Imagem: Prefeitura Municipal de ItaitingaImagem: Prefeitura Municipal de Itaitinga

O Rio Grande do Sul voltou a viver dias de preocupação. Mais uma vez, acompanhamos rios subindo, municípios em alerta e equipes da Defesa Civil mobilizadas. Para quem acompanha a ciência do clima, infelizmente, esse cenário não surpreende. Ele já vinha sendo anunciado pelos modelos meteorológicos e pelos especialistas que estudam os impactos das mudanças climáticas.

Mas, junto com a chuva, outra enxurrada também costuma aparecer: a das soluções simples.

Basta um evento extremo acontecer para surgirem pessoas afirmando que “era só fazer isso”, “era só fazer aquilo”, “era só desassorear os rios”, “era só construir barragens”. Como se existisse uma única resposta para um problema que é, por natureza, extremamente complexo.

Existe uma frase que me acompanha desde as enchentes de 2024: para problemas complexos, as soluções também são complexas.

E talvez esse seja um dos maiores equívocos que enfrentamos hoje.

Uma resposta não depende de uma única medida

Eu sou engenheira ambiental. Estudei e trabalhei durante muitos anos nessa área. E, se alguém me perguntasse qual é a solução definitiva para reduzir os impactos de eventos como esses, minha resposta seria simples: eu não sei.

Não porque ela não exista, mas porque ela não depende de uma única medida.

Ela depende da integração entre diferentes áreas do conhecimento. Geólogos, hidrólogos, engenheiros, meteorologistas, urbanistas, arquitetos, especialistas em recursos hídricos, profissionais da Defesa Civil, gestores públicos, pesquisadores, economistas, psicólogos, educadores ambientais, comunicadores e tantas outras áreas que ajudam não apenas a compreender o risco, mas também a preparar as pessoas para conviver com uma nova realidade.

Porque adaptação climática não se faz apenas com obras. Ela também se faz com educação, mudança de comportamento, comunicação de qualidade e fortalecimento da cultura de prevenção.

Todos têm uma parte da resposta. E, ainda assim, nenhuma dessas partes, sozinha, resolve o problema.

O perigo do reducionismo

É justamente por isso que me preocupa o reducionismo que vejo crescer nas redes sociais.

Não estou dizendo que não precisamos cobrar. Muito pelo contrário.

Precisamos cobrar mais planejamento, mais investimento, mais conhecimento técnico, mais estrutura para os municípios e mais continuidade nas políticas públicas. Ainda há muito a ser feito, e negar isso seria um erro.

Mas afirmar que nada foi feito também é.

Esse tipo de discurso desconsidera o trabalho de centenas de pesquisadores, técnicos, profissionais da Defesa Civil, universidades, do Comitê Científico do Rio Grande do Sul, da iniciativa privada e de tantos outros profissionais que vêm desenvolvendo soluções e tecnologias, produzindo conhecimento, aperfeiçoando sistemas de monitoramento, fortalecendo protocolos e construindo estratégias de adaptação.

Os alertas foram feitos

Quem acompanha essa área sabia que novos eventos extremos voltariam a acontecer.

Os alertas foram feitos.

A ciência já vinha dizendo isso.

O que ninguém era capaz de prever era a magnitude que esses eventos poderiam alcançar. Foi justamente essa dimensão que expôs as fragilidades de um sistema que, como bem destaca o Coronel Sandro no episódio desta semana do podcast Rastros, não estava preparado para enfrentar uma tragédia daquela proporção.

As mudanças climáticas estão no presente

As mudanças climáticas deixaram de ser um problema do futuro para se tornarem parte do nosso presente.

E talvez essa seja a verdade que ainda resistimos em aceitar.

Durante muitos anos adiamos decisões importantes. Escolhemos discutir menos do que deveríamos, investir menos do que era necessário e preparar nossas cidades abaixo do que a realidade exigia.

Como costumo dizer, não fomos pelo amor. Estamos indo pela dor.

E a dor custa caro.

Adaptação climática exige investimento

Agora todos falam em adaptação climática. E precisamos, de fato, adaptar nossas cidades. Mas adaptação exige planejamento, conhecimento, continuidade e, principalmente, investimento. Muito investimento.

Não existe adaptação climática sem custo.

Existe, sim, um custo muito maior quando ela não acontece.

A responsabilidade de cada pessoa

Por isso, antes de compartilhar uma solução definitiva ou uma crítica que desconsidera toda a complexidade do problema, talvez valha a pena fazermos uma pergunta a nós mesmos.

Além de apontar o que falta, o que cada um de nós está fazendo para fortalecer uma cultura de prevenção?

Porque prevenção não é responsabilidade apenas dos governos. Ela depende também da forma como nos informamos, do espaço que damos à ciência, da qualidade do debate público e da disposição de construir, em vez de apenas criticar.

Cobrar sem descredibilizar

Apontar erros é importante. Fiscalizar é necessário. Cobrar resultados faz parte da democracia.

Mas descredibilizar quem trabalha seriamente para construir soluções não nos aproxima de cidades mais resilientes. Apenas nos afasta delas.

Se queremos, de fato, enfrentar os desafios que as mudanças climáticas já impõem ao Rio Grande do Sul, precisaremos abandonar a ilusão das respostas fáceis e reconhecer o trabalho de quem dedica anos de estudo e pesquisa para compreender esse tema.

Porque, quando digo que os problemas são complexos, não estou falando de dificuldades. Estou falando da necessidade de integrar diferentes conhecimentos, tecnologias, instituições e pessoas para construir respostas à altura dos desafios que as mudanças climáticas nos impõem.

É justamente por isso que as soluções também precisam ser.

By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART