Alessandro Della Valle / EPA
Homenagens às vítimas do incêndio que deflagrou no bar Le Constellation da estância de ski de Crans-Montana, na Suíça
As autoridades que investigam o incêndio que matou 40 pessoas e feriu 119 numa estância de ski na Suíça, no Dia de Ano Novo, estão a analisar a lotação do edifício, os materiais de construção e as rotas de evacuação. Os alegados responsáveis serão acusados criminalmente — se estiverem vivos.
Com familiares devastados ainda à espera da identificação das vítimas mortais, os investigadores suíços começaram a examinar os protocolos de segurança e as condições do edifício do bar perto da estância de Crans-Montana, onde cerca de 40 pessoas morreram e 119 ficaram feridas num incêndio ao início do Dia de Ano Novo.
Segundo as autoridades, o fogo terá começado quando fogo de artifício colocado em garrafas de champanhe foi erguido demasiado perto do teto do local.
Beatrice Pilloud, procuradora-geral do cantão suíço do Valais, afirmou numa conferência de imprensa, na sexta-feira, que a investigação — que poderá resultar em acusações criminais — irá centrar-se nos materiais de construção utilizados, nas licenças de funcionamento, no número de pessoas dentro do bar e nos protocolos de segurança contra incêndios em vigor, como as rotas de evacuação e os pontos de acesso para os primeiros socorros.
Entre os materiais a serem analisados está a espuma acústica, usada para isolamento sonoro, referiu Pilloud. A investigação irá igualmente apurar se o bar, chamado Constellation, tinha autorização para utilizar fogo de artifício no interior, acrescentou.
Serão apresentadas acusações criminais por incêndio por negligência, homicídio por negligência e ofensas à integridade física por negligência, caso se justifique e se os alegados responsáveis estiverem vivos, afirmou ainda Pilloud.
Segundo o The Washington Post, as autoridades sublinharam que a prioridade imediata da polícia é apoiar as famílias reunidas em Crans-Montana e continuar o processo de identificação das vítimas.
O comandante da polícia do Valais, Frédéric Gisler, informou que 113 dos 119 feridos já foram formalmente identificados, incluindo 71 suíços, 14 franceses, 11 italianos e quatro sérvios. A identificação dos 40 mortos continua em curso. Pilloud revelou que os dois gerentes do bar, ambos cidadãos franceses, já foram ouvidos.
O jornal suíço Tribune de Genève contactou telefonicamente um dos proprietários do bar, Jacques Moretti, que afirmou que o Constellation foi “inspecionado três vezes em 10 anos” e que “tudo foi feito de acordo com as normas”. O jornal cita regulamentos locais e um deputado cantonal, que indicam que a legislação prevê inspeções anuais obrigatórias.
A imprensa francesa avançou que Moretti não estava no bar quando ocorreu o incêndio, mas a sua mulher e co-proprietária, Jessica Moretti, estava no local e sofreu queimaduras num braço.
O incêndio começou cerca da 01h30 de quinta-feira e propagou-se rapidamente, tendo provocado pelo menos uma explosão. O bar estava repleto sobretudo de jovens, muitos suíços, mas também de outras nacionalidades, a celebrar o Ano Novo na pitoresca vila alpina.
Ainda não se sabe quantas pessoas estavam no interior no momento do incêndio. O Constellation tem capacidade para 300 pessoas e uma esplanada para mais 40, segundo a agência de turismo local. Muitos dos feridos encontram-se em estado crítico e o número de mortos pode aumentar.
Uma “tragédia evitável”
Fogo de artifício a lançar chamas de cerca de 30 centímetros. Um teto coberto por espuma inflamável. Uma cave apinhada, com uma escada estreita que se tornou um ponto de estrangulamento.
Estes são alguns dos riscos evitáveis que especialistas em incêndios, testemunhas e uma análise do The New York Times a imagens disponíveis apontam como tendo transformado um bar festivo de uma estância alpina numa “armadilha mortal”, à medida que o fogo devastava a festa de Ano Novo.
Os investigadores ainda não deram uma explicação detalhada sobre as causas do incêndio no Le Constellation, por volta da 01h30 de quinta-feira, que o presidente suíço classificou como uma das piores tragédias da história do país.
No entanto, a informação disponível sugere que a tragédia envolveu falhas de segurança semelhantes às registadas noutros incêndios mortais em espaços lotados, como o incêndio de 2003 em Rhode Island, que matou cerca de 100 pessoas, e o de 2013, na discoteca Kiss, no Brasil, que fez mais de 200 mortos.
Richard Meier, especialista em investigação de incêndios e explosões na Florida, considera que se tratou de uma tragédia evitável: “É uma lição que já devíamos ter aprendido há décadas, mas continuamos a repeti-la”.
O fogo de artifício
Noa Bersier, 20 anos, coordenador de marketing, jogava bilhar no bar ao início do Dia de Ano Novo quando reparou em empregados a transportar para várias mesas garrafas de vinho com fogo de artifício acoplado. Terão sido estes a causar o incêndio, lançando faíscas em direção ao teto.
A venda de artigos pirotécnicos como estes é legal na Suíça, mas os especialistas em proteção contra incêndios alertam há muito para o perigo do seu uso em espaços fechados. Fotografias tiradas na noite do incêndio mostram uma utilização particularmente arriscada, com clientes a erguerem as garrafas com fogo de artifício aceso muito perto do teto.
Bersier não consegue afirmar se foram os fogos de artifício a iniciar o incêndio, mas lembra-se de ver o teto a arder pouco depois de os empregados os terem distribuído. “Foi como se todo o teto tivesse sido embebido em algo e pegasse fogo instantaneamente”, relatou, em entrevista telefónica ao NYT, a partir do hospital onde recupera de queimaduras graves.
Steven Badger, advogado americano especializado em casos de incêndios em espaços fechados, lembra que o risco associado ao uso de fogo de artifício em interiores está bem documentado. “É lamentável que continuemos a ter tragédias deste tipo, quando já vimos este cenário repetidamente”, disse Badger.
O teto inflamável
Para explicar a rápida propagação inicial das chamas, os peritos apontam o material de espuma que parecia cobrir parte do teto. Esta espuma, normalmente de poliuretano de células abertas, é usada para isolamento acústico e é altamente inflamável.
Segundo explicou Olivier Burnier, diretor de uma empresa suíça de engenharia de segurança contra incêndios, “na Suíça não permitimos que este material fique exposto numa sala. Tem de estar tapado”. Burnier considera que as imagens sugerem que a configuração do bar não cumpria as normas locais de segurança.
Os regulamentos determinam que materiais combustíveis só podem ser usados se não aumentarem de forma inaceitável o risco, tendo em conta fatores como a ocupação e a configuração do edifício. Materiais com reação “crítica” ao fogo não podem ser usados em interiores a menos que estejam totalmente cobertos.
As imagens do bar mostram que o material cobria grande parte do teto, e um cliente habitual, que visitou o bar dias antes da tragédia, disse ao NYT que a espuma estava descolada nalguns pontos e pendia vários centímetros.
Samir Melly contou que estava a beber no Le Constellation dois dias antes do desastre, quando um amigo da construção civil ficou intrigado com o teto, aparentemente solto.
“Ele estava completamente focado no teto, porque olhava para aquilo como um profissional da construção”, explicou Melly. Após o incêndio, Melly comunicou as preocupações do amigo à polícia, que o chamou na sexta-feira para prestar depoimento.
Arnaud Trouvé, professor da Universidade de Maryland, especialista em engenharia de proteção contra incêndios, refere que a espuma deveria ser o “primeiro alvo” da investigação, devido ao seu potencial de rápida propagação das chamas.
“Não me ocorre pior material para colocar no teto de um espaço público. Além de arder, derrete e as gotas em combustão acabam por incendiar o que está por baixo”, diz Richard Meier.
As saídas
Os sobreviventes questionam se o bar tinha saídas suficientes, relatando ter ficado presos na escada estreita enquanto tentavam fugir. Outros partiram vidros para escapar, enquanto pessoas no exterior dizem ter forçado portas de vidro para ajudar na evacuação.
As autoridades confirmaram a existência de uma saída de emergência, mas não especificaram se estava acessível a partir da cave, onde presumivelmente se encontrava a maioria dos clientes.
O regulamento suíço de segurança obriga que espaços com mais de 100 pessoas tenham duas “rotas verticais de evacuação”, como escadas, quando as saídas diretas para o exterior não sejam suficientes.
Davide D’Agostino, proprietário de uma empresa de arquitetura no mesmo edifício do bar, recorda que a existência de uma porta de emergência foi discutida quando os Moretti assumiram o espaço. Essa porta, explicou, ficava junto à casa de banho e dava para escadas que subiam até ao edifício atrás.
Isto levanta dúvidas sobre se os clientes estavam suficientemente informados sobre as rotas alternativas e se estas estavam devidamente sinalizadas.
Nestor Fischer, 17 anos, que estava no exterior quando o incêndio começou, relatou a forma como ele e outros tentaram forçar uma porta de vidro lateral para ajudar os restantes a sair.
“Tentámos parti-la com um banco”, contou. “Tentámos bater no vidro, mas não abria.” A porta acabaria por ceder, e Fischer, juntamente com amigos, ajudou a guiar as pessoas com as lanternas dos telemóveis.
“Um acidente destes, com a regulamentação suíça, não devia ser possível”, afirmou Olivier Burnier. “Mas aconteceu, porque há um problema na aplicação da lei”.
