“A ocorrência de desastres de colapso de gelo e rocha na região dos Himalaias é fortemente impulsionada pelas mudanças climáticas e responde fortemente ao aquecimento global”, disse Su Pengcheng, pesquisador do Instituto de Desastres de Montanha e Meio Ambiente da Academia Chinesa de Ciências.

O cientista respondeu a perguntas do Brasil de Fato na recente coletiva de imprensa realizada no Condado de Gyirong (ou Jilong), em Xigaze, Região Autônoma de Xizang, sobre o desastre causado pelo colapso de uma geleira do lado nepalês na fronteira com a China.

A região também apresenta condições geológicas complexas e atividade tectônica frequente. Os terremotos do Nepal em 2015 e do ano passado são exemplos disso, explicou Su.

O pesquisador disse que, diante da aceleração na frequência de catástrofes raras, é “necessário aprofundar a pesquisa de base sobre identificação e avaliação de riscos, desenvolver modelos dinâmicos de simulação de cadeias de desastres e ampliar a cobertura de monitoramento desde as zonas de origem”.

O desafio não é simples: na região dos Himalaias, imagens nítidas podem ser obtidas em apenas cerca de 20 dias por ano, disse Ge Daqing, vice-diretor do Centro Chinês de Levantamento Aerogeofísico e Sensoriamento Remoto de Recursos Naturais, ao jornal chinês China Daily. Segundo ele, a maior parte dos dados ópticos recebidos recentemente do lugar estava coberta por nuvens.

O pesquisador também destacou que a origem do colapso no lado nepalês está fora do alcance do monitoramento chinês. Ele defende que, para enfrentar esse tipo de riscos no futuro, são necessários mecanismos de cooperação e intercâmbio de dados transfronteiriços entre os países da região do Himalaia.

A dimensão do desastre

O desastre de 26 de agosto na fronteira sino-nepalesa destruiu 27 prédios na área da aduana de Jilong, incluindo o seu edifício de cinco andares e a Ponte da Amizade, que ligava os dois países. No dia 6 de setembro, 11 dias após o ocorrido, o Brasil de Fato integrou a primeira delegação de imprensa estrangeira autorizada a acessar a zona mais crítica. Até agora, as vítimas dos dois países somam 1.385 mortos e 5.519 desaparecidos, sendo 43 óbitos e 519 desaparecidos do lado chinês, e 1.342 mortos com mais de 5 mil desaparecidos no Nepal, entre eles 589 estrangeiros.

A origem do evento foi o colapso de um lago glacial de dezenas de milhões de metros cúbicos que causou um enorme deslizamento de gelo e rochas a aproximadamente 5.200 metros de altitude. O colapso percorreu 22 quilômetros em menos de sete minutos até alcançar o porto terrestre, que fica a uns 1.800 metros de altitude. O fluxo de rochas e lama foi tão intenso que subiu três quilômetros contra a corrente do rio Donglin Zangbo, no território chinês.

“Os sedimentos glaciais na porção inferior da encosta sofreram ruptura, gerando um fluxo de detritos em alta velocidade. Esse fluxo desceu pelo vale do Dongling Zangbu e, ao encontrar uma barreira, a energia acumulada o lançou com violência contra a encosta oposta. Uma barragem temporária se formou ali e logo se rompeu, desencadeando o desastre. A queda de mais de 3 mil metros de altitude liberou uma energia imensa”, explicou Ba Renji, engenheiro pesquisador sênior do Serviço Geológico da China, em entrevista ao Brasil de Fato, no local do desastre.

Os trabalhos de limpeza, busca e resgate

Mais de 2.300 socorristas e 8.800 equipamentos atuam na área do desastre, que foi dividida em sete setores. A zona central, onde se localizava o posto fronteiriço, foi a mais devastada. A primeira tarefa foi a de desobstruir e reconstruir três quilômetros da Rodovia Nacional G216, que era a única via de acesso à região.

Zhou Zhidong, especialista em geologia do Grupo China Anneng, coordenou o método de busca na zona central. “A técnica que adotamos é um método refinado de busca e desobstrução, que combina máquinas pesadas e trabalho manual. Removemos uma camada de detritos por vez, com pás e outras ferramentas, até atingir o nível original do solo”, afirmou.

Já Ren Wei, vice-presidente executivo do Governo Popular da Região Autônoma de Xizang, falou sobre o nível de dificuldade dos trabalhos: “As equipes superaram acúmulo excessivo de lama, chuvas intensas, fortes correntezas, terreno instável e estradas destruídas, avançando por terra, água e ar até a zona central”.

Ren informou que 499 moradores dos municípios e vilarejos afetados foram transferidos e alojados em hotéis e pousadas da região sem custo. A operação também evacuou 555 turistas retidos na área e garantiu o sustento de 1.720 residentes nepaleses na fronteira.

Os riscos que se mantêm

Deng Buchuan, vice-diretor do Departamento de Resgate a Desastres Especiais do Corpo de Bombeiros de Xizang, disse que a maior preocupação atualmente são as quedas de rochas.

Na coletiva de imprensa de 6 de setembro, o Brasil de Fato perguntou sobre os riscos secundários ainda presentes. Su Pengcheng disse que o monitoramento é permanente e que, inclusive, a visita da delegação de jornalistas estrangeiros poderia ter sido cancelada. Ele afirmou que 20 especialistas monitoravam com mais de 100 equipamentos a região. Durante a manhã da visita, na zona de origem do colapso, haviam sido registradas mais de dez mini-avalanches de gelo.

“O verdadeiro risco elevado vem principalmente de grandes colapsos individuais de gelo e rocha que podem bloquear o canal. A ameaça pode ser resumida assim: riscos secundários de nível médio a alto, predominantemente represamento localizado de água e barragens temporárias de pequena escala. Em situações extremas, existe o risco real de bloqueio e ruptura de um canal. Esse risco ameaça principalmente a segurança das equipes de resgate que atuam rio abaixo”, disse o pesquisador.

By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART