Cavalo mangalarga de R$ 12 milhões teria morrido após consumir ração. Foto: reprodução

Um prejuízo de R$ 82,5 milhões

O Ministério Público de Alagoas (MPAL) denunciou a empresa Nutratta Nutrição Animal, seu sócio majoritário e o administrador operacional e financeiro pela morte de 80 cavalos da raça Mangalarga Marchador no Haras Nova Alcatéia, em Atalaia (AL). Segundo o MP, o prejuízo estimado para o criatório chega a R$ 82,57 milhões.

A dimensão financeira do caso está diretamente ligada ao perfil dos animais. O haras atua há mais de 50 anos com criação e seleção genética de equinos, o que significa que o valor perdido não se limita ao preço individual de cada cavalo. O plantel representa patrimônio genético, capacidade reprodutiva, linhagens e potencial de valorização.

Entre os animais mortos estava um dos exemplares de maior destaque do criatório, avaliado anteriormente em cerca de R$ 12 milhões.

O que havia na ração

De acordo com a investigação, as rações NutriMax e Forragem Horse fornecidas pela empresa continham alcaloides pirrolizidínicos, entre eles a monocrotalina, substâncias tóxicas associadas a plantas do gênero Crotalaria.

O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) apontou que a contaminação teria chegado à produção por meio de resíduo de soja contaminado, matéria-prima considerada inadequada para alimentação animal. Fiscalizações também identificaram falhas no armazenamento, na segregação de materiais e no controle da pesagem dos insumos.

Nos animais do haras, os sinais incluíram letargia, alterações na marcha, movimentos em círculos, cegueira e compressão da cabeça, além de insuficiência hepática. Os laudos apontaram quadro compatível com intoxicação alimentar.

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Uma crise que ultrapassou Alagoas

O episódio não ficou restrito ao Haras Nova Alcatéia. Desde 2025, o MAPA investiga mortes e adoecimentos de equinos associados ao consumo de produtos da Nutratta. Naquele ano, o ministério já havia contabilizado centenas de mortes em propriedades de Alagoas, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro.

Em uma das atualizações divulgadas pelo governo, foram contabilizadas 284 mortes de equinos. A investigação encontrou os mesmos alcaloides pirrolizidínicos nas amostras analisadas e levou à suspensão cautelar da fabricação e comercialização de rações da empresa.

O caso também chegou ao Ministério Público de São Paulo, que ajuizou ação civil pública em 2026 envolvendo mortes e adoecimento de animais e pediu, entre outras medidas, bloqueio de ativos, recall dos produtos e indenização por danos coletivos.

O problema vai além dos cavalos

A crise chama atenção para um ponto sensível do agronegócio: controle de qualidade e rastreabilidade de matérias-primas utilizadas na alimentação animal.

A Nutratta produzia rações para diferentes espécies. Em investigação anterior, o Ministério Público apontou preocupação com a possibilidade de contaminação cruzada e com a exposição de outros animais aos alcaloides tóxicos.

Para o mercado de criação de animais de alto valor, o episódio demonstra como uma falha em um elo da cadeia pode produzir consequências muito superiores ao custo do próprio insumo.

Justiça busca garantir reparação

Na denúncia apresentada nesta segunda-feira (17), o MPAL pediu o sequestro e a indisponibilidade de bens móveis e imóveis, ativos financeiros e participações societárias da empresa e dos denunciados, como forma de preservar recursos para eventual reparação dos danos.

A denúncia representa uma nova etapa do caso, que já passou por investigações sanitárias, laudos laboratoriais, interdições e ações judiciais. A Nutratta ainda poderá apresentar sua defesa no processo. A responsabilização dos denunciados dependerá da tramitação judicial e das decisões da Justiça.

O caso deixa uma pergunta que interessa a toda a cadeia de produção animal: quanto custa uma falha de controle de qualidade quando o produto alimenta um patrimônio que pode valer milhões?

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By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART