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Em setembro de 1987, Devair Ferreira, dono de um ferro-velho em Goiâ­nia, comprou de dois catadores uma cápsula de chumbo encontrada nas ruínas de uma antiga clínica. No apagar das luzes, notou que o material emitia um brilho azulado, vindo de um pó fino em seu interior. Encantado com a descoberta, e sem noção sobre o perigo que aquilo representava, levou o material para casa, mostrou para toda a família e deu um punhado dele de lembrança para amigos e parentes. Mas o pozinho brilhante não tinha nada de mágico: era césio-137, substância altamente radioativa que alimentava uma máquina de radioterapia abandonada sem nenhum cuidado numa clínica desativada. Com a exposição, as pessoas começaram a adoecer rapidamente, e sem explicação aparente, dando início ao maior acidente radioativo da história do Brasil, retratado em detalhes na minissérie Emergência Radioativa, que chega à Net­flix no próximo dia 18.

Protagonizada por Johnny Massaro, que dá vida ao físico que descobriu a contaminação radioativa, Emergência Radioativa é a produção mais recente a tratar do caso, mas não a única: o acidente de Goiânia foi mencionado no premiado curta documental Ilha das Flores (1989) e dramatizado no longa Césio 137 — O Pesadelo de Goiânia (1990), de Roberto Pires, além de ser tema de diversos documentários e livros que recontam a história como forma de alerta sobre os perigos e consequências da exposição radioativa e da importância de protocolos rígidos ao lidar com materiais desse tipo.

ALERTA - Massaro (à dir.): ator vive físico que descobriu a contaminação (./Netflix)

Sem conhecimento do perigo que corria e negligenciada pelas autoridades, a população de Goiânia virou presa fácil: com todos ao seu redor adoecendo, a esposa de Devair, Maria Gabriela, chegou a levar a cápsula radioativa para a Vigilância Sanitária, alertando que aquela poderia ser a causa dos adoecimentos. A queixa, no entanto, não foi levada a sério de imediato, o que fez com que a contaminação demorasse a ser contida. Nesse meio-tempo, milhares de pessoas foram expostas ao risco e padeceram durante anos com as consequências do acidente. Oficialmente, quatro pessoas morreram nos dias seguintes à exposição ao césio, incluindo Maria Gabriela e a pequena Leide das Neves, de 6 anos, que acabou ingerindo o material ao comer com as mãos contaminadas após brincar com o pozinho brilhante levado para casa pelo pai.

Os números, porém, foram bem maiores no longo prazo: segundo a Associação das Vítimas do Césio 137, ao menos 107 pessoas morreram nos anos seguintes de problemas desencadeados pela radiação e cerca de 1 600 foram afetadas diretamente pelo acidente — todas elas vítimas de um descaso radioativo sem precedentes.

Publicado em VEJA de 13 de março de 2026, edição nº 2986

By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART

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