*Artigo escrito por Jorge Eduardo de Araujo Saadi, Advogado, Secretário Municipal de Administração da Prefeitura Municipal de Cariacica.
Em um cenário de crescente cobrança por resultados, ética e sustentabilidade, a aplicação do conceito de ESG (Environmental, Social and Governance) no setor público deixou de ser uma tendência para se tornar uma necessidade.
O maior desafio, contudo, está em transformar princípios ambientais, sociais e de governança em decisões concretas, políticas públicas consistentes e resultados capazes de alcançar efetivamente os anseios da sociedade. Em outras palavras, trata-se de converter a retórica institucional em ações efetivas e entregas reais.
No âmbito da administração pública, a aplicação da metodologia ESG ainda encontra obstáculos conhecidos, como burocracia, restrições orçamentárias, mudanças de gestores, falta de integração entre setores e dificuldade de monitoramento de indicadores. Aliado a isso, soma-se um entrave ainda mais profundo: a cultura organizacional.
Historicamente, sustentabilidade, transparência, integridade, planejamento e participação social são tratados como exigências formais, e não como fundamentos de gestão eficiente e orientada a resultados.
Uma forma de enfrentar esse cenário é tratar o ESG como critério estruturante da gestão pública. Porém, isso exige liderança institucional, capacitação continuada das equipes, definição de metas objetivas, criação de indicadores mensuráveis e integração do tema aos instrumentos de planejamento, orçamento e monitoramento.
O desafio não está apenas em cumprir protocolos, mas em fazer com que a sustentabilidade, a transparência, a integridade e a participação social orientem, de forma concreta, a tomada de decisão no setor público.
Além dos ganhos institucionais, a adoção de práticas ESG também pode trazer efeitos concretos para a gestão municipal. O Ranking do Centro de Liderança Pública (CLP), por exemplo, incorpora dimensões associadas ao conceito de ESG na avaliação da administração pública, estimulando boas práticas, maior eficiência e responsabilidade na entrega de serviços à população.
Soma-se a isso a possibilidade de acesso a linhas de crédito e condições diferenciadas para municípios que adotam critérios de sustentabilidade, como ocorre em iniciativas vinculadas ao Selo Caixa de Gestão Sustentável, que reconhecem avanços em governança, responsabilidade socioambiental e eficiência administrativa. Nesse contexto, o ESG deixa de ser apenas uma diretriz conceitual e passa a funcionar também como instrumento de valorização institucional e de indução a melhores resultados.
Ademais, em tempos de cobranças crescentes por desempenho, a maturidade institucional será medida muito mais pela capacidade de transformar princípios em entregas concretas para a sociedade do que por meros anúncios e estratégias de comunicação.
Desta maneira, o maior desafio dos gestores não é compreender o conceito de ESG, mas ter coragem, método e liderança para tirá-lo do papel.
Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, o posicionamento do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo, bem como da organização à qual esteja vinculado profissionalmente.
