ESG ou diversidade aparecem entre os valores institucionais declarados por 51% das 500 maiores empresas brasileiras, mesmo com a perda de espaço dessas agendas no debate corporativo. O dado faz parte do DNA Cultural Brasileiro, levantamento da consultoria de cultura Santo Caos. Com base na análise das informações das 456 companhias que apresentam valores públicos, 233 têm sustentabilidade e ESG e/ou inclusão e identidade entre seus princípios. O estudo revela ainda que 44 organizações, ou 8,8% da amostra, não declaram formalmente o tema.
Dos 2.515 valores declarados e classificados em 11 categorias semânticas, sustentabilidade e ESG aparecem em 36% das empresas analisadas, enquanto inclusão e identidade estão presentes em 28%. Segundo Jean Soldatelli, sócio-fundador da Santo Caos, a permanência deles mostra que as agendas não desapareceram das organizações, mesmo diante de mudanças no ambiente externo. “ESG e DE&I continuam fazendo parte da identidade declarada de muitas empresas”, diz. “O que pode ter mudado é o quanto essas instituições estão investindo para que esse valor seja ou não reforçado no seu dia a dia e no seu posicionamento”.
Um dos recortes que mais diferencia a presença desses valores é a estrutura das empresas. Entre as estatais, 69% declaram ESG e 48% apresentam valores relacionados à DE&I, os maiores índices entre os grupos analisados. Nas organizações familiares, os percentuais são de 40% e 30%, respectivamente. Já nas companhias de capital fechado, ESG está em 38% e DE&I em 24%. Naquelas de capital aberto, porém, os registros são de 28% e 27%. Entre as cooperativas, 52% declaram sustentabilidade e ESG, enquanto 26% apresentam valores associados à inclusão e identidade.
Para o executivo, os dados indicam que a forma de governança e o ambiente institucional em que cada organização está inserida influenciam a maneira como esses temas são incorporados ao discurso corporativo. “A cultura declarada responde também às expectativas que chegam à empresa de diferentes direções”, explica. “Por isso, alguns valores ganham mais espaço em determinados modelos de organização do que em outros”.
O mapa regional também revela divergências na presença dos dois temas. No Centro-Oeste, 65% das empresas declaram sustentabilidade e ESG, o maior percentual entre as regiões analisadas. O índice é de 45% no Sul, 45% no Nordeste, 36% no Norte e 31% no Sudeste. Em DE&I, o Centro-Oeste também aparece na liderança, com 35%, seguido pelo Nordeste, com 34%, Sul, com 29%, Sudeste, com 27%, e Norte, com 18%. Na visão de Jean, a diferença regional é especialmente relevante porque a presença de ESG no Centro-Oeste coincide com um dos maiores índices de inovação do país: 65% contra 56% na média nacional. “O resultado da pesquisa sugere uma combinação entre sustentabilidade e transformação em um ambiente econômico fortemente relacionado ao agronegócio e à modernização de suas cadeias”.
Narrativas culturais
Já ao analisar a sintonia entre as categorias, o estudo identificou cinco grandes narrativas culturais nas empresas brasileiras. ESG faz parte daquela interpretada como “conveniência”, um valor muitas vezes imputado pela ética do setor ou por uma regulamentação. DE&I aparece em “identidade”, normalmente relacionada à origem ou valores pessoais dos fundadores, por exemplo.
“Esses temas continuam presentes, mas não necessariamente pelas mesmas razões”, ressalta o especialista. Enquanto uma empresa pode incorporar sustentabilidade por regulação e pressão de mercado, outra pode colocar inclusão no centro de sua identidade por uma questão histórica ou de posicionamento. “Entender essas diferenças é mais importante do que simplesmente contar quantas organizações mencionam cada tema”. Além disso, Jean destaca a a predominância de cada valor em determinadas companhias, considerando seus tamanhos. “Onde tem até mil funcionários, há mais sustentabilidade e, acima disso, entre 10 e 50 mil colaboradores, a presença maior está em DE&I”, finaliza.
