
Desde 25 de janeiro de 2026, dia que marcou os sete anos do assassinato de 272 pessoas em Brumadinho, a população de Congonhas, Jeceaba, Belo Vale, Moedas e região vivem amedrontados pelos novos rompimentos e outras situações que aumentam o risco para moradores e trabalhadores. Os chamados “transbordamentos de sumps” nas mineradoras Vale e Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) derramaram cerca de 600 mil m³ de fluentes de produção industrial da mineração em diversos cursos d’água: córregos Água Santa, Ponciano e Goiabeiras, caindo no Rio Maranhão e desaguando no Rio Paraopeba.
As empresas falam em “água”, mas na visita aos locais atingidos vimos estruturas que guardam fluidos muito poluídos em que não se encontra nenhuma forma de vida. O cenário poderia ser ainda pior se o posto de gasolina atingido, que tinha 20 mil litros de diesel, não fosse subterrâneo.
Sumps (ou sedimentation ponds) na mineração são reservatórios projetados para captar, armazenar e decantar água, melhorando sua qualidade antes do descarte ou reuso. Teoricamente, eles existem para garantir a segurança operacional, controlam o fluxo de água e previnem impactos ambientais. A questão é que um “sump” não é considerado uma barragem, e a Vale afirma que não fiscaliza, não monitora e não tem equipamentos específicos porque a lei não exige. Aparentemente, essas estruturas são uma forma de burlar a lei, fazer vários barramentos menores e assim fugir da legislação. Na área onde rompeu, há mais de 400 sumps construídos e não foi apresentado de maneira formal a quantidade total que armazenam.
O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) denuncia que as mineradoras continuam as práticas que ampliam a insegurança dos atingidos e atingidas, incluindo habitantes e trabalhadores das áreas de exploração, desrespeitando as legislações, ignorando normas nacionais e internacionais e aumentando os riscos de repetição de crimes como o que ocorreu em Mariana, em 2015, e em Brumadinho, em 2019. Quase 300 pessoas morreram. No trabalho de base feito pelos militantes, presenciamos crianças chorando ao ver a chuva chegando porque a “barragem ia explodir”. Há um pânico difuso, silencioso e adoecedor que já é um dano material gravíssimo a uma população que precisa ser reparada.
Parabenizamos o Ministério Público Federal (MPF) pelo pedido de bloqueio de R$1 bilhão da Vale e a Prefeitura Municipal de Congonhas, que agiu cancelando alvarás, denunciando as mineradoras e reunindo atingidos para discutir o tema. Denunciamos a omissão do governo Zema (Partido Novo), que continua alinhado aos interesses das mineradoras e trabalhando para defender seus interesses.
O cenário de grave ameaça a estas populações atingidas piora a cada dia e exige ação efetiva de todos os poderes públicos, para garantir responsabilidade das mineradoras na manutenção e fiscalização das suas estruturas e reconhecer que elas são responsáveis solidárias pela contaminação dos solos, do ar e das águas; pelo assoreamento dos córregos e rios, que ampliam de forma imediata os riscos de grandes enchentes que podem atingir dezenas de milhares de pessoas. Um extremo climático nessa região é tragédia anunciada que precisa ser considerada como risco real, que exige ações de curto, médio e longo prazo.
É hora de ter a Política Nacional dos Atingidos por Barragens (PNAB) como referência da discussão, tendo os atingidos como sujeitos de direitos. Seguimos na luta por justiça, denunciando as mineradoras, organizando as comunidades e construindo propostas para a reparação integral.

