Categoria: ESG na Prática
Redação spriomais • Publicado em 29/12/2024, às 9:08 • Atualizado em 29/12/24, às 9:08
Quando o meio ambiente finalmente se torna uma prioridade em políticas públicas, logo surgem manobras que desviam recursos ou flexibilizam sua destinação, comprometendo os objetivos originais. O recente caso em Ubatuba, onde a Câmara Municipal aprovou uma mudança nas regras de destinação da taxa ambiental, é um exemplo claro dessa triste recorrência. A decisão, que permite que até 30% da arrecadação mensal seja usada em áreas desvinculadas da proteção ambiental sem aprovação do conselho municipal, levanta questões importantes sobre transparência, governança e compromissos ambientais.

(Crédito: Reprodução)
O contexto da taxa ambiental
A taxa ambiental de Ubatuba, instituída em fevereiro de 2023, arrecadou mais de R$ 78 milhões desde sua implementação. Inicialmente destinada a projetos de preservação ambiental, como a implantação da coleta seletiva – que já permitiu reciclar 25 toneladas de resíduos por mês – a taxa surgiu como uma solução para mitigar os impactos da alta temporada em uma cidade que recebe milhares de turistas. No entanto, a recente aprovação do projeto de lei complementar que desvincula parte dessa verba para outras finalidades acende um alerta: será que com o tempo o meio ambiente estará novamente sendo colocado em segundo plano?
A proposta de usar até 30% dos recursos em áreas fora da esfera ambiental pode parecer uma solução pragmática para atender a “prioridades urgentes” da cidade. No entanto, sem a análise e aprovação do conselho municipal de meio ambiente – uma instância que deveria garantir que os recursos sejam utilizados de forma responsável – abre-se espaço para decisões arbitrárias e falta de transparência. Esse tipo de mudança frequentemente transforma recursos ambientais em uma espécie de “fundo de emergência”, enfraquecendo o propósito para o qual foram criados. Um grande exemplo contrário de práticas ESG na esfera pública.
Outros Casos
A prática de redirecionar recursos ambientais não é exclusiva de Ubatuba. O Fundo Clima, no Brasil, é um exemplo marcante de como desvios e subutilização comprometem ações ambientais. Em 2020, apenas 0,6% dos R$ 543 milhões disponíveis foram aplicados em projetos climáticos, segundo o Observatório do Clima. Grande parte dos recursos foi realocada para áreas que nada tinham a ver com o enfrentamento das mudanças climáticas.
No cenário internacional, o Fundo Verde para o Clima, criado para ajudar países em desenvolvimento a implementar ações climáticas, enfrentou problemas semelhantes. Dos US$ 100 bilhões anuais prometidos por nações ricas, uma parte significativa tem sido direcionada para empréstimos, não doações, aumentando a dívida de países já vulneráveis aos impactos climáticos.
Esses desvios têm impactos tangíveis. No caso de Ubatuba, enfraquecer os investimentos em projetos ambientais pode comprometer diretamente a preservação da biodiversidade local, essencial para manter a atratividade turística da região. Além disso, a ausência de governança transparente pode gerar desconfiança na população, dificultando futuras iniciativas de arrecadação para causas ambientais.
Globalmente, o desvio de recursos ambientais contribui para crises como o desmatamento crescente. Na Amazônia, por exemplo, o desmatamento que escala cada vez mais, agravado pela falta de financiamento adequado para monitoramento e fiscalização. No Brasil, os custos da degradação ambiental ultrapassam R$ 1,5 trilhão por ano, segundo dados do IBGE, evidenciando o preço alto da negligência ambiental.
A Importância da Governança
Casos como o de Ubatuba reforçam a necessidade de governança sólida, especialmente em questões ambientais. Modelos de sucesso, como o Fundo Amazônia, mostram que é possível administrar recursos de forma eficiente e transparente. Com auditorias regulares e participação da sociedade civil, o fundo financiou mais de 100 projetos que ajudaram a reduzir o desmatamento e promover o desenvolvimento sustentável.
Outro exemplo positivo vem da Noruega, onde o fundo soberano investe parte de seus lucros do petróleo em projetos de energia renovável, mantendo um compromisso consistente com a sustentabilidade.
A decisão de Ubatuba representa mais um capítulo no ciclo de prejuízos ao meio ambiente, muitas vezes tratado como uma prioridade descartável. É essencial que iniciativas ambientais sejam protegidas por governança sólida e transparência, garantindo que recursos sejam usados para seu propósito original. Desviar recursos ambientais é um erro que não apenas compromete projetos essenciais, mas também prejudica a credibilidade das políticas públicas e a confiança da população. Se queremos um futuro sustentável, precisamos romper com essa prática. Afinal, o meio ambiente não pode continuar sendo o eterno prejudicado nas decisões de curto prazo.
E indo além, casos como o de Ubatuba, cabe a nós agirmos em prol de uma governança transparente e da proteção ambiental. Afinal, a inércia não apenas nos distancia da solução, mas nos transforma diretamente em parte do problema.
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