A construção da Ponte da Sibéria não nasceu do acaso. Foi resultado de muito trabalho técnico, articulação política, busca incessante por recursos e acompanhamento diário
Os vereadores do município distribuíram títulos e homenagens para dezenas de pessoas, mas esqueceram justamente de uma mulher que teve papel decisivo na realização de um dos maiores sonhos da população xapuriense. Foto: captada
A ingratidão, especialmente na política, revela muito sobre quem pratica. Quando representantes públicos ignoram pessoas que efetivamente contribuíram para melhorar a vida da população, passam uma mensagem ruim para todos os servidores sérios
Por Wânia Pinheiro
A política tem dessas coisas difíceis de engolir. Obras grandiosas costumam render discursos, fotografias, placas de inauguração e homenagens. Mas, muitas vezes, quem realmente colocou a mão na massa, enfrentou lama, sol, chuva, burocracia e pressão, acaba esquecido justamente na hora do reconhecimento público. E foi exatamente isso que aconteceu em Xapuri.
Nesta semana, os vereadores do município distribuíram títulos e homenagens para dezenas de pessoas. Tudo muito bonito, tudo muito festivo. Mas esqueceram justamente de uma mulher que teve papel decisivo na realização de um dos maiores sonhos da população xapuriense: a ex-presidente do Deracre, Sula Ximendes.
A construção da Ponte da Sibéria não nasceu do acaso. Foi resultado de muito trabalho técnico, articulação política, busca incessante por recursos e acompanhamento diário. Durante meses, Sula percorreu estradas, atravessou rios, encarou dificuldades e esteve presente em todas as etapas daquela obra histórica. Não ficou atrás de mesa com ar-condicionado esperando relatório chegar. Foi para o campo, acompanhou de perto e lutou para que a ponte saísse do papel.
Claro que a determinação maior partiu do governador Gladson Cameli, que priorizou a obra e não mediu esforços para garantir sua execução. Mas seria injusto ignorar o papel de quem executou, coordenou e sustentou o projeto no dia a dia. E nesse ponto, Sula Ximendes foi peça fundamental.

Durante meses, Sula percorreu estradas, atravessou rios, encarou dificuldades e esteve presente em todas as etapas daquela obra histórica. Foto: captada
O mais impressionante é que o trabalho dela não se limitou a Xapuri. Poucos gestores públicos rodaram tanto o Acre quanto Sula. Dos municípios mais próximos aos mais isolados, sua marca ficou registrada em obras de infraestrutura, recuperação de ramais, melhorias de pistas de pouso e aeródromos que hoje salvam vidas diariamente. Quantas pessoas já puderam ser removidas às pressas graças a pistas aptas para receber aeronaves em qualquer horário? Quantas comunidades deixaram de ficar completamente isoladas no inverno amazônico?
Esse tipo de trabalho raramente ganha aplausos permanentes. Porque obra pública séria não costuma gerar espetáculo; gera resultado. E talvez seja exatamente por isso que muitos acabam esquecendo rápido demais.
A ingratidão, especialmente na política, revela muito sobre quem pratica. Quando representantes públicos ignoram pessoas que efetivamente contribuíram para melhorar a vida da população, passam uma mensagem ruim para todos os servidores sérios: a de que dedicação, competência e compromisso podem não valer reconhecimento algum.
Homenagens não mudam a história de ninguém, é verdade. A Ponte da Sibéria continuará lá. As obras continuarão existindo. Os aeródromos seguirão salvando vidas. O legado permanece independentemente de medalhas ou títulos. Mas reconhecimento institucional é, acima de tudo, um gesto de respeito.
E respeito nunca deveria faltar para quem trabalhou de verdade pelo Acre.

O legado permanece independentemente de medalhas ou títulos. Mas reconhecimento institucional é, acima de tudo, um gesto de respeito. Foto: captada
