Tornou-se uma verdade incontestável no meio corporativo afirmar que as mudanças climáticas e outros problemas ambientais, além de aspectos sociais e de governança, têm potencial para afetar o sucesso e a reputação de um negócio. A realidade, porém, é que poucas empresas reúnem informações completas sobre como suas atividades podem ser impactadas por questões relacionadas a fenômenos naturais, segurança, saúde da sua comunidade, diversidade no quadro de funcionários, proteção de dados, entre outros itens do espectro ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança). Para as companhias de capital aberto no Brasil, ter tudo isso mapeado e compilado torna-se uma obrigação a partir deste ano, quando elas precisam começar a elaborar um relatório de sustentabilidade a ser publicado até, no máximo, maio de 2027.

A exigência foi definida pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em 2023, posteriormente detalhada e reforçada em resoluções divulgadas em 2024 e 2025. Todas as empresas listadas na B3, a bolsa de valores brasileira, devem divulgar relatórios de sustentabilidade seguindo os padrões IFRS S1 e S2 (Normas Internacionais de Relato Financeiro, em tradução do inglês), elaborados pelo IASB (sigla em inglês do Conselho das Normas Internacionais de Contabilidade), rebatizados no Brasil como CBPS 01 e 02. O primeiro estabelece requisitos para a divulgação ampla de informações sobre sustentabilidade de cada empresa, para que sejam úteis aos investidores na hora de tomar decisões relacionadas à aplicação de seus recursos. Já o segundo traz os parâmetros para dar transparência aos riscos e às oportunidades climáticas do negócio. Os padrões IFRS, adotados no Brasil desde 2010 para harmonizar a divulgação das demonstrações financeiras, já são conhecidos das grandes empresas. Agora, o país é o primeiro no mundo a incorporar as versões sobre sustentabilidade desse conjunto de normas.
Das 358 empresas listadas em bolsa, duas já publicaram seus relatórios de sustentabilidade com a nova norma no ano passado, portanto antecipadamente. São elas a mineradora Vale e a varejista de moda Renner. Outras seis pretendem fazê-lo ainda neste ano, antes do prazo: a rede C&A, a calçadista Grendene, a JHSF, de empreendimentos de alto padrão, a Natura, de produtos cosméticos e de higiene, a Irani Papel e Embalagem e a própria B3. A Vale foi uma das pioneiras porque viu a medida como uma oportunidade de restabelecer a sua reputação após os rompimentos das barragens de Mariana, em 2015, e Brumadinho, em 2019. “Fizemos questão de preparar a companhia para ser a primeira do setor no mundo a publicar esse relatório”, diz Marcelo Bacci, vice-presidente executivo de finanças e relações com investidores da Vale. “Era uma maneira de mostrar que estamos na vanguarda do debate ESG e que consideramos esse um tema relevante.” Uma das metas da companhia é proteger e recuperar 500 000 hectares de florestas fora de suas terras.
Em outros casos, como o da Renner, a divulgação dos dados foi a formalização de uma prática já corrente na empresa, que há anos documenta informações relacionando seu negócio às questões climáticas. Eduardo Ferlauto, diretor-executivo e de sustentabilidade do Instituto Lojas Renner, explica que o relatório não exibe números frios: “O mais importante é trazer uma avaliação qualitativa, que sirva como um espelho das ações sustentáveis já praticadas pela empresa”. Um dos projetos de destaque da Renner é o que desenvolve uma cadeia produtiva regenerativa de algodão a partir de sistemas agroflorestais, em que a matéria-prima é cultivada em áreas próximas a árvores do bioma nativo.

Para atender aos critérios exigidos, os novos relatórios precisam ser fruto de um trabalho detalhado, feito por especialistas. Na B3, por exemplo, a preparação para a adesão aos novos padrões começou em 2024 com um grupo de trabalho envolvendo riscos, sustentabilidade e finanças, além das áreas de auditoria e compliance. A Petrobras vive uma situação semelhante. Durante o ano passado, a estatal contou com uma consultoria externa a fim de realizar diagnósticos e elaborar um plano de ação voltado não só para implementar o novo relatório de sustentabilidade, mas também para treinar as equipes e desenvolver sistemas internos de práticas sustentáveis. Dentre as metas da Petrobras está o reúso, a recuperação ou a reciclagem de 80% dos resíduos sólidos e a redução de emissões absolutas de gases de efeito estufa em 30% até 2030, quando comparadas a 2015.

Montar e divulgar os relatórios é só a primeira etapa para um olhar mais cuidadoso sobre as pautas ESG. Alexandre Di Miceli, fundador da empresa de educação executiva Virtuous e especialista em governança e ética corporativa, afirma que a medida tem pouca força se não for acompanhada de mudanças de mentalidade e cultura. “Hoje, não basta trabalhar pensando no retorno para os acionistas da empresa”, diz Miceli. “Deve-se entender que a sustentabilidade ecológica e a humana são as bases da sustentabilidade financeira.”
Segundo Carlos Takahashi, diretor da Anbima, a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais, muitos gestores de portfólio estão observando os riscos climáticos das empresas para decidir onde investir: “Ter práticas sustentáveis traz efeitos reputacionais para a companhia, o que, por sua vez, impacta efetivamente o seu valor de mercado”. Tanto a Anbima quanto a B3 oferecem programas para fomentar práticas sustentáveis entre as empresas listadas e para sua preparação para os padrões CBPS 01 e 02. Maio de 2027 está logo ali.
Publicado em VEJA, fevereiro de 2026, edição VEJA Negócios nº 23


