A “arquitetura da memória” busca ressignificar a dor coletiva, transformando locais de desastre em espaços de esperança
Por Letícia Deps
Este artigo nasceu da minha própria jornada de preparação para as aulas que ministrarei, em breve, em Palermo. O tema, Arquitetura Pós-Desastre, vai muito além de planos e estruturas. É um mergulho profundo na complexa relação entre o espaço físico e a dor humana, um luto que, muitas vezes, não tem nome nem cerimônia.
Quando a catástrofe se abate, a arquitetura de uma cidade se desintegra em escombros. Casas, praças, pontes — tudo se torna um retrato de uma perda avassaladora e coletiva. Em meio ao caos, a arquitetura pós-desastre surge não apenas como uma necessidade de reconstrução física, mas como uma poderosa ferramenta de ressignificação do luto.
Este luto, muitas vezes invisível, é mais complexo do que a perda de um ente querido. Ele é a perda da história, da segurança, da identidade. É a dor de quem perdeu não apenas a casa, mas as fotos de família, os livros de infância, as lembranças de uma vida inteira. Assim como nas empresas, onde líderes precisam reconhecer as dores não ditas de seus colaboradores, a sociedade deve se preocupar em acolher esse “luto invisível” dos que perderam tudo.
No processo de reconstrução, a arquitetura desempenha um papel fundamental. Ela pode ser fria e funcional, focada apenas em levantar novas estruturas, ou pode ser empática, construindo espaços que reconhecem a história, honram a memória e dão voz à dor dos sobreviventes. É a diferença entre erguer uma nova cidade e reconstruir uma comunidade.
A Ressignificação pela Memória
Em Palermo, onde terei a honra de debater este tema, o desafio é particularmente relevante. A história da cidade, marcada por terremotos e conflitos, é um testemunho da resiliência humana. A arquitetura pós-desastre deve se inspirar nessa capacidade de renascer, criando espaços que não apaguem o passado, mas o integrem no presente. Isso significa não apenas a reconstrução de edifícios, mas a criação de memoriais, praças de convivência e centros comunitários que contem a história da catástrofe e sirvam como pontos de encontro e cura.
A “arquitetura da memória” busca ressignificar a dor coletiva, transformando locais de desastre em espaços de esperança. Por meio de projetos que envolvam a comunidade, os arquitetos podem incorporar elementos que façam referência à vida anterior, usando materiais reciclados dos escombros ou incorporando a arte e a expressão cultural como forma de processar o trauma.
Para que a arquitetura pós-desastre seja verdadeiramente humana, os profissionais precisam ir além do desenho e do cálculo estrutural. Eles devem se tornar mediadores, ouvindo as histórias e as necessidades das pessoas, e traduzindo essas dores e esperanças em tijolo e cimento. A reconstrução não é apenas sobre o que se levanta, mas sobre como se reconstrói o espírito de uma comunidade.
É sobre a criação de uma nova paisagem urbana que, em vez de ser assombrada pelo fantasma do que foi perdido, se torne um símbolo de resiliência e um tributo à capacidade de reconstrução da vida.
Letícia Deps é neuroarquiteta e membro da Academia Norte Americana de Neurocîência aplicada a Arquitetura- ANFA nos capítulos San Diego-EUA e Brasil