Três semanas após os terremotos que devastaram o estado venezuelano de La Guaira, o número de mortos chegou a 5.278, segundo o balanço mais recente divulgado nesta segunda-feira (20). Enquanto moradores continuam procurando vítimas sob os escombros e milhares de pessoas seguem desabrigadas, o Fundo Monetário Internacional (FMI) liberou US$ 346 milhões para apoiar a reconstrução das áreas afetadas.
Os recursos estavam congelados desde o rompimento das relações entre o FMI e o governo venezuelano, em 2019. A liberação marca uma reaproximação entre as duas partes e deve financiar obras de infraestrutura e medidas de apoio às famílias atingidas pela tragédia.
Segundo o presidente do Parlamento, Jorge Rodríguez, os terremotos de magnitude 7,2 e 7,5, registrados com apenas 39 segundos de intervalo, deixaram quase 17 mil feridos. O número de desaparecidos permanece indefinido. Dois dias após o desastre, uma estimativa da ONU apontava que até 50 mil pessoas poderiam estar soterradas ou não localizadas.
A violência das duas ondas sísmicas destruiu centenas de edifícios, muitos deles reduzidos a escombros, sobretudo em La Guaira, região litorânea próxima a Caracas. A destruição atingiu prédios residenciais, hotéis, centros comerciais e estruturas públicas, tornando amplas áreas inabitáveis. A precariedade das construções e a proximidade com o mar agravaram o impacto dos tremores.
Cerca de 20 mil pessoas se encontram em situação de rua, amontoadas em acampamentos improvisados montados em estádios, praças públicas e calçadas. As condições são precárias, com falta de saneamento, água e proteção contra o calor. A estação balneária, conhecida por receber turistas da capital, tornou-se um dos epicentros humanitários da tragédia.
A presidente interina, Delcy Rodríguez, afirmou que os recursos liberados pelo FMI serão usados para apoiar famílias em áreas de moradia, infraestrutura e serviços públicos essenciais. Ela destacou que o montante estava congelado porque o organismo financeiro não reconhecia a legitimidade do antigo presidente venezuelano Nicolás Maduro, deposto em janeiro após operação militar apoiada pelos Estados Unidos.
O FMI e o Banco Mundial anunciaram em abril a retomada das relações com o governo venezuelano, abrindo caminho para o desbloqueio dos recursos. A decisão foi considerada crucial para iniciar obras de reconstrução em regiões devastadas e reorganizar serviços básicos, como abastecimento de água e energia.
Buscas continuam em meio à falta de apoio estatal
Em La Guaira, familiares de vítimas e voluntários seguem procurando corpos entre ruínas tomadas por moscas. Muitos alugam máquinas para erguer paredes e lajes que bloqueiam o acesso aos escombros. A ausência de equipes oficiais de resgate tem sido alvo de críticas de moradores, que afirmam que o Estado não demonstra interesse em recuperar corpos soterrados.
Hildegar Mujica, economista de 60 anos, busca sua ex‑esposa sob os restos de uma torre de 12 andares. Ele afirma que há corpos visíveis que não são contabilizados porque não há familiares para reconhecê-los. Segundo ele, a falta de ação estatal prolonga o sofrimento de quem tenta localizar parentes desaparecidos.
Delcy Rodríguez declarou no início de julho que “ninguém iria para fossas comuns”, mas moradores relatam que a recuperação de corpos depende cada vez mais de particulares. Esses indivíduos, contratados de forma discreta, ajudam famílias a retirar mortos dos escombros mediante pagamento.
Corpos dentro de sacos
Johan Torumo, voluntário de 45 anos, critica a prática e afirma que o governo não fornece equipamentos básicos para as buscas. Ele relata que uma família pagou US$ 1.300 a um desses particulares. Segundo Torumo, essas pessoas, chamadas de “topos”, cobram cerca de US$ 300 por corpo encontrado e entregam os restos mortais em sacos plásticos fornecidos pelos próprios familiares.
A atuação desses grupos se expandiu à medida que o tempo passa e a presença estatal permanece limitada. Moradores afirmam que a falta de máquinas, ferramentas e equipes especializadas dificulta o avanço das buscas e aumenta o risco sanitário nas áreas mais afetadas.
A situação humanitária em La Guaira continua crítica, com acampamentos superlotados e serviços básicos comprometidos. A liberação dos recursos do FMI é vista como um primeiro passo para reorganizar a região, mas autoridades reconhecem que a reconstrução exigirá meses de trabalho e coordenação internacional.
Com AFP
