Antes tendência restrita às grandes companhias, a atenção às práticas sustentáveis “rompe a bolha” do empresariado tradicional para estar cada vez mais presente entre os pequenos e médios negócios. Uma variedade de tecnologias, consultorias e ferramentas no mercado aceleram este processo, encurtando o caminho para gestões e iniciativas mais verdes em empresas de todos os tamanhos.
Segundo especialistas do setor ambiental, o movimento é uma crescente. E ganha tração por ao menos dois motivos: pressão de mercado e pressão de consumo.
Atento às exigências, o compromisso nas empresas começa pela redução das emissões de gases poluentes, dilema chave para as questões de aquecimento global e efeito estufa. Mas para saber onde cortar, é preciso conhecer por onde se emite. Por isso, documentos e relatórios como os inventários das emissões de carbono são cada vez mais presentes e necessários na gestão dos negócios.
Inventário de emissões: o que é?
São mapeamentos que mensuram a quantidade de gases de efeito estufa emitidos ou removidos da atmosfera por determinada atividade. Em geral, são vistos como um primeiro passo para se implementar ações de descarbonização e gestão climática. Os dados são estruturados em três escopos, seguindo padrões internacionais:
- Escopo 1: emissões diretas da própria empresa
- Escopo 2: emissões indiretas pelo consumo de energia elétrica comprada
- Escopo 3: outras emissões indiretas ao longo da cadeia de valor.
Elias da Silveira Neto, cofundador e CEO da Ecovalor, consultoria em sustentabilidade com sede em Porto Alegre, diz que apesar de o movimento de inventariar emissões de carbono ser voluntário atualmente, as empresas têm sido mais pressionadas a mensurar o que emitem, principalmente quando fornecem produtos ou serviços para empresas de maior porte, ou seja, por exigência de outros players. Mas há também um movimento de preparação para quando a regulamentação nacional estiver em curso.
— Sabemos que o mercado regulado de carbono está em processo de implementação no Brasil, então muita gente está olhando para como estar preparado a enfrentar as novas regulamentações. Estão correndo para estar prontos — percebe o CEO.
Outra exigência crescente no mercado vem dos clientes consumidores, que preferem empresas que valorizam a responsabilidade ambiental. Por isso, mais do que executar internamente, é preciso deixar claro a quem consome quais as práticas do negócio.
Internamente, ainda há as exigências que são de ordem econômica. Muitas ações sustentáveis reduzem o custo de operação, como a otimização de processos, a gestão de recursos e dos resíduos. Assim, a agenda verde chega não só como obrigação regulatória, mas como oportunidade e sobrevivência dos negócios.
As barreiras que se tinham até então, como o custo para implementar ações sustentáveis ou a falta de orientação específica, deixam de existir ao passo em que as ferramentas se tornam mais acessíveis e o conhecimento fica mais próximo das empresas. Se antes a gestão ambiental era papo das grandes, hoje, basta começar.
Lições de quem aplica
Com sede em Igrejinha e fábrica em Taquara, vem do polo calçadista uma iniciativa gaúcha que busca cada vez mais se adequar aos padrões ambientais. Na Ambiente Verde, fabricante de produtos como palmilhas a partir de resíduos da indústria de calçados, o gene sustentável está da concepção do negócio ao fim da cadeia.
Com consultoria da Ecovalor, a fabricante de médio porte tem buscado ações possíveis dentro da companhia. A empresa tem 132 funcionários diretos e outros 498 indiretos.
Tudo o que pode ser implementado na linha verde é aplicado pela empresa. Por isso a Ambiente Verde é considerada praticamente resíduo zero, diz o sócio proprietário Alberto Wanner. Enquanto o transporte interno de cargas é feito por empilhadeiras elétricas, o que reduz emissões, a logística do produto fora da empresa é um próximo passo a se explorar. Tudo traçado a partir do que indica o inventário de emissões.
— Ambiente Verde nasceu para resolver um problema ambiental. Um par de calçados gera 202 gramas de resíduos, e depois ainda tem o pós-consumo para resolver. Nascemos com essa oportunidade de lançar produtos a partir dos resíduos da produção do sapato e hoje essa é a nossa oportunidade, é o nosso trabalho. E assim somos praticamente resíduo zero e muito positivos no crédito de carbono — diz o CEO.

O negócio é começar
Muitos serviços e financiamentos verdes estão disponíveis atualmente para se alcançar as metas ambientais. Mas para os especialistas, é possível aplicar iniciativas sem que haja necessidade de grandes investimentos. Miriam Lütgen, presidente da Sustentalli, uma cooperativa dedicada a práticas ESG nas organizações, lembra que, antes de se pensar em aporte, é preciso reunir e medir dados continuamente.
— Existem hoje linhas de crédito verde, incentivo para uso de energias renováveis, enfim, facilidades para ser mais sustentável. Mas, olhando para as pequenas, a maioria pensa que não há dinheiro para investir nisso. Então mostramos a elas que podem começar sem grandes investimentos. O primeiro passo é saber onde a empresa emite gases e o quanto ela emite desses gases. Quando se reúnem dados, podemos ver onde é possível melhorar: no consumo de energia, no combustível, no transporte, nos resíduos dos processos produtivos. A empresa só pode reduzir aquilo que ela conhece — diz Miriam.
E como colocar em prática? Os especialistas dão dicas de como fazer, em três passos:
- Gestão: olhar para a cadeia como um todo e diagnosticar onde emite, quanto emite e onde pode reduzir as emissões
- Ações: muitas vezes são atos simples, como apagar as luzes e o ar-condicionado quando não utilizados, optar por equipamentos mais eficientes, reduzir o desperdício e reaproveitar materiais
- Ampliar conhecimento: promover capacitação de colaboradores, buscar ferramentas de diagnóstico, linhas de financiamento e apoio de instituições de ensino, como universidades
Oportunidade para se diferenciar
A gestão focada no eixo ambiental como uma oportunidade para os negócios é uma das principais abordagens do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) junto aos empreendedores. Kelly Valadares, coordenadora de ESG no Sebrae RS, lembra que a sustentabilidade é também uma forma de se diferenciar.
Para isso, especialmente nos pequenos negócios, a agenda de baixo carbono precisa ser tratada como prática, e não necessariamente como desembolso. Reduzir o desperdício, melhorar a eficiência energética e otimizar ações estão entre os caminhos. Algo simples como pensar embalagens sustentavelmente diferenciadas, por exemplo, já é um bom caminho de mudança para as empresas.
— O pequeno negócio, normalmente, é reativo. Ou seja, ele procura melhorias quando o seu principal cliente começa a exigir alguns posicionamentos ou até certificações. Não é moda, não vai passar. Muito pelo contrário: cada vez vai ficar mais intensa a cobrança para que o pequeno negócio se mantenha dentro da cadeia de valor das grandes empresas — avalia Kelly.
O Sebrae disponibiliza gratuitamente um manual de autodiagnóstico, onde o empreendedor pode averiguar o seu grau de maturidade em práticas ESG. Além disso, o Serviço oferece uma série de consultorias, a partir dos autodiagnósticos, indicando os gaps do negócio, como ajustar processos ou mesmo buscar certificações. As informações podem ser buscadas nos canais oficiais do Sebrae-RS.
