João, 16 anos, foi encaminhado ao ambulatório após sucessivas idas à emergência por queixas vagas: cefaleia, dores musculares difusas, taquicardia e crises de falta de ar. Há oito meses, esteve envolvido em um grave acidente automobilístico, no qual o veículo conduzido pelo pai colidiu frontalmente com um caminhão. João sobreviveu com fraturas leves, mas presenciou o resgate demorado do pai, que permaneceu hospitalizado por semanas.

Desde o acidente, o adolescente passou a apresentar queda no rendimento escolar, isolamento social e irritabilidade. A família, preocupada principalmente com as queixas físicas, buscava respostas objetivas. Em consultas anteriores, João recebeu analgésicos e, em alguns momentos, benzodiazepínicos para “controle de ansiedade”, prescritos em atendimentos pontuais, sem seguimento longitudinal estruturado por uma equipe multidisciplinar.

Na consulta atual, João evitava contato visual e respondia com respostas monossilábicas e vagas. A mãe conduzia quase toda a conversa, solicitando “algo mais forte” para que o filho dormisse e parasse de reclamar de dores. O médico preceptor percebeu que havia ali mais do que sintomas somáticos persistentes.

O trauma por trás dos sintomas

Ao conduzir a entrevista de forma acolhedora e gradual, o médico conseguiu ampliar o espaço de fala do adolescente. João relatou pesadelos recorrentes com o acidente, medo intenso de entrar em carros, sobressaltos frequentes a ruídos altos e sensação constante de perigo iminente. Referiu também culpa por ter sobrevivido “sem grandes ferimentos”.

Hipótese diagnóstica: transtorno de estresse pós-traumático


O conjunto de sintomas era compatível com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Em crianças e adolescentes, esse diagnóstico nem sempre se apresenta de forma clássica, sendo comum a predominância de alterações comportamentais, queda no desempenho escolar e queixas físicas inespecíficas, o que frequentemente leva a percursos assistenciais fragmentados e pouco resolutivos.


O dilema ético do manejo


Alívio imediato versus cuidado adequado


O dilema ético emergiu quando a mãe insistiu na manutenção e até no aumento da medicação ansiolítica, relatando melhora temporária do sono. O médico se viu diante de uma encruzilhada comum na prática clínica: atender à demanda imediata da família por alívio rápido ou interromper um manejo potencialmente inadequado, com risco de prescrições excessivas que com grande potencial de dependência, especialmente em um paciente em pleno desenvolvimento neuropsíquico.


À luz do Código de Ética Médica, o profissional deve evitar intervenções desnecessárias ou potencialmente danosas, sempre considerando o melhor interesse do paciente menor de idade. Prescrever psicotrópicos como resposta principal a um sofrimento psíquico traumático pode representar não apenas uma falha técnica, mas também ética, ao negligenciar abordagens mais eficazes e seguras.


Como tratar o dilema?


Evidências e responsabilidade profissional


Intervenções psicológicas estruturadas, especialmente a terapia cognitivo-comportamental  (TCC) focada no trauma, são consideradas tratamento de primeira linha para o TEPT em adolescentes, com melhores desfechos a médio e longo prazo do que o uso isolado de medicamentos.


O médico optou por uma postura clara, empática e educativa. Explicou à mãe e ao paciente que os sintomas estavam diretamente relacionados ao trauma vivido e que o uso contínuo de medicações sedativas não trataria a causa do problema, além de poder trazer prejuízos cognitivos e risco de dependência. Validou o sofrimento de João, reforçando que suas reações não eram sinal de fraqueza, mas respostas esperadas a uma experiência extrema.


Construção de um plano de cuidado integral


Foi proposto um plano de cuidado multiprofissional: encaminhamento prioritário para psicoterapia especializada em trauma, acompanhamento regular em ambulatório de adolescência, avaliação psiquiátrica como suporte, se necessário, e envolvimento ativo da família no processo terapêutico. Com autorização dos responsáveis, a escola também foi orientada a realizar adaptações temporárias nas demandas acadêmicas.


Em um primeiro momento, houve resistência. A mãe expressou insegurança e receio de que “apenas conversar” não fosse suficiente. Esse momento revelou outro aspecto ético fundamental: o papel do médico como educador em saúde. Explicar, com linguagem acessível, as evidências científicas e os objetivos do tratamento foi uma ferramenta crucial para reduzir a ansiedade familiar e fortalecer a adesão.


Conclusão


Para o residente, este caso ilustra que o cuidado ético em saúde mental infantojuvenil vai muito além da prescrição. Exige tempo, escuta qualificada e coragem para sustentar decisões que, embora menos imediatistas, são mais responsáveis e protetoras no longo prazo.


A boa prática, nesses cenários, não está em silenciar sintomas, mas em reconhecer o trauma, evitar excesso de medicamentos e oferecer caminhos para que o paciente elabore sua dor e retome o seu desenvolvimento natural que foi interrompido por uma experiência extrema.


Aproveite e assista ao vídeo: Transtorno de Estresse Pós-traumático: Quais as Recomendações do VA/DoD?


By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART

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