*Artigo escrito por Araceli Bufon, Consultora de Novos Negócios na SOU Consultoria e Membro do Comitê Qualificado de Conteúdo de ESG do IBEF-ES.
O mercado financeiro já fez a transição que muitas empresas ainda não conseguiram: ESG deixou de ser narrativa e passou a ser precificação de risco. Na prática, isso significa que falhas ambientais, sociais ou de governança já impactam diretamente o custo de capital, acesso a crédito e valor de mercado.
Segundo estudos da MSCI (Morgan Stanley Capital International), uma das principais referências globais em análise de risco e investimento, publicados em 2020 e atualizados em 2024, empresas mais expostas a riscos ESG tendem a enfrentar custos de financiamento até 0,7 ponto percentual mais elevados, refletindo a percepção de risco por parte de investidores e credores.
Empresas com estruturas de governança frágeis, histórico de incidentes socioambientais ou baixa transparência tendem a enfrentar maior restrição de crédito e, em casos mais críticos, perder acesso a determinadas fontes de capital.
Em economias com forte presença de setores intensivos em recursos naturais, infraestrutura e logística, como é o caso de parte relevante da economia capixaba, essa discussão exige ainda mais atenção.
Um parque industrial, por definição, gera impactos, pressiona recursos naturais, transforma territórios e interage diretamente com comunidades. Ignorar essa dimensão não é apenas um equívoco conceitual, é um risco operacional e financeiro.
O ponto, portanto, não está em negar os impactos, mas na forma como eles são geridos. Empresas comprometidas com boas práticas de ESG não são aquelas que evitam o tema, mas aquelas que estruturam mecanismos consistentes de gestão, monitoramento e mitigação de riscos.
Mais do que isso, são aquelas capazes de se antecipar: identificar potenciais externalidades, estruturar medidas de compensação e estabelecer relações mais transparentes e previsíveis com seus stakeholders.
Essa capacidade de antecipação é o que diferencia gestão de risco de gestão estratégica. Empresas que atuam apenas de forma reativa tendem a operar sob maior instabilidade. Já aquelas que incorporam ESG de forma estruturada conseguem reduzir incertezas, evitar interrupções e operar com maior eficiência.
A conexão com produtividade é direta. Operações sujeitas a conflitos, paralisações ou falhas recorrentes carregam custos invisíveis: retrabalho, atrasos, perda de eficiência e aumento da complexidade operacional. Por outro lado, ambientes mais estruturados, com governança robusta e gestão ativa de riscos, tendem a operar com maior previsibilidade e melhor desempenho.
Esse movimento é reforçado por mudanças regulatórias e de mercado. Cadeias globais vêm exigindo níveis mais elevados de transparência, rastreabilidade e diligência socioambiental. Empresas que não acompanham esse padrão passam a enfrentar barreiras comerciais, restrições contratuais e perda de competitividade.
Ainda assim, parte relevante das organizações segue tratando o tema como comunicação institucional.
No fim, a equação é simples: o mercado já precifica ESG. A diferença está entre quem antecipa e controla o risco, e quem acaba pagando por ele.
Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, o posicionamento do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo, bem como da organização à qual esteja vinculado profissionalmente.
