
O rio Maranguapinho tem com cerca de 34 km de extensão: lixo toma conta do leito
A rotina dos moradores que vivem nos bairros margeados pelos dois maiores rios de Fortaleza — o Cocó e o Maranguapinho — se mistura ao mau cheiro, à água escura e à preocupação constante com as chuvas.
“O Maranguapinho já começa em Fortaleza poluído”, resume Francisco Macêdo Lopes, líder comunitário na comunidade Planalto Vitória, localizada no bairro Canindezinho. Morando na região desde os início dos anos 2000, ele viu a água perder, ano após ano, a transparência que um dia foi fonte de alimento e diversão.
“Até entre 2008 e 2010, a água ainda era boa, bem diferente do que se vê hoje. Eu mesmo cheguei a tomar banho aqui. As mulheres lavavam roupa, as crianças brincavam, os homens pescavam. Mas isso tudo acabou por causa da poluição.”
O rio era também um modo de sustento. “Muita gente vivia desse rio: da pesca, da caça, da retirada de areia grossa que era vendida para construção de casas. Era uma luta diária, mas era uma forma de vida.”
Entrando por uma abertura no gradil instalado após as obras do Projeto Maranguapinho, é possível ver a água turva do rio correndo lentamente, resultado do nível baixo típico de um segundo semestre.
O Canindezinho é um bairro localizado quase na divisa de Fortaleza. Grande parte da contaminação do rio quando chega ao município, Macêdo presume, vem de indústrias em Maracanaú. “É esgoto doméstico, mas tem resíduo de fábrica também. A água já passa por aqui sem condição nenhuma.”
Fora a poluição hídrica, a margem ainda aparece ladeada por lixo: sacos plásticos, móveis descartados, entulhos e até carcaças de animais se acumulando em meio à vegetação.
O Maranguapinho, com cerca de 34 km de extensão, nasce no município de Maranguape, passa por Maracanaú, cruza vários bairros de Fortaleza, ainda corta Caucaia e segue até desaguar no rio Ceará. A poluição, porém, acompanha quase o caminho inteiro.
A poucos quilômetros dali, seguindo o curso do rio, está o Genibaú. Seu Raimundo Cícero, 80, é morador do bairro e observa todos os dias o canal que passa em frente sua casa, na rua Moçambique, correr espesso e de cor escura. A casa simples, construída próxima ao leito, é também testemunha da trajetória do Maranguapinho.
“Antigamente a água era azulzinha. O pessoal lavava roupa, tomava banho, pescava. Quando eu cheguei aqui, lá pros anos 1980, dava gosto de ver os peixes nadando. Hoje em dia, a gente nem tem coragem de colocar o pé.”
A rede de esgoto, segundo ele, nunca chegou na comunidade. “Todas as casas aqui têm ligação [esgoto] direto pro canal. Cai tudo aí dentro. Dizem que vão colocar o saneamento, mas faz tempo dessa conversa.”
Quem também acompanha de perto a degradação do Maranguapinho é Luis Leão da Silva, 77, morador e articulador popular do Genibaú.
Percorrendo o bairro, nas proximidades da avenida Genibaú, o odor forte queima o nariz e irrita os olhos. As bolhas que surgem na superfície da água são outro sinal de contaminação.
“Isso que estamos vendo vai tudo parar no mar. Lá tem banhista. Ou seja, não é só a população carente da beira do rio que sofre, o turista, a pessoa que vai se divertir na praia, todo mundo acaba em contato com isso.”
Ele se lembra com nostalgia e tristeza o rio que conheceu décadas atrás. “Eu pescava aqui, pegava peixe e levava pra casa pra alimentar minha família. Hoje, não deixo nem minha filha nem minha mulher chegarem perto. Queria que todas as pessoas pudessem sentir esse cheiro também, pra entender o que a gente passa.”
Foto: FCO FONTENELE
Poluição no entorno do Rio Maranguapinho Na foto: Luiz Leão da Silva, 77 morador do Genibaú às margens do Maranguapinho (Fco Fontenele/O POVO)
Segundo a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece), 73,04% da população de Fortaleza conta hoje com coleta e tratamento de esgoto. Outros 714 mil habitantes ainda aguardam atendimento. Assim, muitos moradores seguem recorrendo a soluções irregulares para o descarte dos resíduos.
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua de 2024, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), identificou que cerca de 26 mil residências da Capital utilizavam meios inadequados para descartar dejetos, como valas, rios e canais.
Dois anos antes, o Censo Demográfico de 2022, também do IBGE, mostrava um quadro semelhante: 72.361 domicílios em Fortaleza despejavam o esgoto em fossas rudimentares ou buracos, 6.851 em valas e 12.727 residências o lançavam diretamente em rios, lagoas, córregos ou no mar.
O rio mais extenso de Fortaleza, o Cocó, também enfrenta situação semelhante. “Hoje tem mais esgoto no Cocó do que o próprio rio”, diz Adriana Monteiro da Silva, 53, moradora do bairro Barroso. Ela aponta para uma tubulação grossa que despeja água escura fétida diretamente no Cocó. Enquanto fala, caminha entre a vegetação e o lixo que se concentra no leito.
Segundo ela, o problema envolve ligações de esgoto clandestinas, provavelmente para galerias pluviais. “Em baixo de nós passam duas tubulações. Existe a tubulação de esgoto da Cagece, que não está concluída, e existe uma outra tubulação, que não é da Cagece, mas que cai direto no rio”, explica.
Em fevereiro de 2022, o Governo do Estado e a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) assinaram a ordem de serviço para ampliar o sistema de esgotamento sanitário de Fortaleza.
Com investimento previsto de R$ 137 milhões, o objetivo era beneficiar mais de 100 mil moradores do Barroso e de outros sete bairros que integram a bacia de esgotamento à direita do rio Cocó.
Segundo a Cagece, no Barroso atualmente estão sendo implantadas novas redes coletoras. A conclusão dos trabalhos está prevista para setembro de 2027.
Em períodos de chuva forte, costumeiramente entre fevereiro a maio, o nível sobe e uma água mais limpa desce da barragem do rio Cocó.
“Até parece bom, porque a água dilui a sujeira, dá uma sensação de vida, tira o mau cheiro. Mas, ao mesmo tempo, a chuva traz muito transtorno para os moradores: traz lixo, causa enchentes, deixa as crianças doentes”, diz.
Na casa da família, onde também mantém o projeto social voltado a crianças da comunidade, Adriana mostra as marcas da última cheia, que alcançam a altura de seu peito.
“Essa água suja sobe e entra nas casas. Esse ano foi mais um desespero, acordamos uma noite com a água na cintura. Perdemos tudo. Todo mundo aqui perde tudo. E já fico pensando: tá chegando dezembro, daqui a pouco começa a chover de novo.”
Outra preocupação do Barroso é que o local recebe toneladas de resíduos da própria comunidade e de outros bairros, mesmo sem ser um lixão oficial. Como diz Adriana, “caminhões vêm de longe só para jogar aqui”.
No dia 4 de novembro, a Prefeitura de Fortaleza chegou a flagrar um caminhão descartando resíduos de forma irregular. A multa para esses casos varia de R$ 202,50 a R$ 32.400,00.
Mais de 11 quilômetros separam os bairros Barroso e Sabiaguaba. Em ambos, o Rro Cocó já foi sinônimo de banho, pesca e convivência.
“Antigamente, o pessoal tomava banho, pescava… Eu mesma cresci tomando banho no Cocó. A gente foi percebendo que isso foi diminuindo. Eu acho que 10 anos é um curtíssimo espaço de tempo”, conta Gleiciany Queiroz, líder comunitária.
Ela conta que a mudança está ligada, principalmente, à poluição no rio relacionada ao despejo de esgoto doméstico.
Sem rede de saneamento em parte da área, moradores abriram valas improvisadas pelas ruas. O líquido escuro escorre timidamente entre as casas. Basta seguir um dos percursos para ver a vala desaguar diretamente no Cocó, levando esgoto e resíduos da comunidade para o rio.
“A maioria é esgoto de pia e de chuveiro, o que chamam de águas cinzas. Ele corre pelas ruas e acaba chegando na lagoa”, explica Gleiciany.
Já os resíduos dos vasos sanitários, segundo ela, são direcionados para fossas rudimentares. “Mas não há controle, porque esse tipo de fossa acaba infiltrando e contaminando o solo também. A gente também desconfia que uma ou outra casa por aqui deve jogar os dejetos de vaso sanitário direto da lagoa.”
O impacto é visível para quem observa e convive. A fartura de peixes, antes comum o ano inteiro, hoje aparece apenas em períodos de cheia ou vazante. “A gente conseguia ver caranguejos, aratus [crustáceo]… Hoje em dia, só em algumas épocas do ano. Peixe morrendo também é frequente”, diz Gleiciany.
Inconformada com isso, Gleiciany decidiu iniciar um projeto voltado à formação de crianças da comunidade. O objetivo é despertar consciência ambiental e fortalecer vínculos com o território.
“Veio do desejo de buscar formas mais seguras de transformação. Acredito muito que cultura e educação são ferramentas poderosas pra isso. E é muito mais fácil trabalhar com as crianças do que tentar mudar a cabeça de um adulto já formado.”
“A gente cuida do que gosta, do que ama, do que tem vínculo. E nada melhor do que criar essas memórias afetivas na infância”, Gleiciany Queiroz.
Procurada, a Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima (Sema) afirmou que a Gestão do Parque Estadual do Cocó (PEC) realiza vistorias constantes no entorno da unidade de conservação. Segundo o órgão, inspeções recentes identificaram materiais descartados de forma irregular na zona de amortecimento do parque e, por isso, foi solicitado reforço de policiamento ao Batalhão de Polícia do Meio Ambiente (BPMA).
Sobre a comunidade Verde é Vida, na Sabiaguaba, a Sema informou que realizará uma vistoria conjunta com a Agefis, BPMA e outros órgãos competentes para verificar a situação.
Em relação ao rio Maranguapinho, a pasta destacou que ainda vai apurar se o fato ocorreu dentro da poligonal da área protegida.
Serviço
Denúncias podem ser encaminhadas pelo site www.sema.ce.com.br, pelo telefone ( 85) 3108-2794; e-mial ouvidoria@sema.ce.gov.br.
Para denúncias sobre como acúmulo de lixo, contatar a Prefeitura de Fortaleza pelo site ouvidoria.cgm.fortaleza.ce.gov.br/portal e telefone (85)3771-6612.
“Os rios podem se recuperar. Mas é preciso coletar e tratar o esgoto”
O geógrafo Flávio Nascimento, professor titular da Universidade Federal do Ceará (UFC), explica que o quadro encontrado nos rios Maranguapinho e Cocó representa uma crise maior, que envolve todo o sistema hídrico urbano de Fortaleza.
“Nós temos contaminação em grande escala nas duas principais bacias hidrográficas de Fortaleza. A mais problemática é a bacia do rio Maranguapinho. Ela é bastante afetada desde a região do Canindezinho, Jardim Fluminense, Parque Santa Rosa, Beira Lisboa, Conjunto Ceará, Genibaú, Alto Alegre e Quintino Cunha. É uma área muito impactada por dejetos, efluentes e pela ocupação irregular das margens”, diz o pesquisador.
Nascimento aponta que a bacia do Cocó, embora tenha parques e áreas de preservação, como o Parque Estadual do Cocó, também sofre com despejo de resíduos e ligações clandestinas.
Ele explica que Fortaleza tem três grandes desafios simultâneos:
1) Ocupação irregular de margens
A cidade suprime canais e áreas que deveriam absorver, filtrar e conduzir a água. Isso gera desequilíbrio ambiental, mais contaminação e dificuldade de recuperação dos corpos hídricos.
FORTALEZA, CE, BR – 10.11.25 – Poluição no entorno do Rio Cocó (Fco Fontenele/O POVO)
2) Despejo de esgoto sem tratamento
A matéria orgânica e os nutrientes consomem o oxigênio da água, levando à morte de peixes e à perda de biodiversidade. Esse excesso também provoca eutrofização, odores fortes e assoreamento das lagoas e riachos.
FORTALEZA, CE, BR – 10.11.25 – Poluição no entorno do Rio Maranguapinho (Fco Fontenele/O POVO)
3) Uso clandestino das galerias pluviais como rede de esgoto
Ligações ilegais fazem com que as galerias, criadas para drenar apenas água da chuva, passem a transportar esgoto bruto. Isso leva a poluentes diretamente para lagoas, rios e para o mar.
FORTALEZA, CE, BR – 10.11.25 – Poluição no entorno do Rio Cocó (Fco Fontenele/O POVO)
A degradação hídrica se reflete diretamente na biodiversidade dos rios e margens. “A fauna aquática sofre bastante. Em um dia muito quente, quando a água já está muito contaminada, o oxigênio dissolvido diminui drasticamente. Naturalmente, ocorre a mortandade de peixes em grande escala”, afirma.
Ele menciona também o avanço de espécies resistentes, como a gigoga (aguapé), apontados frequentemente como indicadores de poluição de corpos hídricos. “Ela se alimenta de nitrogênio e fósforo, os dois elementos mais abundantes na contaminação doméstica. Quanto mais nitrogênio e fósforo, mais as lagoas ficam cobertas.”
Mais da metade dos corpos hídricos de Fortaleza está impróprio
A contaminação microbiológica dos corpos hídricos é um dos fatores mais críticos para a saúde pública, afirma o professor Michael Barbosa Viana, doutor em Engenharia Civil (Saneamento Ambiental) e professor do Instituto de Ciências do Mar (Labomar), da Universidade Federal do Ceará.
Segundo ele, a carga de micro-organismos patogênicos despejada diariamente nos corpos d’água compromete a balneabilidade, aumenta o risco de doenças e pode contaminar até mesmo o pescado consumido pela população.
O parâmetro utilizado para definir se uma água é própria ou imprópria para banho é o mesmo para rios, lagos e mar. O limite é de 1.000 coliformes termotolerantes por 100 mililitros. “Grande parte dos rios e riachos de Fortaleza já ultrapassa esse limite devido à quantidade de esgoto que recebem”, aponta.
O monitoramento dos recursos hídricos na Capital é realizado pela Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (SEUMA), da Prefeitura de Fortaleza. Conforme o último Boletim de Balneabilidade, referente ao mês de agosto de 2025, dos 28 corpos d’água analisados, 17 apresentaram resultados acima dos limites permitidos.
Isso significa que mais da metade (67.8%) das lagoas e açudes monitorados foram classificados como impróprios para banho, em pelo menos uma das datas de amostragem. Os documentos não mencionam rios ou riachos.
Veja quais:
1. Açude Jangurussu
2. Açude João Lopes
3. Açude Santo Anastácio (Lagoa Da Agronomia)
4. Açude Uirapuru
5. Lago Jacarey
6. Lagoa Água Fria (Lagoa Seca)
7. Lagoa da Libânia
8. Lagoa da Maraponga
9. Lagoa da Messejana
10. Lago São Cristóvão
11. Lagoa da Precabura
12. Sapiranga
13. Lagoa do Catão
14. Lagoa do Papicu
15. Lagoa do Passaré
16. Lagoa do Porangabussu
17. Lagoa do Soldado
18. Lagoa Maria Vieira
19. Lagoa da Parangaba
Rios mortos, mares doentes
Quando essa carga de poluentes chega ao mar, a balneabilidade das praias também é comprometida. Em geral, as praias ficam mais contaminadas após as chuvas, que arrastam poluentes de rios, lagoas e galerias pluviais até o mar.
Na terceira semana de março deste ano, por exemplo, Fortaleza chegou a registrar 28 trechos impróprios para banho, restando apenas cinco adequados.
“Há evidências científicas de uma redução drástica na quantidade de peixes no nosso litoral nos últimos 40 anos. Os pescadores relatam que hoje capturam muito menos do que antigamente”, afirma o professor Michael Viana.
Com isso, muitos precisam navegar para áreas cada vez mais distantes, elevando custos e risco. “Isso afeta diretamente a sobrevivência dessas comunidades. É uma questão ambiental, econômica e social ao mesmo tempo”, avalia.
Fortaleza deve cumprir meta de 90% de cobertura de esgoto até 2033
Desde a criação do Marco Legal do Saneamento (Lei Nº 14.026/2020), que atualizou a Lei Nacional de Saneamento Básico, as concessionárias têm a obrigação de contemplar 90% da população com coleta e tratamento de esgoto até 2033.
Para cumprir essa meta, a Cagece e a Ambiental Ceará, empresa da Aegea Saneamento, atuam em parceria público-privada (PPP) desde 2023, em um contrato de concessão de 30 anos.
A Cagece atende 152 municípios cearenses, sendo 24 deles operados pela empresa privada, incluindo Fortaleza. Outras cidades contam com o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) via prefeituras.
Até o momento, estão previstos R$ 6,2 bilhões em obras pela PPP até 2033. Somente em Fortaleza, cerca de R$ 88 milhões serão investidos apenas na Capital para atingir a meta de 80% de cobertura da rede já em 2026.
Segundo Anderlany Rolim, gerente da Unidade de Negócio de Parceria da RMF Norte (Cagece), o plano de investimento para Fortaleza ainda está em fase de ajustes. “Para 2026, a previsão seria atender o bairro Curió e outras áreas, mas ainda estamos na fase de aprovação do plano”, diz.
A Cagece ainda informou que bairros como Sabiaguaba e Genibaú estão atualmente na fase de elaboração dos projetos, mas ainda não há previsão para o início das obras.
Foto: FCO FONTENELE
FORTALEZA, CE, BR – 10.11.25 – Poluição no entorno do Rio Maranguapinho (Fco Fontenele/O POVO)
Segundo a Cagece, após concluída a instalação a rede, o serviço de coleta e tratamento de esgoto possui uma tarifa correspondente a 80% do volume de água consumido. A taxa é necessária para garantir a qualidade do tratamento.
Para famílias em situação de vulnerabilidade, a empresa disponibiliza a tarifa social. O benefício é destinado a clientes inscritos no Bolsa Família, com imóveis de padrão básico e consumo mensal de até 10 m³.
“O valor é de aproximadamente R$ 25 para água e R$ 20 para esgoto, totalizando cerca de R$ 45 para os dois serviços”, explica a gerente de Interação e Responsabilidade Social da Cagece, Robervânia Barbosa.
A cidade conta hoje com 3.171 quilômetros de rede instalada e cerca de 900 mil ligações ativas. Ainda assim, cerca de 155 mil ligações permanecem ociosas. Ou seja, a rede existe, mas o imóvel não está conectado.
Águeda Muniz, diretora de Relações Institucionais da Ambiental Ceará, reforça que a conexão domiciliar é decisiva para que os investimentos públicos e privados tenham impacto real.
“Para que seja efetivo e gere bem-estar à sociedade, meu imóvel precisa estar conectado à rede. Os benefícios são muitos. Enquanto se investe R$ 1 em saneamento básico, no caso do Ceará, quase R$ 4 são economizados em custos de saúde. Quanto à valorização imobiliária, um imóvel com saneamento adequado tem, em média, 15% de valorização a mais.”
A Cagece não realiza a interligação dentro do imóvel, etapa que deve ser feita por um profissional contratado pelo próprio morador.
“O esgotamento sanitário recolhe apenas o esgoto interno, vindo de banheiros, lavanderias e pias de cozinha. Essa tubulação vai até a calçada, onde existe uma caixa de inspeção, cuja manutenção é responsabilidade da prefeitura, e depois segue para a rede coletora na via pública, iniciando o processo de coleta e tratamento”, diz a gerente.
“Portanto, o serviço interno deve ser feito por um profissional capacitado, que saiba diferenciar [as redes de] água de chuva de esgoto”, conclui Robervania Barbosa.
Nos casos em que a rede já está disponível, mas a residência não é conectada, a companhia pode acionar a fiscalização municipal.
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Falta de ligação à rede de esgoto: multas de R$ 90 a R$ 14.400 (artigos 78 e 944 do Código da Cidade).
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Ligação irregular (galerias pluviais ou corpos d’água sem tratamento): multas de R$ 303,75 a R$ 48.600, além de medidas administrativas.
A Agência de Fiscalização de Fortaleza (Agefis) vem executando, desde o final de 2023, o plano “Monitoramento de lançamento de efluentes nas galerias pluviais”. De acordo com a Agência, em 2024, foram realizadas 829 fiscalizações do plano, resultando em 284 autos de infração e 59 notificações. Neste ano, até a presente data, foram registradas 594 fiscalizações, 67 autuações e 129 notificações.
