Na passada quarta-feira, 14 de Janeiro, o DIÁRIO noticiou
uma viatura em chamas no interior de uma garagem na Estrada Comandante Camacho
de Freitas. No dia 9, outro carro em chamas na zona das Courelas causou
apreensão.
Fogo alastrou a mais uma viatura, mas não há registo de feridos
09 Janeiro 2026 – 23:35
Em ambas as notícias, os comentários foram semelhantes:
muitas pessoas presumiram que os carros incendiados eram veículos eléctricos.
Comentários como: “Mobilidade verde arde mais do que a
vermelha!”, “É a energia verde a mostrar como é tão fácil a combustão!”,
“Elétrico???” ou “Carros elétricos não prestam” foram deixados nas redes
sociais do DIÁRIO.
Ver Galeria
Alguns comentários deixados no site e Facebook do DIÁRIO
Mas será que os carros elétricos realmente têm maior
probabilidade de se incendiar do que um veículo a combustão?
Quanto ao carro que se incendiou nas Courelas, segundo
apurou o DIÁRIO, tratou-se de um veículo da marca ‘Smart ForTwo’,
desmistificando a ideia de que seria eléctrico. Sobre a outra viatura, não foi
possível determinar se era a combustão ou eléctrica.
É compreensível que a segurança desta tecnologia continue a
gerar preocupação, pois um incêndio em um carro eléctrico é diferente do que em
um veículo a combustão: tende a ser mais intenso e difícil de apagar devido à
composição química das baterias de ião de lítio.
Em 2022, a União Europeia publicou o relatório ‘Myths
and Facts about Fires in Battery Electric Vehicles’, que esclarece os equívocos mais comuns
sobre incêndios em veículos eléctricos e apresenta os dados mais recentes
disponíveis. “Os incêndios em veículos eléctricos a bateria não são mais
perigosos do que em veículos convencionais e também não são mais frequentes
actualmente”, lê-se no relatório.
Sobre a questão se veículos eléctricos a bateria ardem mais
frequentemente do que veículos com motor de combustão interna, o relatório
indica: “As estatísticas actuais da Suécia revelam que a probabilidade de um
incêndio num veículo eléctrico a bateria (BEV) é inferior à de um incêndio num
veículo com motor de combustão interna (ICEV), quando considerada a proporção
face ao número total de veículos”.
Por exemplo, entre 2018 e 2021, foram registrados na Suécia
57 incêndios em veículos eléctricos/híbridos, comparados com 505 em veículos a
combustão no mesmo período.
Um relatório da RISE Fire Research, na Noruega, indica que,
entre 2016 e 2018, foram registrados 998 incêndios em veículos em parques de
estacionamento e garagens, dos quais 109 tiveram como causa “equipamento eléctrico”.
“Algumas estatísticas internacionais estimam que existem
actualmente cerca de cinco incêndios por cada 1,6 mil milhões de quilómetros
percorridos por automóveis eléctricos, em comparação com 55 incêndios em
veículos convencionais para a mesma distância percorrida”, lê-se ainda.
A plataforma tecnológica ‘Blazestack’, nos estados Unidos da
América, foi desenvolvida para apoiar profissionais da investigação de
incêndios e da segurança pública. Num relatório intitulado ‘Quantos incêndios
em veículos eléctricos ocorreram entre 2024-2025’, foi concluído o seguinte:
“A EV FireSafe validou 511 incêndios em baterias de veículos
eléctricos globalmente desde 2010, com um aumento mensurável à medida que o
tamanho da frota cresce, e não porque o risco por veículo esteja a aumentar. Em
países com alta adopção, como a Noruega”, lê-se.
Refere, ainda que, os veículos a bateria representam cerca
de 7% dos incêndios em veículos no início de 2025. Globalmente, os incêndios
confirmados em baterias de veículos eléctricos continuam extremamente raros:
apenas algumas centenas foram registrados em mais de 14 anos, mesmo com a frota
total se aproximando de 80 milhões de veículos até 2025, segundo a plataforma.
Comparando veículos eléctricos e tradicionais, a ‘Blazestack’ verifica que os eléctricos têm entre 20 e 80 vezes menos probabilidade de
incendiar do que os veículos com motor de combustão interna. A ideia equivocada
persiste porque os incêndios em eléctricos comportam-se de forma diferente.
Em Portugal, não existem dados públicos detalhados sobre a
frequência de incêndios em veículos elétricos, nem estatísticas consolidadas.
Todavia, em 2023, a RTP Madeira informou que, até então, não haviam sido
registrados casos de incêndios em veículos eléctricos na Região.
O que pode estar nas causas dos incêndios nos eléctricos?
A página on-line ‘Guia do Automóvel’ explica que nos veículos a combustão, as causas mais comuns são as fugas de combustível, as avarias no sistema eléctrico e o sobreaquecimento do motor. Por outro lado, nos eléctricos, os incêndios são mais raros e pode estar relacionados com defeitos de fabrico das bateriais, colisões graves que danificam os módulos e carregamentos inadequados ou com equipamento não certificado.
Assim, através de estudos internacionais é possível contrariar a percepção comum de que os eléctricos são mais perigosos, a nível de incêndio. Em Portugal, todavia não existem dados oficiais sobre o tema, o que não permite uma análise local precisa, não existindo, todavia, evidência de risco acrescido.
“Mobilidade verde arde mais do que a vermelha!” – comentário deixado por um leitor
