Pesquisa da consultoria apontou que remédios já alcançavam cerca de 6% da população adulta; expansão colocaria País entre os com maior uso desse tipo de medicamento no mundo
Resumo
A redução de preços pode triplicar o uso de canetas emagrecedoras (GLP-1) no Brasil, segundo estudo da McKinsey. Hoje usados por 6% dos adultos, o custo ainda é o maior entrave. A adesão deve crescer com opções mais baratas, impulsionada pelo apelo estético nacional. O remédio também transforma a alimentação: usuários reduzem o consumo por impulso, como snacks, e passam a ler rótulos, buscando proteínas e menos açúcar, gerando novos hábitos que tendem a persistir mesmo após o fim do tratamento.
A redução de preços de medicamentos da classe GLP-1 pode levar a uma forte expansão do uso das chamadas canetas emagrecedoras no Brasil e até triplicar a adesão entre adultos, segundo estimativa apresentada pelo sócio da McKinsey Pedro Fernandes.
Pesquisa da consultoria com mais de 2 mil consumidores brasileiros apontou que os remédios já alcançavam cerca de 6% da população adulta no início deste ano e que o preço ainda era uma das principais barreiras para novos usuários.
Fernandes afirmou, no Agro Summit, evento promovido nesta quinta-feira, 10, pelo Bradesco BBI, em São Paulo, que o levantamento foi realizado entre março e abril para medir quem consumia os medicamentos, por quais motivos e como o tratamento estava alterando hábitos de compra e de alimentação.
Segundo ele, a estimativa de 6% surpreendeu a própria consultoria, porque dados do mercado formal indicavam penetração menor. A McKinsey, então, cruzou o resultado da pesquisa com outras fontes relacionadas ao acesso aos produtos para dimensionar o consumo.
O estudo também testou a reação dos consumidores a uma possível queda de preços. Segundo Fernandes, quase metade dos não usuários entrevistados disse ter interesse em começar a usar os medicamentos se houvesse redução entre 35% e 50%. Com base nessa resposta e em outros dados analisados, a McKinsey estimou que a entrada de opções mais baratas, entre genéricos e medicamentos análogos, poderia elevar em até três vezes a penetração no País.
“Realmente pode chegar até a triplicar a penetração do medicamento no Brasil”, disse Fernandes. Segundo ele, uma expansão dessa magnitude colocaria o Brasil entre os países com maior uso desse tipo de medicamento no mundo. O executivo ponderou que a redução de preços também deve ampliar a utilização em outros mercados, mas avaliou que o comportamento do consumidor brasileiro, inclusive a preocupação com estética, pode favorecer uma adoção especialmente elevada no País.
A pesquisa indicou ainda que o impacto dos GLP-1 vai além da perda de peso e começa a alterar decisões de consumo de alimentos. Entre os usuários entrevistados, 50% afirmaram ler informações nutricionais dos produtos, ante 15% entre os não usuários. Segundo Fernandes, esses consumidores passaram a observar com mais atenção itens como teor de proteína, calorias, açúcar e sódio.
Outra mudança aparece nas ocasiões de consumo. Usuários dos medicamentos declararam reduzir principalmente alimentos ingeridos por impulso ou fora das refeições principais. Para Fernandes, isso tende a atingir categorias muito dependentes desses momentos de compra, como snacks, que podem precisar adaptar formulações, posicionamento e comunicação.
“Alguns itens que dependem disso, snacks, por exemplo, podem ter que se reinventar”, afirmou. Segundo ele, o efeito não está necessariamente ligado apenas à quantidade de açúcar ou calorias, mas à redução da vontade de comer fora das refeições provocada pelo medicamento.
A mudança pode persistir parcialmente mesmo depois que o consumidor interrompe o tratamento. Fernandes disse que a maioria dos entrevistados não encara o uso como permanente. Em geral, segundo ele, os usuários permanecem entre dois e cinco meses no tratamento, normalmente até alcançar determinada meta de peso.
Ao deixar o medicamento, parte dos impulsos alimentares pode retornar, mas alguns hábitos adquiridos tendem a continuar. Fernandes citou a leitura de rótulos e a redução do consumo de açúcar como exemplos. “O que talvez não volte é, por exemplo, o consumo de açúcar. Eu acho que cai e cai em definitivo”, afirmou. Segundo ele, consumidores que passaram a prestar atenção nas informações nutricionais também tendem a manter esse comportamento após interromper o uso.
Para a McKinsey, a combinação entre maior acesso aos medicamentos e consumidores mais atentos à composição dos alimentos cria mudança relevante para empresas da cadeia. Produtos associados à proteína, à funcionalidade e a benefícios nutricionais mais claros podem ganhar espaço, enquanto categorias dependentes de compra por impulso terão de disputar menos ocasiões de consumo. “Eu acho que isso veio para ficar”, disse Fernandes.
