed para cumprimentá-lo na entrada do SP Hall, espaço de eventos na Vila Olímpia, em São Paulo, onde aconteceu nesta semana a Brazil Climate Investment Week, que concentrou várias conferências relacionadas à investimentos sustentáveis.

A cena ajuda a explicar o bom momento vivido pela Belterra. A empresa, que trabalha com a conversão de áreas de pastagem em sistemas agroflorestais (SAF), virou um dos nomes mais acompanhados – e também assediados – por investidores interessados em restauração florestal.

“O que a gente conseguiu fazer até agora foi validar o modelo de negócio e demonstrá-lo para os investidores. Agora, a gente finalmente entra numa jornada de crescimento para valer”, diz Valmir Ortega.

Primeiro, no segundo semestre do ano passado, a startup de Ortega já tinha conseguido obter um financiamento de R$ 100 milhões com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), recursos do Fundo Clima, obtidos em outubro.

O interesse ganhou ainda mais força após a companhia concluir, recentemente, uma captação de R$ 75 milhões, dividida em duas tranches, com participação das gestoras MOV, Rise e Bold.t – que foi a líder da rodada – além da fundação alemã Ecosia.

Os recursos serão usados principalmente para reforçar a estrutura corporativa da companhia, incluindo equipe, sistemas de gestão, viveiros e equipamentos compartilhados entre as operações. “O equity basicamente serve para o investimento na holding, justamente para fortalecer a operação”, diz Valmir Ortega.

O custo de implantação dos sistemas agroflorestais é muito alto, podendo variar de R$ 35 mil a até R$ 100 mil por hectare. Dependendo do mix de culturas dos sistemas agroflorestais, o valor total de implementação poderia ultrapassar a casa de R$ 1 bilhão, considerando toda a quantidade de hectares no pipeline.

A startup já possui cerca de 2,8 mil hectares contratados nos estados de Pará, Rondônia, Mato Grosso e Maranhão em diferentes estágios de implantação. Desse total, cerca de 600 hectares já estão efetivamente plantados com cacau.

A meta agora é multiplicar essa escala nos próximos anos. É por isso que a Belterra prepara mais duas estruturas de investimento que, juntas, podem movimentar ao menos R$ 800 milhões.

Para viabilizar o projeto daqui em diante, Ortega tem optado por inserir cada projeto em diferentes SPEs (Sociedades de Propósito Específico).

Até o momento, a Belterra tem uma SPE, que recebeu os aportes do BNDES e também do Fundo de Biodiversidade da Amazônia (ABF), da gestora Impact Earth – que tem como investidores o próprio BNDES e também o Soros Fund – e financiou R$ 20 milhões em 2024 para que a startup implantasse 550 hectares iniciais.

Outras duas SPEs devem se somar à primeira, diz Ortega, ainda em 2026. “Queremos fechar tudo neste ano”, afirma.

Nas estimativas do líder da Belterra, as novas SPEs devem permitir à companhia adicionar mais 15 mil hectares ás áreas em implantação nos próximos cinco ou seis anos, somando operações no Pará, Bahia e Mato Grosso.

Considerando as áreas já existentes, a projeção é alcançar cerca de 20 mil hectares entre 2033 e 2034, estima Ortega.

As futuras SPEs, no entanto, terão diferenças entre si tanto nos valores como também em suas estruturas.

Ortega explica que a segunda SPE, ainda em fase de captação, deve movimentar aproximadamente R$ 300 milhões e contará tanto com dívida quanto com investidores de equity. “A gente espera contar também com a participação do BNDES nessa segunda SPE”, diz o CEO da Belterra.

Já a terceira SPE, cuja captação deve superar R$ 500 milhões, deve ser integralmente alavancada em equity.

“Nessa SPE, é 100% sócio investidor. A gente entra como prestador de serviço na operação”, explica Ortega.

O desenho financeiro reflete uma busca da companhia por capital compatível com o ciclo de retorno das florestas e do cacau.

No caso do BNDES, por exemplo, Ortega diz que a Belterra conseguiu uma linha com quatro anos de carência e prazo total de 15 anos.

Do ponto de vista estrutural, um dos principais gargalos hoje é justamente a produção de mudas. “O cacau hoje é a muda mais demandada e também a mais cara”, disse Ortega.

A Belterra pretende mais do que dobrar sua capacidade instalada até o fim de 2027, saindo das atuais 1,3 milhão para 3 milhões de mudas de cacau por ano. A companhia também pretende verticalizar toda a produção de mudas dentro da própria operação.

Hoje, o Pará segue como principal frente de expansão da empresa. A Belterra possui três polos operacionais no estado, separados por distâncias que chegam a 900 quilômetros entre si.

Além do Pará, a Belterra também tem operações em Rondônia, Bahia e Mato Grosso.

A Belterra almeja, no futuro, mudar um pouco o horizonte do norte de Mato Grosso, com o retorno da produção de cacau na região.

“Já teve produção de cacau por lá, mas depois, quando começou a avançar a soja, a avançar a pecuária, o cacau praticamente desapareceu”, diz Ortega. “O IBGE diz que Mato Grosso tem cerca de 600 hectares de cacau hoje. A gente pretende implantar uns 3 mil hectares por lá. Queremos recolocar o cacau no mapa do Estado.”

Apesar das movimentações no lado financeiro, a tese do negócio da Belterra em si permanece inalterado: converter áreas de pastagens degradadas em terras produtivas, criar sistemas agroflorestais e, depois de anos de cultivo de mudas, lucrar com a venda de cacau.

Só que esse processo, além de trabalhoso do ponto de vista financeiro – a startup foi criada em 2019 e só recentemente conseguiu recursos de maior vulto – também traz desafios no lado agrícola.

A implantação de culturas diferentes do convencional em áreas degradadas exige parcerias com produtores de cada região. Ultrapassada essa fase, o clima também é outro fator que desafia a empresa de Ortega.

Neste ano, por exemplo, com a chegada iminente do fenômeno climático El Niño, que aquece as águas do Oceano Pacífico, a tendência é que o cacau possa apresentar produtividade menor. “O volume de plantio deste ano a gente já decidiu, Mas estamos sendo cautelosos”, diz.

Resumo

  • Belterra pretende atrair novos investidores para implantar mais 15 mil hectares de sistema agroflorestal
  • Empresa de Valmir Ortega planeja utilizar SPEs para estruturar aportes
  • Até o momento, startup já tem 2,8 mil hectares em diferentes fases

By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART

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