Quarenta anos volvidos, o desastre permanece como o caso mais conhecido de uma libertação catastrófica de gases dissolvidos num lago, fenómeno que viria a ser designado por erupção límnica. A sua dimensão revelou, de forma brutal, um risco natural até então praticamente desconhecido e obrigou a compreender como um lago aparentemente estável podia armazenar, durante anos, enormes quantidades de dióxido de carbono.

O Lago Nyos integra o campo vulcânico de Oku e ocupa uma cratera, um maar, com cerca de 1,9 quilómetros por 1,2 quilómetros. O dióxido de carbono de origem magmática chega ao lago através do subsolo e dissolve-se nas águas profundas, onde a pressão permite que permaneça retido. A forte estratificação das águas impede uma circulação regular entre o fundo e a superfície, favorecendo a acumulação progressiva do gás.

Quando o equilíbrio se rompeu

Na noite de 21 de agosto, esse equilíbrio alterou-se. O que desencadeou o processo continua a ser discutido. Um grande deslizamento de terras é atualmente apontado como uma causa provável, embora outras explicações tenham sido propostas ao longo das últimas décadas. Um relatório científico do USGS publicado em 2024 refere precisamente um grande deslizamento como o desencadeador mais provável da libertação catastrófica.

A partir daí, o mecanismo físico tornou-se autossustentado. Quando a água profunda, carregada de CO₂, começou a subir, a redução da pressão permitiu que o gás saísse de solução e formasse bolhas. A diminuição da densidade da água acelerou a sua ascensão, transportando consigo novas quantidades de água saturada e ampliando rapidamente a libertação.

Vista sobre o Lago Nyos.
Vista sobre o Lago Nyos.
Créditos: Wikimedia Commons

O Smithsonian estima que tenham sido emitidos cerca de um quilómetro cúbico de dióxido de carbono de origem magmática. Mais denso do que o ar, o CO₂ deslocou-se pelas encostas e vales em redor do lago, concentrando-se junto ao solo. O gás é incolor e, em concentrações elevadas, pode provocar rapidamente perda de consciência e morte por asfixia.

Quando equipas médicas e científicas chegaram à região, encontraram vítimas a vários quilómetros do lago. O desastre não destruíra edifícios nem deixara as marcas normalmente associadas a uma erupção vulcânica, mas a distribuição das mortes acompanhava as depressões do terreno por onde a massa de CO₂ se tinha propagado.
Nyos também não fora o primeiro aviso. Dois anos antes, em 15 de agosto de 1984, uma libertação de gás no Lago Monoun, igualmente nos Camarões, provocara dezenas de mortes. Só depois da dimensão alcançada pela catástrofe de Nyos, porém, se tornou evidente que este tipo de lago podia constituir um risco natural de grande escala.

Retirar o gás antes que volte à superfície

A solução encontrada passou por reduzir artificialmente a quantidade de dióxido de carbono acumulada nas águas profundas. Depois de vários estudos e experiências, em 2001 entrou em funcionamento no Lago Nyos um sistema de desgaseificação através de uma tubagem vertical. A água rica em CO₂ é conduzida das profundezas até níveis onde a menor pressão permite libertar o gás de forma controlada; uma vez iniciado, o próprio processo de libertação do CO₂ ajuda a manter o fluxo de água.

O sistema foi posteriormente reforçado e a concentração de gás no lago diminuiu de forma considerável. Um estudo publicado em 2020 concluiu que a fase principal de desgaseificação tinha atingido os seus objetivos e que a operação de uma única conduta poderia ser suficiente para compensar aproximadamente a entrada natural de novo CO₂. O gás, contudo, continua a chegar ao lago através do sistema vulcânico subterrâneo, razão pela qual a monitorização permanece necessária.

O que aconteceu no Lago Nyos em 1986 tornou-se desde então uma referência para o estudo de outros lagos capazes de armazenar grandes volumes de gases dissolvidos. Também mostrou que uma catástrofe vulcânica não precisa de lava, cinzas ou uma explosão para ser devastadora. Em Nyos, bastou que se rompesse o equilíbrio que, durante anos, mantivera o dióxido de carbono preso a mais de uma centena de metros de profundidade.

By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART