"A empresa só pode reduzir aquilo que ela conhece": como os negócios podem gerir as emissões de carbono <span class="mt-[0.6rem] font-plex text-[0.875rem] font-medium leading-4 text-gzh-gray @lg:mt-2" itemProp="caption">Elias da Silveira Neto, CEO da Ecovalor, mostra como informações embasam os inventários de emissão de carbono.</span><span class="mt-[0.6rem] font-plex text-[0.875rem] font-medium leading-4 text-gzh-gray @lg:mt-2" itemProp="author">Mateus Bruxel / Agencia RBS</span>

Antes tendência restrita às grandes companhias, a atenção às práticas sustentáveis “rompe a bolha” do empresariado tradicional para estar cada vez mais presente entre os pequenos e médios negócios. Uma variedade de tecnologias, consultorias e ferramentas no mercado aceleram este processo, encurtando o caminho para gestões e iniciativas mais verdes em empresas de todos os tamanhos.

Segundo especialistas do setor ambiental, o movimento é uma crescente. E ganha tração por ao menos dois motivos: pressão de mercado e pressão de consumo.

Atento às exigências, o compromisso nas empresas começa pela redução das emissões de gases poluentes, dilema chave para as questões de aquecimento global e efeito estufa. Mas para saber onde cortar, é preciso conhecer por onde se emite. Por isso, documentos e relatórios como os inventários das emissões de carbono são cada vez mais presentes e necessários na gestão dos negócios.

Inventário de emissões: o que é?

São mapeamentos que mensuram a quantidade de gases de efeito estufa emitidos ou removidos da atmosfera por determinada atividade. Em geral, são vistos como um primeiro passo para se implementar ações de descarbonização e gestão climática. Os dados são estruturados em três escopos, seguindo padrões internacionais:

  • Escopo 1: emissões diretas da própria empresa
  • Escopo 2: emissões indiretas pelo consumo de energia elétrica comprada
  • Escopo 3: outras emissões indiretas ao longo da cadeia de valor.
Elias da Silveira Neto, CEO da Ecovalor, mostra como informações embasam os inventários de emissão de carbono.

Elias da Silveira Neto, cofundador e CEO da Ecovalor, consultoria em sustentabilidade com sede em Porto Alegre, diz que apesar de o movimento de inventariar emissões de carbono ser voluntário atualmente, as empresas têm sido mais pressionadas a mensurar o que emitem, principalmente quando fornecem produtos ou serviços para empresas de maior porte, ou seja, por exigência de outros players. Mas há também um movimento de preparação para quando a regulamentação nacional estiver em curso.

— Sabemos que o mercado regulado de carbono está em processo de implementação no Brasil, então muita gente está olhando para como estar preparado a enfrentar as novas regulamentações. Estão correndo para estar prontos — percebe o CEO.

Outra exigência crescente no mercado vem dos clientes consumidores, que preferem empresas que valorizam a responsabilidade ambiental. Por isso, mais do que executar internamente, é preciso deixar claro a quem consome quais as práticas do negócio.

Internamente, ainda há as exigências que são de ordem econômica. Muitas ações sustentáveis reduzem o custo de operação, como a otimização de processos, a gestão de recursos e dos resíduos. Assim, a agenda verde chega não só como obrigação regulatória, mas como oportunidade e sobrevivência dos negócios.

As barreiras que se tinham até então, como o custo para implementar ações sustentáveis ou a falta de orientação específica, deixam de existir ao passo em que as ferramentas se tornam mais acessíveis e o conhecimento fica mais próximo das empresas. Se antes a gestão ambiental era papo das grandes, hoje, basta começar.

Lições de quem aplica

Com sede em Igrejinha e fábrica em Taquara, vem do polo calçadista uma iniciativa gaúcha que busca cada vez mais se adequar aos padrões ambientais. Na Ambiente Verde, fabricante de produtos como palmilhas a partir de resíduos da indústria de calçados, o gene sustentável está da concepção do negócio ao fim da cadeia.

Com consultoria da Ecovalor, a fabricante de médio porte tem buscado ações possíveis dentro da companhia. A empresa tem 132 funcionários diretos e outros 498 indiretos.

Tudo o que pode ser implementado na linha verde é aplicado pela empresa. Por isso a Ambiente Verde é considerada praticamente resíduo zero, diz o sócio proprietário Alberto Wanner. Enquanto o transporte interno de cargas é feito por empilhadeiras elétricas, o que reduz emissões, a logística do produto fora da empresa é um próximo passo a se explorar. Tudo traçado a partir do que indica o inventário de emissões.

— Ambiente Verde nasceu para resolver um problema ambiental. Um par de calçados gera 202 gramas de resíduos, e depois ainda tem o pós-consumo para resolver. Nascemos com essa oportunidade de lançar produtos a partir dos resíduos da produção do sapato e hoje essa é a nossa oportunidade, é o nosso trabalho. E assim somos praticamente resíduo zero e muito positivos no crédito de carbono — diz o CEO.

Ambiente Verde / Divulgação
Ambiente Verde, com sede em Igrejinha, faz produtos como palmilha de calçados com resíduos da indústria calçadista.

O negócio é começar

Muitos serviços e financiamentos verdes estão disponíveis atualmente para se alcançar as metas ambientais. Mas para os especialistas, é possível aplicar iniciativas sem que haja necessidade de grandes investimentos. Miriam Lütgen, presidente da Sustentalli, uma cooperativa dedicada a práticas ESG nas organizações, lembra que, antes de se pensar em aporte, é preciso reunir e medir dados continuamente.

— Existem hoje linhas de crédito verde, incentivo para uso de energias renováveis, enfim, facilidades para ser mais sustentável. Mas, olhando para as pequenas, a maioria pensa que não há dinheiro para investir nisso. Então mostramos a elas que podem começar sem grandes investimentos. O primeiro passo é saber onde a empresa emite gases e o quanto ela emite desses gases. Quando se reúnem dados, podemos ver onde é possível melhorar: no consumo de energia, no combustível, no transporte, nos resíduos dos processos produtivos. A empresa só pode reduzir aquilo que ela conhece — diz Miriam.

E como colocar em prática? Os especialistas dão dicas de como fazer, em três passos:

  • Gestão: olhar para a cadeia como um todo e diagnosticar onde emite, quanto emite e onde pode reduzir as emissões
  • Ações: muitas vezes são atos simples, como apagar as luzes e o ar-condicionado quando não utilizados, optar por equipamentos mais eficientes, reduzir o desperdício e reaproveitar materiais
  • Ampliar conhecimento: promover capacitação de colaboradores, buscar ferramentas de diagnóstico, linhas de financiamento e apoio de instituições de ensino, como universidades

Oportunidade para se diferenciar

A gestão focada no eixo ambiental como uma oportunidade para os negócios é uma das principais abordagens do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) junto aos empreendedores. Kelly Valadares, coordenadora de ESG no Sebrae RS, lembra que a sustentabilidade é também uma forma de se diferenciar.

Para isso, especialmente nos pequenos negócios, a agenda de baixo carbono precisa ser tratada como prática, e não necessariamente como desembolso. Reduzir o desperdício, melhorar a eficiência energética e otimizar ações estão entre os caminhos. Algo simples como pensar embalagens sustentavelmente diferenciadas, por exemplo, já é um bom caminho de mudança para as empresas.

— O pequeno negócio, normalmente, é reativo. Ou seja, ele procura melhorias quando o seu principal cliente começa a exigir alguns posicionamentos ou até certificações. Não é moda, não vai passar. Muito pelo contrário: cada vez vai ficar mais intensa a cobrança para que o pequeno negócio se mantenha dentro da cadeia de valor das grandes empresas — avalia Kelly.

O Sebrae disponibiliza gratuitamente um manual de autodiagnóstico, onde o empreendedor pode averiguar o seu grau de maturidade em práticas ESG. Além disso, o Serviço oferece uma série de consultorias, a partir dos autodiagnósticos, indicando os gaps do negócio, como ajustar processos ou mesmo buscar certificações. As informações podem ser buscadas nos canais oficiais do Sebrae-RS.

By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART

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