Ao entrar na sala do Masp, onde está instalada La CosaCósmica, de Damián Ortega, a sensação é a de assistir a uma explosão suspensa no ar.
O artista mexicano desmontou um Fusca inteiro e transformou o carro em constelação: cada peça flutua separada, em diálogo com a arquitetura brutalista do museu. “Pensei em fazer um diagrama tridimensional para mostrar cada comunicação, cada contato de uma peça com a outra, e como isso era um grande sistema onde tudo é indispensável”, conta à Coluna. “Daí surge a ideia de um big-bang, de uma grande explosão.”
A obra nasceu de uma memória afetiva. Ortega ganhou do pai um Fusca antigo e decidiu desmontá-lo para entender o que havia ali dentro. “Aprendi a dirigir com o Fusca. Foi o carro em que uma pessoa foi à praia pela primeira vez, se apaixonou, teve aventuras. Há uma relação emocional muito importante”, diz.
Para ele, talvez seja justamente isso que faz a instalação atravessar públicos tão distintos — da criança ao especialista em arte. “A arte tem essa capacidade. Não é uma lei, não é uma ciência. É uma experiência compartilhada.”
Menos mecânica, mais relações humanas
Diante da obra, Ortega fala menos de mecânica e mais de relações humanas. “Tudo funciona por comunicação. A eletricidade manda o sinal, o ar circula, as peças dialogam entre si”, explica. Para ele, o fascínio está justamente naquilo que conecta o todo — não apenas na função. “Não é economia, é afeto.”
Em cartaz no MASP pela primeira vez, o artista também aproveita a passagem por São Paulo para refletir sobre a distância entre Brasil e México. “Às vezes conhecemos melhor países muito distantes do que nossos próprios vizinhos. Seguimos olhando para Europa e Estados Unidos, e pouco para o coração da América Latina.”
Outro ponto que atravessa a obra de Ortega é a ideia da ferramenta como extensão humana. “Se eu tiro as lentes, talvez não veja com clareza. Então elas se tornam uma ferramenta, uma extensão do meu corpo”, afirma.
Para o artista, toda tecnologia carrega potência e ambiguidade. “A ferramenta faz o melhor e também o pior. Depende do uso, da ética para utilizá-la.”
Encantado com os avanços da inteligência artificial, ele prefere olhar para a tecnologia menos pelo medo e mais pela capacidade de ampliar sentidos, traduzir idiomas, aproximar pessoas e criar novas perspectivas. “Tudo isso se torna uma grande ferramenta humana.”
Damián Ortega: matéria e energia
Endereço: MASP – Avenida Paulista, 1578
Data: 15 de maio de 2026 até 09 de setembro de 2026
Ingressos: Até R$ 85,00
