Em janeiro de 2022, uma mancha de óleo começou a se espalhar pela costa do Pacífico na altura de La Pampilla, uma das maiores refinarias de petróleo no Peru. O rompimento das tubulações ocorreu quando um navio-tanque, administrado por uma subsidiária da petroquímica espanhola Repsol, era abastecido. Antes que o problema fosse controlado, estima-se que tenham vazado 10.396 barris de petróleo. O que hoje é considerado o pior desastre ecológico da história recente peruana estava apenas começando.
Os vazamentos de petróleo vêm aumentando no Peru. Em um quarto de século, entre os anos 1997 e 2021, foram registrados 1.002 eventos do tipo no país. A partir daí, entre 2022 e maio de 2023, já ocorreram outros 458 derramamentos. Nessas quase três décadas, houve 609 vazamentos de óleo na costa peruana, que afetam principalmente a vida marinha e as comunidades pesqueiras tradicionais.
O governo aplicou multas de milhões de dólares à Repsol por considerar sua resposta inadequada na contenção e limpeza do desastre. Porém, a empresa contesta essas autuações na Justiça e só pagou menos da metade delas.
Dada a frequência de tais incidentes, seria de se esperar que o governo peruano tivesse desenvolvido e implementado formas justas e transparentes de estimar os impactos dos vazamentos e indenizar as vítimas. Mas o verdadeiro custo socioambiental dos vazamentos petrolíferos, inclusive o de La Pampilla, jamais foi avaliado de maneira abrangente.
Impacto na fauna e na economia
Em 2024, para preencher as lacunas de informação e ouvir o lado das pessoas afetadas pelo vazamento em La Pampilla, entrevistamos 41 moradores de Ancón, comunidade pesqueira cercada por uma baía na qual o óleo ficou acumulado. Ancón é um popular destino turístico e zona de pesca tradicional. O peixe-rei, a corvina, o polvo, o caranguejo e a lula são pescados há muitos anos nesse local.
Nossa pesquisa concluiu que o impacto do derramamento foi sentido ao longo de toda a cadeia produtiva da comunidade pesqueira: os próprios pescadores, aqueles que descarregam o pescado e as mulheres que o limpam e processam. O baque também chegou àqueles que transportam os produtos pesqueiros do cais até o mercado, passando pelos comerciantes de atacado e varejo, até os restaurantes que dependem desses insumos. Todos disseram que sua renda diminuiu desde então.
“Costumávamos trabalhar na coleta de caranguejos. Havia caranguejos grandes com garras enormes, e agora não sobrou nenhum”, disse um pescador. Ele e todos os outros entrevistados falaram sob condição de anonimato.
“Ancón era o local onde as lulas faziam sua desova entre março e abril. Desde que ocorreu o vazamento de óleo, não há lulas em Ancón”, disse outro morador.
Pescador artesanal mostra a poluição na costa de Pasamayo, norte de Ancón, em 2022 (Imagem: Leslie Moreno Custodio / Dialogue Earth)
Alguns pescadores disseram que ficaram meses sem renda, pois a atividade pesqueira havia sido paralisada, e eles não tinham outro meio de subsistência. Nos últimos dois anos, muitos afirmaram terem se endividado após contrair empréstimos para sobreviver. Outros precisaram reconstruir suas vidas buscando trabalhos alternativos ou deixando Ancón.
Praias sem turistas
As praias de Ancón atraíam turistas há décadas, gerando renda para pessoas que alugam guarda-sóis, vendem lanches, dirigem táxis, administram hospedagens e trabalham em restaurantes.
Após o vazamento, várias praias foram fechadas por segurança. Um verão que prometia grandes oportunidades de emprego após anos de restrições devido à pandemia de Covid-19 se transformou em um período de endividamento e esperanças frustradas. O turismo em Ancón ainda não se recuperou do desastre.
“Também tenho um barco de turismo, mas as pessoas não vêm mais à praia como antes. Elas têm medo e dizem que Ancón está contaminada”, disse um dos pescadores.
O impacto na saúde física e emocional da comunidade foi significativo, conforme os depoimentos que coletamos.
Entrevistados disseram que o óleo nas praias provocou fortes dores de cabeça e enjoo. Pescadores que tiveram contato direto com o petróleo durante as operações de limpeza relataram problemas de pele. Eles temem as consequências de longo prazo de sua exposição ao petróleo bruto, que, segundo estudos, está associado a vários problemas de saúde.
No desespero pela falta de dinheiro, alguns pescadores continuaram vendendo frutos do mar de águas que ainda estavam contaminadas. Dados do governo mostram que o petróleo sobe do fundo do oceano para a superfície sempre que há fortes correntes. O risco de contaminação ainda é latente para os consumidores, pescadores e suas famílias.
Muitas das pessoas entrevistadas para nossa pesquisa estavam doentes ou falaram sobre crianças e adultos conhecidos que sofreram de problemas de saúde após consumirem peixes potencialmente contaminados. Segundo eles, às vezes o pescado exalava um cheiro estranho, mas a ausência de outras fontes de proteína fez com que eles o consumissem mesmo assim. Alguns relataram fortes dores de estômago e precisaram ir ao hospital após o consumo do alimento. Até agora, nem governo nem outras entidades realizaram estudos sobre a segurança do consumo de peixes no local.
Além disso, há um impacto emocional de ver sua segunda casa — o mar e as praias — tomada pela poluição e repleta de animais mortos, incluindo leões-marinhos, lontras-marinhas e pelicanos. Alguns moradores dizem que não podem mais levar seus filhos para brincar na areia.
“Antes, você simplesmente entrava no mar sem se preocupar. Agora, esse medo [de contaminação] está sempre presente”, disse um coletor de algas marinhas.
Equipe limpa praias de Ancón após o vazamento da Repsol. Mais de três anos depois, moradores ainda têm medo de entrar no mar devido aos riscos de contaminação (Imagem: Jaime Jiménez Palomino / dpa / Alamy)
Compensação econômica insuficiente
Um grande contingente de pessoas afetadas pelo desastre foi ignorado no processo de indenização da Repsol, disseram os entrevistados. Mulheres que coletam algas marinhas, por exemplo, não receberam nada.
Muitos dos que receberam indenizações argumentaram que elas não correspondem aos verdadeiros prejuízos. Hoje eles vivem na pobreza, disseram, em comparação com anos anteriores, quando os recursos do mar lhes permitiam manter uma vida digna e tranquila.
“O que foi pago até agora não é suficiente. A Repsol afirma ter apoiado os pescadores, mas a realidade é outra”, disse um entrevistado.
Com base em nosso estudo, é possível afirmar que o caso da Repsol em Ancón não só mostra os múltiplos impactos do desastre sobre a comunidade, mas também a negligência por parte da empresa. A petrolífera levou quase duas semanas para iniciar as ações de limpeza e por isso foi multada pelo governo, que citou inúmeras falhas na resposta ao desastre.
Os métodos de limpeza eram rudimentares, e a mancha de óleo se espalhou por uma área equivalente a 16 mil campos de futebol. Enquanto isso, a Repsol tornou-se patrocinadora oficial da equipe nacional de futebol do Peru.
Os vazamentos continuarão ocorrendo com impunidade se o Estado não exigir mais das empresas que operam no Peru
Enquanto a petrolífera obteve 1,8 bilhão de euros em lucros globais em 2024, ela paga apenas 30% de imposto de renda no Peru — países como a Noruega, por exemplo, cobram até 78%, e as empresas seguem operando por lá. Por que nós, no Peru, não exigimos mais se os impactos econômicos de tais desastres são tão altos?
Os vazamentos de petróleo levam anos para serem reparados. E ainda não há um plano oficial para fazer isso em Ancón. O combustível cru sobe à superfície de tempos em tempos, afetando toda a cadeia alimentar. Quanto tempo mais as pessoas afetadas de Ancón, Ventanilla, Santa Rosa e Chancay terão de esperar por uma indenização justa e uma reparação eficaz?
Os desastres petrolíferos seguirão ocorrendo com impunidade se o Estado não exigir mais das empresas que operam no Peru. O Estado deve assumir sua responsabilidade de proteger os direitos humanos de seus cidadãos e garantir seu bem-estar. Ele deve fazer isso aplicando as sanções apropriadas nessas situações, realizando auditorias rigorosas sobre a resposta das empresas a essas crises e garantindo que as populações afetadas sejam indenizadas de forma justa.
Os direitos a um mar saudável, um trabalho decente, bem como à saúde e à alimentação são exemplos dos direitos violados pelo vazamento de Ancón. É hora de nós, como sociedade, nos perguntarmos o que vale mais: o direito de lucro de uma empresa ou nossos direitos a uma vida digna?
Nota do editor: em um comunicado divulgado em janeiro, a Repsol disse que havia apresentado planos de reabilitação ambiental em 2023 e que eles estavam sendo avaliados pelo governo peruano. A petrolífera também disse que vem realizando a limpeza e o monitoramento das áreas afetadas para “garantir condições adequadas nas praias e no mar”. Segundo a empresa, análises laboratoriais comprovam que a área costeira “atende aos padrões nacionais e internacionais de qualidade ambiental, tornando-a adequada para qualquer atividade produtiva e recreativa”, acrescentou. Mais de 10.500 pessoas receberam indenizações, informou.