247 – Uma operação de R$ 127 milhões contra ratos na Ilha Marion prevê eliminar até 1 milhão de roedores e proteger aves marinhas ameaçadas em um dos mais importantes santuários de biodiversidade do Hemisfério Sul. O plano utilizará helicópteros para espalhar iscas em toda a extensão da ilha subantártica.

Segundo reportagem publicada pelo UOL, a intervenção está prevista para o inverno de 2028 e será conduzida pelo projeto Mouse-Free Marion, uma parceria entre a organização BirdLife South Africa e o governo da África do Sul. Testes e etapas preparatórias devem ser realizados antes da operação principal.

Localizada no sul do Oceano Índico, entre a África do Sul e a Antártida, a Ilha Marion integra o arquipélago das Ilhas Príncipe Eduardo. O território, com cerca de 30 mil hectares, é um importante local de reprodução de milhões de aves marinhas, incluindo petréis, pinguins e diferentes espécies de albatrozes.

A presença dos roedores, no entanto, ameaça comprometer de forma irreversível o ecossistema. Os animais atacam ovos, filhotes e até aves adultas, que evoluíram durante milhares de anos sem a presença de mamíferos predadores em terra e, por isso, possuem poucas defesas contra esse tipo de ameaça.

Ratos chegaram à ilha no século 19

Os camundongos domésticos foram introduzidos acidentalmente na Ilha Marion por caçadores de focas no início do século 19. Ao longo das décadas, os animais se espalharam pelo território e passaram a consumir plantas, invertebrados e outros recursos naturais.

Com as alterações no ecossistema e a redução de alimentos disponíveis, os roedores começaram a atacar as aves que fazem ninhos no solo. De acordo com o Mouse-Free Marion, a população invasora coloca em risco 19 das 29 espécies de aves que se reproduzem na ilha. Algumas podem desaparecer localmente nas próximas décadas caso nenhuma medida seja adotada.

A situação também foi agravada pelas mudanças climáticas. Temperaturas mais elevadas e períodos menos rigorosos durante o inverno favoreceram a sobrevivência e a reprodução dos camundongos, ampliando a pressão sobre a fauna nativa.

Cinco gatos provocaram novo desequilíbrio

A atual crise ambiental também está relacionada a uma tentativa anterior de controlar os roedores. Em 1949, funcionários de uma estação meteorológica levaram cinco gatos domésticos à ilha para reduzir a população de camundongos que invadia as instalações.

O grupo era formado por uma fêmea, um macho castrado e três filhotes. Os felinos, porém, encontraram nas aves marinhas uma fonte de alimento mais fácil do que os ratos.

Como grande parte das aves fazia ninhos no solo e não estava habituada à presença de predadores mamíferos, os gatos conseguiram se reproduzir rapidamente. A população felina ultrapassou 2 mil indivíduos durante a década de 1970.

Estimativas citadas pela reportagem apontam que os gatos chegaram a matar cerca de 455 mil aves por ano. As planícies costeiras da ilha passaram a registrar uma grande quantidade de carcaças, sobretudo de petréis e albatrozes.

Erradicação dos gatos levou 14 anos

Em 1977, as autoridades iniciaram uma complexa operação para remover os gatos da Ilha Marion. O programa reuniu diferentes estratégias, como captura, caça noturna com holofotes e a disseminação do vírus causador da panleucopenia felina.

O último gato foi eliminado em 1991, após aproximadamente 14 anos de trabalho. A retirada dos felinos permitiu a recuperação gradual de algumas populações de aves, mas também eliminou o principal predador dos camundongos.

Sem os gatos, a população de roedores voltou a crescer de maneira acelerada. Atualmente, o número de camundongos na ilha é estimado em até 1 milhão, tornando necessária uma nova intervenção de grande escala.

Helicópteros distribuirão iscas

O projeto prevê o transporte de helicópteros, equipes, equipamentos e toneladas de iscas até a Ilha Marion. As aeronaves serão guiadas por sistemas de GPS e voarão em faixas sobrepostas para distribuir o material por todo o território.

As iscas conterão rodenticida e foram desenvolvidas para resistir às condições climáticas severas da região. Uma segunda aplicação deverá ser realizada para aumentar a possibilidade de que todos os camundongos tenham acesso a uma dose letal.

Segundo os responsáveis, a distribuição aérea é o único método que apresentou resultados satisfatórios na erradicação de roedores em grandes ilhas. A dimensão da Ilha Marion, no entanto, fará da iniciativa uma das maiores operações desse tipo já realizadas no mundo.

Plano não admite sobreviventes

O sucesso do projeto dependerá da eliminação total dos roedores. Mesmo a sobrevivência de poucos animais poderia permitir que a população voltasse a crescer e recuperasse os níveis atuais em alguns anos.

“Temos que nos livrar de cada último rato. Se restar um único casal, eles podem se reproduzir e voltar a causar danos”, afirmou Mark Anderson, diretor-executivo da BirdLife South Africa.

A operação está orçada em US$ 25 milhões, valor equivalente a aproximadamente R$ 127 milhões na cotação utilizada pela reportagem. O financiamento reúne recursos do governo sul-africano e doações internacionais.

Até a divulgação do plano, cerca de 60% do valor necessário havia sido obtido. Os organizadores continuam promovendo campanhas de arrecadação para cobrir os custos de transporte marítimo, aeronaves, equipes especializadas, equipamentos e produção das iscas.

Caso seja concluída com sucesso, a intervenção fará da Ilha Marion o maior território insular do qual camundongos terão sido eliminados em uma única operação. A expectativa é permitir a recuperação das aves marinhas, da vegetação e dos invertebrados afetados por quase dois séculos de presença dos roedores.

❗ Se você tem algum posicionamento a acrescentar nesta matéria ou alguma correção a fazer, entre em contato com [email protected].

Apoie o jornalismo independente do 247:

Cortes 247

https://www.youtube.com/watch?v=

By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART