Comunidades sofrem com falta da dragagem do Rio Beberibe (Foto: Rafael Vieira/DP Foto)
A urbanização da comunidade de Peixinhos e a dragagem do Rio Beberibe, previstas no Programa Periferia Viva, devem provocar amplas mudanças em uma das áreas mais degradadas e vulneráveis da Região Metropolitana do Recife. O projeto prevê intervenções em cerca de 5,5 quilômetros do rio, remoção de aproximadamente 226 mil metros cúbicos de sedimentos acumulados no leito, implantação de parques lineares, saneamento básico, ciclovias, pavimentação, novas moradias e reassentamento de famílias instaladas em áreas sujeitas a alagamentos. Todas essas ações, apesar de positivas, vão requerer contrapartidas como, por exemplo, o replantio de vegetação.
O Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), anexado ao processo de licenciamento ambiental da Agência Estadual de Meio Ambiente de Pernambuco (CPRH), mostra que o empreendimento será executado em uma região já marcada por um cenário de degradação ambiental, contaminação hídrica, supressão da vegetação nativa e pressão urbana sobre áreas protegidas.
O estudo aponta que o Rio Beberibe sofre atualmente com assoreamento, lançamento de esgoto doméstico, descarte irregular de resíduos sólidos e ocupações irregulares nas margens. O conjunto desses fatores reduziu a capacidade natural de escoamento do rio e ampliou os episódios de alagamentos que atingem as comunidades ribeirinhas.
Segundo o documento, além da limpeza do rio, a proposta visa integrar recuperação ambiental e reorganização territorial em uma área considerada de alta vulnerabilidade socioambiental. O empreendimento prevê obras de abastecimento de água, implantação de 21 quilômetros de rede de esgotamento sanitário, pavimentação de vias, microdrenagem, iluminação pública e recuperação de áreas degradadas nas margens do Beberibe.
O investimento total estimado é de R$ 353 milhões. Desse total, aproximadamente R$ 160 milhões serão financiados pelo governo federal, por meio do Novo PAC – Periferia Viva. O restante ficará sob responsabilidade do governo de Pernambuco.
Água contaminada
O diagnóstico ambiental descrito no RIMA aponta que a qualidade da água na área do projeto apresenta sinais de contaminação por esgoto doméstico. As análises realizadas no Rio Beberibe e nos canais urbanos do Arruda e Lava Tripas identificaram excesso de nutrientes, coliformes termotolerantes e metais dissolvidos acima dos limites recomendados em diversos pontos monitorados.
Entre os parâmetros considerados críticos estão fósforo total, alumínio dissolvido e ferro dissolvido. O estudo alerta que esse cenário favorece processos de eutrofização, fenômeno provocado pelo excesso de matéria orgânica e nutrientes na água, que reduz a oxigenação e compromete o equilíbrio ecológico dos rios urbanos.
O documento afirma que os cursos d’água da região “estão bastante alterados” pela urbanização intensa e pelas descargas de efluentes domésticos. Além do Beberibe, os canais urbanos que cortam a área também recebem ligações clandestinas de esgoto e águas residuais sem tratamento adequado.
A situação também afeta os aquíferos subterrâneos utilizados pela população local. Em um dos pontos analisados, foram encontrados indícios de contaminação por esgoto, com presença de Escherichia coli, coliformes termotolerantes, manganês e nitrito acima dos limites permitidos pela legislação ambiental.
O estudo destaca que a pressão sobre os aquíferos da região é ampliada pelo uso frequente de poços artesianos em áreas onde o abastecimento público é insuficiente. A combinação entre urbanização desordenada e saneamento precário aumenta a vulnerabilidade do subsolo à infiltração de contaminantes.
Dragagem deve remover sedimentos com metais pesados
Um dos principais eixos do projeto é a dragagem e renaturalização do Rio Beberibe. O relatório informa que serão utilizadas diferentes metodologias para retirada dos sedimentos acumulados no fundo do rio, incluindo dragagem mecânica e dragagem por sucção e recalque.
As análises laboratoriais realizadas com sedimentos coletados entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026 identificaram altas concentrações de metais como cádmio, cobre e zinco em áreas mais urbanizadas da bacia. Apesar de o estudo afirmar que não foram encontrados compostos orgânicos tóxicos relevantes, os resultados indicam influência da ocupação urbana sobre o leito do rio.
O material retirado passará por processos temporários de secagem e sedimentação antes da destinação final. O RIMA alerta que a movimentação desses sedimentos pode alterar temporariamente a qualidade da água e provocar impactos sobre organismos aquáticos que vivem associados ao fundo do rio.
Manguezais degradados e perda de vegetação nativa
A situação ambiental das margens do Beberibe também aparece como um dos principais pontos de preocupação do estudo. O levantamento florístico aponta que a maior parte da vegetação nativa remanescente da região está degradada ou fragmentada pela urbanização.
Os manguezais existentes ao longo do rio aparecem impactados por aterros irregulares, acúmulo de lixo e lançamento de esgoto sem tratamento. O documento ressalta que esses ecossistemas ainda desempenham papel importante na proteção das margens, na filtragem natural da água e como abrigo para diversas espécies da fauna aquática e terrestre.
Para implantação das obras, será necessária a supressão de aproximadamente 10,345 hectares de vegetação arbórea. Como medida compensatória, o projeto prevê recuperação ambiental e reposição florestal em áreas degradadas.
O estudo também chama atenção para a proliferação de plantas aquáticas invasoras, como a baronesa, diretamente associada ao excesso de nutrientes despejados no rio. Em alguns trechos da Área Diretamente Afetada (ADA), a vegetação invasora ocupa extensas áreas da superfície do Beberibe.
Área abriga espécies endêmicas e corredor ecológico
Mesmo com a pressão urbana, a área do projeto ainda mantém importância ambiental estratégica. O RIMA aponta que toda a Área Diretamente Afetada está inserida na Área Prioritária para Conservação da Biodiversidade Sapucaí, classificada pelo Ministério do Meio Ambiente como de prioridade “extremamente alta” para conservação ambiental.
No raio de influência do empreendimento, o estudo identificou 28 unidades de conservação, incluindo áreas de proteção ambiental, parques estaduais, refúgios de vida silvestre e áreas de interesse ecológico
As Áreas de Preservação Permanente (APPs) ao longo do Beberibe somam 25,47 hectares. No entanto, segundo o levantamento, a maior parte dessas áreas já está ocupada ou degradada pela urbanização. Apenas cerca de um terço ainda conserva vegetação nativa com função ecológica relevante.
O levantamento da fauna registrou espécies migratórias, aves endêmicas, répteis, anfíbios e mamíferos associados aos ecossistemas costeiros e estuarinos. Entre os organismos aquáticos, predominam espécies tolerantes à poluição e ao excesso de matéria orgânica, consideradas típicas de ambientes mais urbanizados.
O estudo ressalta que, apesar da degradação, o rio ainda funciona como área de alimentação, crescimento e recrutamento para peixes e outras espécies associadas ao ambiente estuarino.
Impactos urbanos
As intervenções previstas também irão impactar a dinâmica social e urbana da região, já que o projeto prevê a construção de 1.164 unidades habitacionais para reassentar famílias que vivem em áreas de risco nas margens do rio. Outras 600 famílias devem receber melhorias habitacionais sem necessidade de remoção.
O estudo aponta que a fase de obras deve aumentar o fluxo de veículos pesados, ruídos, poeira e alterações na mobilidade urbana em bairros da divisa entre Olinda e Recife. A Avenida Presidente Kennedy aparece entre os principais corredores afetados pelo transporte de materiais e equipamentos.
As medições ambientais realizadas na comunidade de Peixinhos já identificaram níveis de ruído acima dos limites recomendados para áreas residenciais em praticamente todos os pontos monitorados, tanto durante o dia quanto à noite.
Como estratégia para evitar novas ocupações irregulares nas margens do Beberibe, o projeto prevê a implantação de uma Via Beira Rio com ciclovia, áreas verdes e faixa de proteção ambiental ao longo do curso d’água.
O licenciamento ambiental do empreendimento ainda está em fase de análise pela CPRH e deverá passar por audiências públicas para apresentação dos impactos ambientais e das medidas compensatórias à população afetada.
