O dólar passou a ocupar o centro das preocupações de investidores que acompanham o Brasil. Para o Bank of America, a moeda americana virou o principal termômetro dos ativos locais em um momento de mudança rápida no humor estrangeiro, alta das curvas globais de juros e dúvidas sobre a trajetória da inflação nos Estados Unidos.
O banco ainda trabalha com a tese de dólar mais fraco como cenário base, sustentada pela expectativa de cortes de juros pelo Federal Reserve no próximo ano. A margem de segurança, porém, ficou menor. Se o câmbio se afastar do patamar próximo de R$ 5, o impacto pode aparecer em inflação, juros e fluxo para Bolsa.
“Quando seu único fundamento for o carrego, é risco. Porque aí o spot anda e você perdeu o carrego em um dia”, afirmou David Beker, estrategista-chefe de ações para a América Latina e economista-chefe para o Brasil do BofA, ao InfoMoney.
Câmbio perto de R$ 5 segura parte da pressão inflacionária
A preocupação do BofA passa pela inflação brasileira. O banco projeta IPCA de 5,5% em 2026, acima do consenso de mercado, e vê riscos adicionais no segundo semestre. Entre os fatores citados estão a normalização dos preços de fertilizantes e os efeitos do El Niño.
Nesse cenário, o câmbio tem funcionado como amortecedor. Um dólar mais comportado ajuda a limitar pressões sobre produtos importados, insumos, combustíveis e cadeias ligadas a commodities. Se a moeda americana voltar a subir com força, a conta muda.
“Imagina o que seria o nosso cenário hoje de inflação se o câmbio não estivesse perto dos R$ 5”, disse Beker.
A leitura é relevante porque a inflação ainda influencia diretamente a expectativa para juros. Um câmbio mais pressionado pode dificultar cortes mais rápidos ou prolongar a cautela do Banco Central.
Mudança no humor estrangeiro foi rápida
O alerta vem depois de uma virada brusca no mercado. Há poucas semanas, o ambiente parecia favorável para países latino-americanos: dólar fraco, commodities em alta e investidores globais ainda pouco expostos à região.
Esse quadro perdeu força com a alta das curvas de juros globais e a volta da busca por empresas de tecnologia. A rotação prejudica a América Latina porque os índices locais têm peso maior de bancos, petróleo, mineração e outras companhias de valor.
Na visão de Beker, a Bolsa brasileira corrigiu, mas ainda não ficou barata o suficiente para atrair de volta todos os investidores que saíram.
“O preço não está caro, mas não está um barganhão”, afirmou.
Fim da guerra pode não ser alívio automático
Outro ponto de atenção é o efeito de um eventual acordo entre Estados Unidos e Irã. Em tese, o fim da guerra poderia melhorar o apetite a risco. O problema é que a queda do petróleo também pesaria sobre empresas ligadas a commodities, especialmente a Petrobras.
Para o BofA, o mercado pode viver forças opostas. De um lado, menos tensão geopolítica favorece ativos de risco. De outro, a queda de commodities reduz o apoio a uma parte importante do Ibovespa.
“A gente vai estar com o pé no acelerador porque acabou a guerra, mas com o pé no freio porque essa composição de commodities vai puxar um pouco para baixo”, disse Beker.
Mesmo assim, o estrategista ainda espera saldo positivo depois dos primeiros ajustes do mercado, caso o cenário de menor tensão se confirme.
Risco é dinheiro sair da América Latina
O grande temor é uma troca de destino dentro dos mercados emergentes. Se o investidor global entender que outras regiões oferecem uma combinação melhor de crescimento, tecnologia, juros e risco, parte do capital pode sair da América Latina.
“O risco é a gente ter uma migração dentro dos emergentes, saindo dinheiro da América Latina e indo para outras regiões”, afirmou Beker.
Essa mudança já começou a aparecer no fluxo recente. O capital estrangeiro saiu da Bolsa brasileira no último mês, embora o saldo acumulado no ano ainda seja positivo.
Para o BofA, os fundamentos não mudaram tanto quanto a percepção de risco. A narrativa, porém, piorou.
“O fundamento em si está muito parecido, mas a narrativa está bem pior”, disse o estrategista.
