O perigo do homem mais poderoso do mundo não estar no seu perfeito juízo resulta numa ameaça global que já não pode ser ignorada. Bastará ler o conteúdo da carta que escreveu ao primeiro-ministro norueguês para se compreender que há um sério problema cognitivo a afetar o Presidente norte-americano. As alusões ao prémio Nobel que não lhe foi atribuído, as ameaças objetivas à paz enquanto prioridade abandonada, as referências absurdas à colonização da Gronelândia pelos dinamarqueses, as mentiras relativamente à NATO compõem um texto que, se não fosse dramático, poderia ser atribuído a uma criança birrenta.

Não se culpe a Europa: não há forma eficiente de lidar com o nonsense de Donald Trump. Não há tática ou estratégia que sejam adequadas, e já quase tudo foi ensaiado. Já se tentou elogiar Trump sem razão aparente, como o fez o secretário-geral da NATO, já se acedeu às suas imposições, como fez a União Europeia, já lhe ofereceram prebendas, já o ameaçaram. Nada funcionou.

Ou seja, não é no âmbito das relações internacionais, cada vez mais tensas, que se conseguirá impedir o desastre que se anuncia. Os únicos líderes mundiais que Trump quer ouvir – e, porventura, emular – não são de confiança.

Lendo a imprensa liberal americana, vai-se percebendo que há uma consciência crescente de que o problema tem de ser resolvido nos EUA, e a chave não está no Partido Democrata. Nem sequer há tempo para esperar um ano pelas eleições intercalares, pois Trump já ameaçou não permitir que se realizem. No artigo intitulado A carta de Trump à Noruega deve ser a última gota de água, publicado na revista The Atlantic, a escritora e jornalista norte-americana Anne Applebaum defende que a única solução passa pelos senadores e congressistas republicanos.

Pese embora a sua proverbial ignorância sobre o que se passa fora das fronteiras dos EUA, os americanos já não podem ignorar que o seu Presidente não pode continuar de rédea solta. De resto, os estudos de opinião demonstram que o eleitorado de Trump está cada vez mais desiludido com o Governo dos EUA. Só que já não há muito tempo e um passo em falso pode ter consequências cataclísmicas, uma vez que o próprio sistema democrático norte-americano está em sério risco.

Bem sei que muito dos eleitos MAGA são cegos no seu apoio a Trump, e terão receio da alternativa: o número dois da Casa Branca, J.D. Vance, consegue ser ainda mais sinistro do que o Presidente. Mas acredito que os senadores e congressistas republicanos ignorados pela presidência não vão continuar a tolerar uma situação tão adversa para os seus interesses e para os valores históricos do Grand Old Party.

Para que isso suceda, os europeus devem atuar diretamente junto dos opositores de Trump, influenciando a opinião pública americana e promovendo iniciativas diplomáticas paralelas dirigidas aos eleitos insatisfeitos com a Administração. E devem, obviamente, agir de imediato contra todas as grandes empresas americanas alinhadas com Trump, que inspiraram a sua estratégia hegemónica e fomentam a sua megalomania.

Um dia, e esperemos que não seja demasiado tarde, as relações entre os EUA e os seus aliados voltarão à normalidade, mesmo que, entretanto, a NATO seja destruída por uma intervenção americana no Gronelândia. Os valores que continuamos a partilhar impõem-nos essa agenda, numa altura em que o nosso velho aliado está à deriva.

By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART

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