Em Ribeirão Preto, DI-ON Ambiental e Pereira Advogados mostram que governança não é discurso: é o que decide se uma empresa atravessa gerações ou não
16 Ago 2026 12:00
Depois de apresentar o conceito e mostrar como ele sai do papel em casos reais, nesta reportagem falamos da letra menos comentada da sigla ESG (Environmental, Social and Governance): o “G”, de governança. Enquanto o “E” de meio ambiente tornou-se tendência e o “S”, de social, sempre foi pauta, o “G” raramente aparece: porque ele mora nos contratos, nos conselhos, nas regras de sucessão, algo que ninguém nota, até que faltem.
Em Ribeirão Preto, dois negócios com décadas de história ilustram o ponto. Um jurídico, o escritório Pereira Advogados; outro industrial, a DI-ON Ambiental. Ambos aprenderam, cada um a seu tempo, que crescer sem estrutura é multiplicar risco, por isso, nenhuma das duas empresas trata governança como vitrine. Tratam como o que sustenta o resto — inclusive, o E e o S, que vêm antes dela na sigla.
“A capacidade de administrar não passa de geração a geração”, diz Fabiano Desidério
UM ERRO CARO
Fundado em 1989 por dois sócios, o Pereira Advogados soma hoje mais de 36 profissionais — cinco deles sócios patrimoniais, três dos quais começaram como estagiários na própria banca. “A partir de 2009, nossa governança avançou bastante, a ponto de construir e formalizar a estrutura atual, que antes não existia. E não é demais acrescentar que essa governança corporativa contribuiu significativamente para o desenvolvimento e crescimento do Pereira Advogados”, afirma Fabiano Desidério, líder da Área Societária do escritório.
A partir daí, Contrato Social e Acordo de Sócios passaram a disciplinar reuniões, conselho diretor e critérios de saída — hoje pilares que também orientam os clientes do escritório, empresas familiares do agronegócio em sua maioria. “Com raríssimas exceções, as empresas focam, inicialmente, no crescimento e desenvolvimento de suas atividades, sem muita preocupação com governança corporativa. Quando atingem o patamar de médias empresas, a menos que antes disso tenham enfrentado alguma “crise societária”, constatam essa necessidade, para não interromper o crescimento do negócio”, explica.
Nesse momento, diz o advogado, os temas mais demandados dizem respeito a melhorias da estrutura societária (tipo de sociedade: limitada ou S.A.), incremento das cláusulas do Contrato Social ou do Estatuto Social, criação de Conselho de Administração, regras para o exercício de cargos de administração, precificação da sociedade para determinadas situações, incluindo aumento do capital social e desligamentos de sócios, formalização de Acordo de Sócios, direito de venda conjunta, formalização de Acordo de Família, dentre outros.
Para Desidério, o erro mais caro numa sucessão é confundir sócio com administrador. “A capacidade de administrar não é uma característica atávica, que passa de geração a geração. É por essa razão que muitas fortunas desapareceram ao longo do tempo”, afirma. Segundo ele, o empresário, em geral, percebe com muita rapidez os benefícios e vantagens da governança corporativa do seu negócio, quando toma conhecimento do assunto. “Administrar um negócio pressupõe capacidade e conhecimento, um dos aspectos que a governança corporativa pode regular em benefício da perenidade do negócio”, completa.
Bruno César Rocha, diretor da DI-ON Ambiental
LIÇÃO DE CASA
A trajetória da DI-ON Ambiental conta uma lição sobre governança. Nascida há cerca de cinco décadas com João Dionísio, a empresa de gestão de resíduos industriais mudou de nome três vezes e, segundo os diretores Bruno César Rocha e Ronaldo Perissoto da Silva, a virada de 2022, quando a marca DI-ON substituiu a Dionísio Ambiental, não foi só estética. À medida que a atuação da empresa se ampliou, a gestão também precisou evoluir, explicam.
Uma operação que inicialmente estava concentrada na comercialização de recicláveis passou a abranger também a produção de matérias-primas secundárias provenientes da reciclagem, como biomassa e pellets plásticos, voltados à fabricação de novos produtos. “Esse crescimento exigiu uma estrutura mais definida, com organograma, atribuições, responsáveis técnicos, procedimentos documentados, controles operacionais, gestão de fornecedores, rastreabilidade e acompanhamento da conformidade legal. A governança evoluiu, portanto, juntamente com a complexidade do negócio.
Atualmente, o conhecimento construído desde a fundação permanece como parte da identidade da DI-ON, que combina a continuidade de sua história familiar com uma gestão cada vez mais profissionalizada, com processos documentados e controles técnicos que aperfeiçoam a estrutura de governança por meio da definição de responsabilidades, da padronização dos processos, da realização de auditorias e do acompanhamento de requisitos legais e operacionais.
Todo esse processo foi acompanhado pela revisão do organograma, redefinição de responsabilidades e início da estruturação do sistema de gestão para a obtenção da certificação ISO 9001. Não seria coerente oferecer soluções ambientais sem aplicar internamente controles compatíveis com aquilo que orientamos e entregamos aos clientes, concluem os diretores.
