Bill Coulson / Risso’s Dolphin Project South West volunteer

Imagens incríveis de um polvo a “andar à boleia” num golfinho mostram a explosão populacional de polvos nas águas do Reino Unido. O fenómeno tem um nome: forésia.
Já alguma vez andou a cavalo? Ou de camelo? Ou imaginou como seria voar naquelas águias, como um hobbit?
Pois bem, fotografias tiradas na costa do Reino Unido revelam que não são só as pessoas a poder ter emoções fortes num passeio invulgar. Nelas parece ver-se um polvo passageiro agarrado à barbatana de um golfinho-de-Risso.
Bill Coulson, voluntário do projeto Risso’s Dolphin Project South West, estava a tirar fotografias quando captou as imagens do golfinho com o polvo.
Os golfinhos-de-Risso (Grampus griseus) encontram-se normalmente em águas profundas e têm uma dieta feita sobretudo de lulas, embora pareça que o indivíduo da fotografia possa ter ganho gosto por polvo.
Um relatório da Marine Biological Association tem estudado o aumento das populações de polvo-comum ao largo da costa sudoeste do Reino Unido desde o ano passado. Em 2025, o sudoeste registou a maior explosão populacional de polvo-comum em pelo menos 75 anos, explica o relatório.
“Estas fotografias dão-nos um vislumbre fascinante da ecologia alimentar dos golfinhos-de-Risso e das mudanças no ambiente marinho junto às nossas costas. Estão muito ligados aos cefalópodes, e avistamentos como este ajudam-nos a perceber como estão a reagir às mudanças na disponibilidade de presas”, explica Josh Symes, investigador de mestrado da University of Exeter, num comunicado.
O relatório revelou que a explosão afetou as comunidades piscatórias da zona, porque os polvos comem sapateiras (Cancer pagurus), lavagantes (Homarus gammarus) e vieiras (Pecten maximus), espécies que são vendidas comercialmente no sudoeste do Reino Unido.
“Continuamos a receber muitos relatos de polvos nas águas do sudoeste, e perceber o que está a provocar estas mudanças é uma área de investigação importante”, disse Bryce Stewart, investigador sénior da Marine Biological Association.
“As observações de interações entre golfinhos-de-Risso e polvo-comum ajudam a mostrar como as mudanças na abundância de uma espécie se podem repercutir em todo o ecossistema”.
A explosão do número de polvos deverá criar novas oportunidades de alimento para os golfinhos-de-Risso.
Estes resultados refletem os efeitos do aquecimento dos oceanos e das ondas de calor marinhas, que podem alterar a distribuição de diferentes espécies e provocar mudanças nos padrões e comportamentos alimentares.
“As imagens realçam também o valor da ciência cidadã, já que as observações dos voluntários nos ajudam a construir um retrato mais claro da vida marinha em todo o sudoeste”, disse Symes.
Em 2023, um polvo foi filmado a “andar à boleia” de um tubarão no golfo de Hauraki, perto da ilha de Kawau, no que a University of Auckland descreveu na altura como “uma visão deveras misteriosa“.
O fenómeno científico de animais que apanham mesmo boleia noutros chama-se forésia. Nestes casos, quem apanha a boleia tira algum tipo de benefício, enquanto o animal que serve de transporte não ganha nada, mas também não perde nada.
Não é claro, porém, que a boleia do polvo conte mesmo como um exemplo de forésia., diz o IFLScience: pode ser apenas que ao golfinho-de-Risso lhe tenha apetecido um petisco de oito tentáculos.
