Certos alimentos ultraprocessados, ou UPFs, estão a contribuir para a obesidade mundial, doenças crónicas e morte prematura, mas a indústria alimentar continua a comercializar agressivamente produtos novos e existentes nesta categoria para obter lucros enormes, de acordo com uma série inédita de três partes escrita por 43 especialistas globais em nutrição e apoiada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância, ou UNICEF, e pela Organização Mundial da Saúde.

Mais de 50% dos 2,9 biliões de dólares (aproximadamente 2,5 milhões de euros) pagos aos acionistas por empresas alimentícias entre 1962 e 2021 “foram distribuídos apenas pelos fabricantes de UPFs”, de acordo com pesquisa publicada na terça-feira na importante revista médica The Lancet.

“Encontramos evidências de que o consumo de UPF está a aumentar em todo o mundo, impulsionado por poderosas empresas globais”, explica o coautor Carlos Augusto Monteiro, professor emérito de nutrição e saúde pública da Escola de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, no Brasil.

“Para manter este modelo de negócio, que é altamente lucrativo, a indústria não pode se dar ao luxo de produzir alimentos minimamente processados como fazia no passado, então recorre a um intenso lobby político para impedir políticas de saúde pública eficazes que apoiem uma alimentação saudável”, refere Monteiro, que cunhou o termo “alimentos ultraprocessados” em 2009, quando desenvolveu o sistema de classificação NOVA, que categoriza os alimentos em quatro grupos de acordo com o seu nível de processamento industrial.

As empresas podem “dobrar ou triplicar os seus lucros” transformando milho, trigo, feijão e outros alimentos integrais “em uma serragem sem cor e sem sabor, que é então reconstruída com aromatizantes artificiais e aditivos”, exolica Barry Popkin, professor emérito da Universidade da Carolina do Norte na Escola Gillings de Saúde Pública Global de Chapel Hill.

Países como México, Noruega, Reino Unido, Coreia do Sul e Irlanda implementaram leis contra a comercialização de alimentos ultraprocessados, especialmente para crianças. Karen M. Romanko/Photodisc/Getty Images/Arquivo

“A indústria alimentar não quer perder a sua galinha dos ovos de ouro, por isso está disposta a investir milhões na luta contra as restrições governamentais aos alimentos ultraprocessados, bem como a financiar nutricionistas que afirmam não haver provas de que sejam prejudiciais”, afirma Popkin, coautor de dois dos artigos.

A série apresenta pesquisas sobre os danos conhecidos à saúde causados por alimentos ultraprocessados e apela a um esforço global para regulamentar a indústria, com métodos como rótulos de advertência nos alimentos, tributação e leis para restringir o marketing e a publicidade, especialmente para crianças.

No entanto, a International Food & Beverage Alliance, fundada em 2008 por empresas líderes no setor de alimentos e bebidas não alcoólicas, garante à CNN que as autoridades de saúde em todo o mundo rejeitaram o conceito de alimentos ultraprocessados devido à falta de consenso científico.

“As recomendações políticas e de defesa desta série vão muito além das evidências disponíveis – propondo novas medidas regulatórias com base em ‘processamento’ ou ‘marcadores’ de aditivos e pedindo a exclusão da indústria da formulação de políticas”, aponta o secretário-geral da IFBA, Rocco Renaldi, num e-mail.

“Se adotadas conforme proposto, essas recomendações políticas correriam o risco de limitar o acesso a alimentos processados ricos em nutrientes e reduzir a disponibilidade de opções seguras, acessíveis e estáveis em todo o mundo”, assegura Renaldi.

Um esforço global coordenado pela indústria

As ações da indústria alimentar para combater as regulamentações e desacreditar a ciência são coordenadas por meio de uma rede global de “grupos de fachada, iniciativas com várias partes interessadas e parceiros de pesquisa”, afirma um dos artigos da Lancet. Essa rede pode incluir agências de publicidade, cadeias de fast-food, varejistas de alimentos, fornecedores de ingredientes, lobistas, produtores de plástico e parceiros de pesquisa, escreveram os autores.

Até mesmo influenciadores nutricionistas foram contratados para promover mensagens antiestigma, afirma o artigo. As mensagens nas redes sociais por agentes da rede podem tentar culpar o excesso de comida e a obesidade pela força de vontade e estilo de vida dos consumidores, ou retratar os oponentes dos alimentos ultraprocessados como “elitistas, mal informados ou motivados ideologicamente”. As tentativas estaduais, locais ou federais de restringir a fabricação, comercialização ou venda de alimentos ultraprocessados são retratadas por alguns influenciadores como um abuso de autoridade, afirma o artigo.

As ações tomadas por esta rede incluem “lobbying direto, infiltração em agências governamentais e litígios”, escrevem os autores, bem como “enquadrar debates e criar dúvidas científicas”.

Esses esforços também se estendem à investigação financiada pela indústria, realça o artigo. Uma revisão relatada no artigo, por exemplo, descobriu que estudos pagos pela indústria alimentar eram cinco vezes mais propensos a não mostrar qualquer associação entre a obesidade e o consumo de alimentos ultraprocessados.

Usando o manual da Big Tobacco

Para expandir os seus mercados, as empresas de alimentos e bebidas – engolidas pelas grandes empresas de tabaco entre as décadas de 1960 e 1980 – usaram o manual da indústria do tabaco para criar produtos projetados para serem hiperpalatáveis e viciantes, refere Marion Nestle, professora emérita de Nutrição, Estudos Alimentares e Saúde Pública da Universidade de Nova Iorque. Marion Nestle escreveu vários livros sobre a política da indústria alimentar.

“Na década de 80, os alimentos ultraprocessados estavam em toda parte, em grandes porções, altamente processados, absolutamente deliciosos, irresistíveis e aceitáveis para serem consumidos o dia todo, em qualquer lugar, em qualquer circunstância”, lembra Nestle, coautora de dois dos artigos da série.

Especialistas afirmam que as empresas estão a usar técnicas de marketing e vendas semelhantes às que levaram 45% dos adultos americanos a fumar em 1954 para criar um mercado global em expansão para alimentos ultraprocessados. Essas técnicas de marketing são frequentemente direcionadas às crianças, uma área que precisa de regulamentação rápida e rígida, alerta Nestle.

Hoje, cerca de 70% dos alimentos nas prateleiras dos supermercados nos Estados Unidos são ultraprocessados, tornando difícil evitar os UPFs, que costumam ser baratos e convenientes, dizem os especialistas. Um relatório recente dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA descobriu que as crianças americanas obtêm em média 62% de suas calorias diárias de alimentos ultraprocessados – e cerca de 53% por dia para os adultos.

Com os mercados dos Estados Unidos, Reino Unido e União Europeia fortemente saturados com alimentos ultraprocessados, a indústria alimentícia tem pressionado fortemente a América do Sul, África e Europa Oriental, bem como a China e a Índia, afirma Maria Laura da Costa Louzada, professora e vice-coordenadora do Centro de Investigação Epidemiológica em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo, Brasil.

“Os alimentos ultraprocessados estão a ocupar cada vez mais espaço na alimentação das pessoas. A sua participação dobrou em países como Brasil, Canadá e México, e triplicou em apenas alguns anos na China, Coreia do Sul e Espanha”, explica Louzada em um vídeo gravado. “Isso significa que as refeições tradicionais, preparadas na hora, estão a perder espaço rapidamente. Sem políticas públicas fortes, o consumo de alimentos ultraprocessados continuará a aumentar.”

Esse aumento no consumo será um desastre para a saúde, de acordo com uma nova revisão sistemática publicada na série Lancet. De 104 estudos, 92 mostraram uma associação entre alimentos ultraprocessados e um risco maior de uma ou mais doenças crónicas, de acordo com a revisão. Uma meta-análise adicional encontrou associações estatisticamente significativas entre UPFs e uma dúzia de doenças crónicas, disse Montiero, que foi o primeiro autor de ambos os estudos.

“Acreditamos que a substituição das dietas tradicionais por alimentos ultraprocessados é a explicação mais convincente para a pandemia global de doenças crónicas relacionadas à alimentação, como obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardíacas”, aponta Montiero.

Ensaios clínicos randomizados recentes, considerados o padrão ouro da investigação, mostraram que os alimentos ultraprocessados levam a uma ingestão adicional de 500 a 1.000 calorias por dia em comparação com uma dieta de alimentos integrais minimamente processados – mesmo que ambas as dietas contenham o mesmo número total de calorias, açúcares, fibras, gordura, sal e carboidratos.

E um estudo realizado em agosto descobriu que, mesmo quando os alimentos ultraprocessados são “mais saudáveis”, comer alimentos minimamente processados – como alimentos integrais cozinhados em casa – duplica a perda de peso.

“Há algo nos UPFs que causa excessos alimentares, talvez porque não são alimentos, mas sim formulações concebidas para atingir o nosso ‘ponto de felicidade’”, afirma Monteiro. “Quando se submete alimentos integrais tradicionais e modificados a essas formulações, a indústria alimentícia pode manipular o açúcar, o sal e a gordura com o uso de sabores, texturas e aditivos até que se tornem irresistíveis.”

Os críticos apontam que a maioria dos estudos sobre alimentos ultraprocessados são observacionais e, portanto, não podem provar um impacto direto na saúde.

“Parece-me provável que pelo menos alguns UPFs possam causar aumentos no risco de algumas doenças crónicas”, diz Kevin McConway, professor emérito de estatística aplicada da The Open University, no Reino Unido, em um comunicado.

Mas a série de artigos da Lancet “certamente não estabelece que todos os UPFs aumentam o risco de doenças. Ainda há espaço para dúvidas e esclarecimentos a partir de pesquisas adicionais”, refere McConway, que tem sido consultor da BBC e de outras organizações jornalísticas.

Um apelo à ação global

O segundo artigo da série da Lancet examina o sucesso de uma série de ações regulatórias por parte de estados dos EUA e países internacionais para conter a disseminação de alimentos ultraprocessados.

A imposição de impostos sobre refrigerantes açucarados, por exemplo, reduziu com sucesso o consumo de bebidas ultraprocessadas. As restrições estaduais ou governamentais contra o uso de gorduras trans, corantes alimentares e alguns aditivos mudaram a forma como a indústria formula os seus produtos.

“Reduzir ingredientes específicos a meros marcadores de ultraprocessamento é uma resposta generalizada demais para uma questão muito mais complexa”, alerta Carla Saunders, presidente do Calorie Control Council, que representa fabricantes de alimentos e bebidas com adoçantes não nutritivos.

“Ingredientes seguros e rigorosamente testados, como adoçantes sem calorias e de baixa caloria, são cientificamente validados pelas principais autoridades de saúde do mundo e desempenham um papel crítico no controle de doenças crónicas, como diabetes e obesidade, o que contribui para uma saúde melhor.”

Países como Chile, México, Noruega, Reino Unido, Coreia do Sul e Irlanda implementaram leis contra a comercialização de UPFs, especialmente para crianças. Um número crescente de países exige rótulos na frente das embalagens que alertem os consumidores sobre ingredientes problemáticos. Esses esforços estão a começar a melhorar as dietas até certo ponto, dizem os especialistas.

No entanto, muitos dos rótulos na frente das embalagens apenas alertaram o público sobre os malefícios à saúde dos alimentos ricos em gordura, açúcar e sal, chamados alimentos HFSS. Limitar a mensagem aos alimentos HFSS, no entanto, não limita os alimentos ultraprocessados carregados de produtos químicos reformulados pelos fabricantes de alimentos para ficarem abaixo dos níveis de açúcar, sal e gordura saturada estabelecidos pelos reguladores, recorda Montiero.

“Mas, se adicionarmos a presença de aromatizantes artificiais, corantes e adoçantes não nutritivos aos rótulos de advertência, cobrimos quase 100% dos alimentos ultraprocessados”, acrescenta. “Isso também responde às críticas que a NOVA recebeu por não abordar a questão dos nutrientes, como açúcar e sal.”

Embora todos esses esforços tenham sido parcialmente bem-sucedidos, de acordo com a série da Lancet, a verdadeira mudança virá de um esforço global coordenado. Os autores pedem uma rede mundial de líderes governamentais, agências da ONU, cientistas, acadêmicos e o público, todos com o objetivo de combater a disseminação de alimentos ultraprocessados, priorizando as crianças. Duas agências poderosas já aderiram ao esforço, anunciando o seu envolvimento em declarações publicadas na The Lancet.

A Organização Mundial da Saúde, que em maio lançou um apelo global para que cientistas se juntassem ao seu trabalho sobre alimentos ultraprocessados, descreveu o consumo crescente de UPFs como “uma ameaça sistémica à saúde pública, à equidade e à sustentabilidade ambiental”.

A série da revista The Lancet, segundo a OMS, apresenta “um argumento convincente para uma ação urgente contra os UPFs”.

Em sua própria declaração publicada, a UNICEF ofereceu seu total apoio à rede global proposta, a fim de desenvolver uma estrutura política internacional para “proteger crianças, famílias e sociedades dos UPFs”.

“A proteção eficaz das crianças contra os UPFs exige enfrentar o poder económico e político que permite à indústria dos UPFs enfraquecer, atrasar ou obstruir a ação governamental”, escreveram Joan Matji, diretora global para nutrição e desenvolvimento infantil, e Mauro Brero, consultor sénior de nutrição para sistemas alimentares para crianças na UNICEF.

“Os governos devem liderar uma abordagem que envolva toda a sociedade e garanta que esta geração seja a primeira em que os direitos das crianças à nutrição, alimentação e saúde tenham prioridade sobre o lucro das empresas.”

By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART

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