O ataque não foi o primeiro e talvez não seja o único contra aliados do Kremlin desde fevereiro de 2022. Nestes quase três anos, cientistas, blogueiros, políticos e influenciadores foram mortos, em ações que levaram vários supostos autores à cadeia, mas não eliminaram o medo crescente em determinados círculos políticos russos.

Veja alguns dos atentados atribuídos à Ucrânia.

Policiais analisam local onde ocorreu atentado contara Darya Dugina, nos arredores de Moscou — Foto: Comissão Investigativa da Rússia / AFP
Policiais analisam local onde ocorreu atentado contara Darya Dugina, nos arredores de Moscou — Foto: Comissão Investigativa da Rússia / AFP

A primeira vítima de atentados atribuídos aos ucranianos provavelmente não era o alvo de fato do ataque. Darya Dugina, apresentadora de TV e personalidade da internet, era filha de Alexander Dugin, um filósofo que tem grande influência nos corredores do Kremlin, e era fervoroso defensor da anexação de parte da Ucrânia. Os dois — Darya e Alexander — participaram de um festival nos arredores de Moscou, em agosto de 2022, e deveriam voltar para casa no mesmo carro, mas o filósofo decidiu, na última hora, viajar em outro veículo.

Segundo a polícia, um explosivo debaixo do carro foi detonado em uma rodovia, matando Darya no local — Dugin não se feriu, e uma imagem dele olhando para os destroços do carro foi amplamente divulgada pela imprensa russa. Kiev negou qualquer responsabilidade, mas dois cidadãos ucranianos foram acusados pelo ataque. Ambos, de acordo com a Justiça russa, deixaram o país um dia antes da explosão.

Café onde ocorreu atentado que matou o blogueiro militar Vladlen Tatarsky, em São Petersburgo — Foto: OLGA MALTSEVA / AFP
Café onde ocorreu atentado que matou o blogueiro militar Vladlen Tatarsky, em São Petersburgo — Foto: OLGA MALTSEVA / AFP

Proeminente blogueiro militar, Vladlen Tatarsky, ou Maxim Fomin, seu nome verdadeiro, daria uma palestra em um café de São Petersburgo, cujo dono anterior era o chefe do Grupo Wagner, Yevgeny Prigojin (morto em um suspeito acidente de avião), em abril de 2023. Mas ele sequer começou a falar: uma explosão o matou quase instantaneamente, e deixou 24 pessoas feridas na plateia. Segundo os investigadores, antes do início do evento, uma jovem, identificada como Daria Trepova, lhe entregou uma caixa com o que disse acreditar ser um microfone — na verdade, havia explosivos disfarçados em uma escultura. Trepova, que negou ter conhecimento prévio sobre o ataque, foi condenada a 27 anos de prisão. Sem assumir a culpa, Kiev declarou que era o resultado de “disputas internas” na Rússia.

Ilya Kyva, ex-deputado ucraniano — Foto: Divulgação
Ilya Kyva, ex-deputado ucraniano — Foto: Divulgação

Ex-deputado ucraniano que defendia a rendição imediata de Kiev, Ilya Kyva fugiu para a Rússia pouco depois da invasão, e passou a ser figura recorrente em programas da TV estatal russa, jamais com palavras amenas sobre o governo ucraniano. Anos antes, em 2019, havia lutado com os rebeldes pró-Moscou no Leste da Ucrânia, um feito que ajudou em sua condenação, à revelia, por traição pela Justiça de seu país. Em dezembro de 2023, ele caminhava em um parque próximo ao hotel onde estava hospedado, nos arredores de Moscou, quando foi baleado na cabeça e morreu no local. Um porta-voz da do serviço de inteligência militar da Ucrânia afirmou que “o mesmo destino cairia sobre os outros traidores” do país.

Mikhail Shatsky, engenheiro militar — Foto: Reprodução / Redes Sociais
Mikhail Shatsky, engenheiro militar — Foto: Reprodução / Redes Sociais

Um dos especialistas responsáveis pelo desenvolvimento e modernização dos mísseis de cruzeiro russos Kh-59 e Kh-69, usados amplamente no conflito da Ucrânia, caminhava em uma floresta a cerca de 13 km do Kremlin quando foi morto a tiros,no dia 13 de dezembro. Pouco depois do assassinato, fotos do corpo começaram a circular em canais pró-Ucrânia no Telegram, e uma fonte militar ucraniana deu uma declaração um tanto quanto contundente ao jornal Kyiv Independent:

— Qualquer pessoa envolvida no desenvolvimento do complexo militar-industrial russo e que apoie a agressão russa na Ucrânia de uma forma ou de outra é um alvo legítimo das Forças de Defesa (ucranianas) — afirmou a fonte.

O sobrevivente: Zakhar Prilepin

Imagem dos destroços do carro de Zakhar Prilepin após explosão neste sábado — Foto: Divulgação / Comissão de Investigações da Rússia
Imagem dos destroços do carro de Zakhar Prilepin após explosão neste sábado — Foto: Divulgação / Comissão de Investigações da Rússia

Em maio de 2023, o escritor nacionalista e apoiador da invasão na Ucrânia Zakhar Prilepin estava no banco do carona em carro em uma estrada na região de Nijni Novgorod quando um explosivo instalado no veículo foi detonado. O motorista morreu, e Prilepin, que também havia tentado se eleger para o Parlamento, sofreu ferimentos graves, mas se recuperou. Um cidadão ucraniano, Alexander Permyakov, foi considerado culpado pelo atentado e sentenciado à prisão perpétua, e os promotores afirmaram que ele agiu a mando de Kiev, que jamais assumiu responsabilidade Um grupo formado por ucranianos e tártaros da Crimeia afirmou ter sido o responsável, mas sem apresentar provas.

“Vocês não vão intimidar ninguém”, escreveu Prilepin no Telegram, pouco depois do ataque. “Obrigado a todos que oraram, porque deveria ter sido impossível sobreviver a uma explosão dessas”.

Source link

By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *