De acordo com o relatório “Retrato da Profissão em Sustentabilidade 2026”, publicado pela Trellis Group – empresa especializada em sustentabilidade corporativa, cerca de 46% das organizações ampliaram o orçamento e o número de profissionais ligados à sustentabilidade nos últimos dois anos. O levantamento ouviu aproximadamente 500 profissionais do setor que atuam em empresas com receitas estimadas em US$ 1 bilhão, apontando a sustentabilidade como uma área cada vez mais incorporada às estratégias de negócios e à gestão corporativa.
Ao mesmo tempo em que empresas internacionais reforçam estruturas voltadas à agenda ambiental, dados do 4º Panorama de Gênero do Setor Florestal, levantamento desenvolvido pela Rede Mulher Florestal, mostram um cenário desigual no Brasil. Segundo informações divulgadas pela entidade, as mulheres representam 22,97% da força de trabalho do setor florestal brasileiro e seguem sub-representadas nos cargos de liderança executiva.
Para a especialista em economia criativa e embaixadora do Instituto Reinventando Futuros, Liu Berman, o fenômeno internacional chega ao Brasil em um momento que as lideranças precisam ser capazes de articular inovação, impacto social, visão de longo prazo e construção coletiva de equipes.
“Na contramão das competências pedidas, há uma oscilação da ‘força feminina’ que só prejudica o avanço do setor florestal. Quem insiste em não enxergar as ‘skills’ (habilidades) que as mulheres desenvolvem tão bem em meio às equipes acabam perdendo lucros potenciais para a empresa, em um momento que, justamente, pede um reforço de orçamento e até mesmo de colaboradores a serem guiados”, explica.
No entanto, nem tudo são flores. A pesquisa da Trellis revela que cerca de 25% das empresas fizeram cortes no orçamento sustentável. Entre as organizações que anunciaram metas de sustentabilidade, pelo menos 57% afirmam tê-las mantido, 24% as fortaleceram e apenas 16% as enfraqueceram ou abandonaram.
Para Liu Berman, que assina iniciativas sustentáveis nos estados do Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Pernambuco, Ceará e Distrito Federal, os negócios não podem se dar ao luxo de fazer da sustentabilidade sua vitrine. “O que diferencia quem avança é a sustentabilidade integrada ao modelo de negócio, não colada como selo ‘depois’”, afirma.
A partir da atuação no Instituto Reinventando Futuros, Berman reforça que projetos como o Maré de Mudanças e o Fórum Nordeste de Economia Circular (FNEC) revelam uma mudança importante na forma como o impacto socioambiental começa a gerar valor econômico real: geração de renda, emprego, investimentos, fortalecimento das marcas, redução de custos e até mesmo abertura de editais e financiamento para os pequenos negócios.
“O ponto central não é transformar impacto em dinheiro de forma imediata, mas entender que impacto bem estruturado cria ativos invisíveis: reputação, confiança e rede. Esses ativos, quando amadurecem, viram oportunidades concretas de geração de renda, porque passam a sustentar parcerias de longo prazo e modelos híbridos de financiamento”, elucida.
Segundo Liu, esse tipo de iniciativa reposiciona o papel da cultura e do território dentro da economia de impacto. “Quando você trabalha com clima, cultura e território de forma integrada, você está criando infraestrutura simbólica para novos mercados. Isso significa que geração de renda não depende só de escala produtiva, mas de capacidade de articulação entre setores. O futuro dos negócios sustentáveis está justamente nessa interseção entre criatividade, ciência e pertencimento local, onde projetos deixam de ser iniciativas isoladas e passam a ser plataformas de desenvolvimento”, conclui.
