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Há mais de 500 milhões de anos atrás, a humanidade deu um salto importante em direção à evolução das espécies: o episódio conhecido como a explosão Cambriana basicamente criou a vida como a conhecemos. Podemos dizer que foi ela a responsável por grande parte do surgimento – sem precedentes – de novos organismos que hoje compõem a vida moderna.
A explosão é atribuída a alguns fatores: primeiro, a um aumento nos níveis de oxigênio na atmosfera e na água; depois ao surgimento de uma camada protetora de ozônio e à entrada de nutrientes levados aos oceanos. E aparentemente, segundo um novo estudo, a uma explosão de fezes.
Isso mesmo, devemos parte de nossa existência a uma explosão de cocô milenar. Se os primeiros animais não tivessem sido defecadores tão prolíficos, a vida poderia não ter se diversificado em todas as formas que vemos hoje.
Desde os zooplâncton microscópicos até as baleias-azuis, os maiores animais do planeta, quase todo mundo faz cocô. Nos oceanos, por exemplo, sabe-se que essas fezes desempenham um papel fundamental: são as responsáveis pela reciclagem de nutrientes como carbono, ferro, nitrogênio e fósforo, transportando-os das águas superficiais para as profundezas.
A pesquisa sugere que esse ciclo também ocorreu no período Cambriano, o que estimulou o surgimento de novos organismos.
“Consideramos as dietas antigas, os sistemas digestivos cada vez mais sofisticados e as interações tróficas como parte de um panorama muito mais amplo, para ajudar a explicar como maiores quantidades de matéria orgânica e nutrientes chegaram aos oceanos antigos, acelerando o desenvolvimento dos ecossistemas no início do Cambriano”, diz Russell Bicknell, biólogo evolutivo e autor do estudo, à Science Alert.
Segundo ele, à medida que novas formas de vida surgiram, elas passaram a diversificar os métodos de descarte de seus resíduos.
Os autores tomam de objeto de investigação evidências encontradas em mais de 35 depósitos de fósseis ao redor do mundo, que datam o início do Cambriano. Os exemplares de coprólitos, como são chamadas as fezes fossilizadas, vão de partículas microscópicas a exemplares de alguns centímetros.
Os mais antigos costumam ser pequenos grânulos, encontrados soltos ou aglutinados antes da fossilização. Alguns são longos e compridos – semelhantes aos de um peixe-dourado –, enquanto outros formam películas em covas abandonadas. Os resultados foram publicados na revista Trends in Ecology & Evolution.
O início de tudo
A origem da vida é um daqueles mistérios difíceis de se decifrar. Mas a ciência tem tentado e, felizmente, descoberto alguns detalhes.
Há 4,5 bilhões de anos atrás, quando se estima que a Terra tenha surgido, o nosso planeta costumava ser uma bola de rocha enorme derretida, cheia de vulcões ativos, sem animais ou plantas.
Mas as primeiras formas de vida também não foram as mais complexas: por um tempo não houve nada maior do que algumas células.
O aumento repentino na diversidade de espécies, que especialistas chamaram de explosão Cambriana, ocorreu ao longo de um período de cerca de 25 milhões de anos (talvez não pareça tão repentino para nós, mas certamente é quando se considera a escala da história do Universo).
E foi justamente nesse período que surgiram pela primeira vez animais com trato digestivo. O surgimento desse trato, por sua vez, resultou na produção de matéria fecal. Alguns desses resíduos, que sobreviveram milhões e milhões de anos, preservam conchas e fragmentos de animais, o que também indica que a alimentação já estava se tornando mais variada na época.
“Com essa mudança, observamos sistemas digestivos cada vez mais complexos, particularmente nos primeiros artrópodes, que desenvolveram intestinos anteriores especializados e glândulas digestivas capazes de processar uma variedade maior de alimentos”, diz Bicknell.
