Para encerrar o mês de fevereiro e celebrar o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, comemorado em 11 de fevereiro, o Tribuna de Jundiaí entrevistou a pesquisadora Fabíola Oliveira, profissional que une ciência, sustentabilidade e inovação no desenvolvimento de soluções biológicas para a agricultura.

Formada em Engenharia Biotecnológica pela UNESP Assis (Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”), Fabíola é mestre em Engenharia Química pela UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), com parte do mestrado realizado na UAB (Universitat Autònoma de Barcelona). Atualmente, atua como pesquisadora na startup Ikove Agro Bioinsumos Agrícolas Ltda., desenvolvendo novos fertilizantes e defensivos à base de microrganismos, com foco em tornar a agricultura mais produtiva e sustentável.

Com quatro anos de atuação em pesquisa e desenvolvimento, ela também é inventora de duas patentes depositadas no INPI: uma relacionada ao desenvolvimento de um novo processo de produção de flavonoides por fungos filamentosos e outra referente a um novo equipamento para fermentação em estado sólido.

O início na ciência: curiosidade desde a infância

O interesse pela ciência surgiu cedo. Segundo Fabíola, tudo começou ainda na infância quando assistia a desenhos e programas com experimentos e se imaginava em um laboratório, “descobrindo coisas novas e entendendo melhor como o mundo funciona”. Apesar de, naquela época, enxergar esse universo como algo distante — especialmente por não conhecer ninguém que trabalhasse com pesquisa —, a curiosidade sempre falou mais alto.

No ensino médio, ela ainda tinha dúvidas sobre qual curso seguir, mas já sabia que queria uma área ligada a experimentos, biologia ou química. A primeira experiência em laboratório, já na faculdade, foi decisiva.

“Foi um momento muito marcante, porque senti que estava finalmente vivendo algo que despertava meu interesse desde criança”.

Hoje, ela reconhece que essa curiosidade foi o fio condutor de toda a sua trajetória até a escolha pela pesquisa científica como profissão.

Projetos voltados à sustentabilidade e inovação

Ao longo da trajetória acadêmica e profissional, Fabíola concentrou seus projetos na sustentabilidade e no reaproveitamento de resíduos, buscando transformar passivos ambientais em soluções de valor para a sociedade.

“Sempre trabalhei com projetos voltados à sustentabilidade, principalmente com o objetivo de transformar resíduos em produtos úteis. Na graduação, comecei pesquisando a produção de biocombustíveis a partir de restos de alimentos e resíduos urbanos, mostrando que aquilo que seria descartado pode se tornar fonte de energia, como etanol e biodiesel”.

Depois dessa etapa, ela direcionou a carreira para a agricultura sustentável, com foco no desenvolvimento de bioinsumos capazes de reduzir o uso de fertilizantes e defensivos químicos.

Durante o mestrado, produziu soluções agrícolas a partir de fungos cultivados em resíduos agroindustriais e, em estágio internacional, ampliou essa abordagem ao estudar o aproveitamento de resíduos como borra de café e de cerveja.

“Atualmente, continuo nessa linha de pesquisa, desenvolvendo soluções biológicas para o controle de pragas na pecuária, como o carrapato bovino, buscando alternativas mais seguras e sustentáveis em comparação aos produtos químicos tradicionais”.

Entre os principais destaques da carreira estão o desenvolvimento de biocombustíveis a partir de resíduos urbanos e a pesquisa em bioinsumos agrícolas, área estratégica para tornar a produção de alimentos mais sustentável.

Cientista apresenta amostras em pesquisa sustentável (Foto: Arquivo pessoal/Fabíola Oliveira)

Projetos marcantes e reconhecimento internacional

Algumas experiências marcaram de forma decisiva a trajetória da pesquisadora, seja pelo impacto ambiental, pelos desafios superados ou pelas conquistas alcançadas ao longo do caminho.

“Alguns projetos foram especialmente marcantes para mim, tanto pelo impacto quanto pelos desafios e conquistas que proporcionaram. Um deles foi o projeto de produção de etanol a partir de resíduos urbanos. Nesse trabalho, conseguimos demonstrar que grandes quantidades de resíduos que são descartados diariamente poderiam ser reaproveitadas para produzir biocombustível. Isso mostra o potencial de transformar um problema ambiental em uma solução sustentável, com benefícios tanto para o meio ambiente quanto para a sociedade, especialmente se aplicado em larga escala”.

Outro momento determinante foi a experiência internacional durante parte do mestrado, na Espanha. Ela destaca que a vivência fora do país representou não apenas crescimento pessoal, mas também reconhecimento acadêmico, já que participou de um processo seletivo competitivo e teve o projeto financiado pela FAPESP.

“Destaco o projeto em que trabalhei com o desenvolvimento de processos produtivos utilizando fungos, que resultou na criação de um novo tipo de biorreator. Esse trabalho levou ao depósito da minha primeira patente, o que foi um marco muito significativo na minha carreira, pois representa a transformação do conhecimento científico em uma inovação com potencial de aplicação prática”.

O depósito da primeira patente no INPI simboliza a consolidação de uma trajetória que une ciência aplicada, sustentabilidade e inovação tecnológica.

A importância de incentivar meninas na ciência

Para Fabíola, ampliar a presença feminina na ciência é essencial para transformar realidades e abrir caminhos para as próximas gerações.

“Incentivar meninas e jovens mulheres a seguirem carreira na ciência é extremamente importante, porque a representatividade faz muita diferença. Quando eu olho para trás, percebo que não tive muitas referências próximas, e ter exemplos de mulheres na ciência poderia ter tornado esse caminho mais claro e até mais possível aos meus olhos”.

Ela ressalta que, hoje, reconhece a força de pesquisadoras que se tornaram inspiração e reforçam que as mulheres pertencem a esse espaço. Ao falar diretamente às meninas que sonham em seguir essa trajetória, deixa um conselho claro:

“Para as meninas que sonham em seguir esse caminho, minha principal mensagem é: sejam curiosas e não tenham medo de fazer perguntas. A curiosidade é o ponto de partida da ciência. Busquem aprender, ler, explorar e, principalmente, acreditem que vocês são capazes. O caminho exige dedicação, mas é extremamente gratificante”.

A própria trajetória da pesquisadora evidencia como curiosidade, dedicação e acesso à educação podem transformar sonhos em conquistas concretas no universo científico.

By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART

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