De um jeito ou de outro, o Oscar quase sempre é meio arrastado. Simplesmente não há como tornar um programa de três horas e meia realmente agradável do começo ao fim. Mas a transmissão deste ano foi um pouco mais penosa do que o normal, graças a esquetes roteirizados de apresentadores que não funcionaram (chegando a um fundo do poço, talvez, com a entrega final da noite, que colocou Ewan McGregor e Nicole Kidman cantando músicas famosas sobre amor?), discursos cansativos e problemas contínuos de áudio e produção.

Mesmo assim, a noite não foi um desastre total, porque Conan O’Brien voltou a ser brilhante em seu segundo turno como apresentador. Ele começou em alta, com um longo segmento que tirava sarro de A Hora do Mal (2025), e manteve a energia até o último instante, quando inseriram seu cadáver sorridente em um incinerador, parodiando Pecadores Uma Batalha Após a Outra (2025). No caminho, a Academia finalmente premiou uma diretora de fotografia. Amy Madigan ganhou um Oscar 40 anos após sua primeira indicação, e Timothée Chalamet teve de forçar um sorriso sob seu bigode ralo ao perder pela terceira vez a categoria principal de atuação.

Grandes mudanças vêm aí para o Oscar em 2029, quando toda a transmissão vai migrar para o YouTube. É uma chance de repensar o show de forma radical. Mas tomara que deixem O’Brien no posto de mestre de cerimônias. Se ele consegue salvar uma noite como a da 97ª edição do Oscar de um tédio absoluto, consegue fazer qualquer coisa. Aqui vai um olhar sobre os momentos bons, ruins e simplesmente desconcertantes do show desta noite.

Melhor: ‘Pecadores’ leva o juke joint para o Dolby Theatre

Foto: Robert Gauthier / Los Angeles Times via Getty Images

O thriller sobrenatural de vampiros de Ryan Coogler quebrou o recorde de maior número de indicações da história do Oscar, com 16 nomeações — mais ou menos o mesmo número de pessoas que subiu ao palco para esta apresentação musical. Mas, em vez de uma massa humana caótica, Miles Caton e Raphael Saadiq conduziram uma interpretação celebratória, sexy e fluida da faixa do filme, “I Lied to You”. Eles foram acompanhados pela lenda do balé recém-aposentada Misty Copeland, Brittany Howard (do Alabama Shakes), Christone “Kingfish” Ingram e o lendário bluesman Buddy Guy — que aparece no filme —, entre outros. “Eu não conseguiria justificar [fazer] um filme com vampiros mordendo o pescoço das pessoas sem mostrar essa parte de mim”, Coogler nos contou no ano passado. “Mostrar essas pessoas e seus descendentes se divertindo. Música é mágica.” — Andy Greene

Pior: Babs — e Robert Redford — mereciam mais

Barbra Streisand Oscar
Foto: Kevin Winter/Getty Images

Em teoria, não há pessoa melhor para homenagear o falecido Robert Redford do que sua colega de Nosso Amor de Ontem (1973), Barbra Streisand. E não há música melhor para ela cantar do que a faixa-título do filme, que venceu Melhor Canção Original em 1973. Mas, na prática, o tributo a Robert Redford foi um semi-desastre, com um áudio mal executado. Enquanto Streisand se esforçava para falar por cima da orquestra, era difícil entender suas palavras sussurradas, e a homenagem se prolongou de maneira desconfortável. Quando finalmente ela levantou o microfone para cantar “The Way We Were”, a performance durou apenas alguns compassos. A gente só tem amor por Babs. A culpa não foi dela. Mas os produtores deveriam ter resolvido as falhas desse segmento antes de transmiti-lo para metade do mundo. — A.G.

Aleatório: Um empate!

Kumail Nanjiani
Foto: Kevin Winter/Getty Images

Nos 97 anos de história do Oscar, houve apenas seis empates. É algo ainda menos provável na era moderna, já que existem mais de 10 mil votantes. Mas aconteceu pela sétima vez nesta noite, quando Os Cantores e Two People Exchanging Saliva (cujos produtores aparecem aqui) empataram como melhor curta-metragem em live-action. Isso gerou uma situação caótica, em que as duas equipes vencedoras falaram por tanto tempo que o microfone desceu até o palco e os holofotes diminuíram numa tentativa inútil de silenciá-las. “Irônico que o Oscar de curta-metragem vá levar o dobro do tempo”, brincou o apresentador Kumail Nanjiani. Conan O’Brien, divertindo-se, foi além quando os discursos finalmente terminaram: “Só quero dizer parabéns aos dois vencedores. Vocês acabaram de arruinar 22 milhões de bolões do Oscar.” — A.G.

Melhor: Conan acerta a abertura a frio de novo

Conan O’Brien
Foto: Reprodução/ABC

As expectativas estavam altas para a abertura a frio de Conan O’Brien depois que ele brilhou no ano passado com um número inspirado em A Substância (2024), em que ele emergia do corpo nu de Demi Moore. Desta vez, ele conseguiu superar ao se vestir como a Tia Gladys de Amy Madigan em A Hora do Mal e ser perseguido por uma gangue de crianças através de vários filmes indicados ao Oscar, incluindo Marty Supreme, Pecadores, Hamnet, Uma Batalha Após a Outra, F1 e até KPop Demon Hunters, onde apareceu em versão animada. A estrela de Valor Sentimental, Stellan Skarsgård, topou filmar um segmento em que conversava com O’Brien em norueguês. “Olhe para você, que decepção”, disse Skarsgård ao apresentador. “Sua necessidade de aprovação é como uma doença… Que vida vazia deve ser. Fazendo piadinhas como um bobo, correndo atrás do riso como um cachorro velho corre atrás do caminhão do correio.” No fim, enquanto as crianças perseguiam “Conan” (muito provavelmente um dublê) para dentro do Dolby Theatre, pelos corredores e até o palco, o segmento pré-gravado transitou suavemente para o monólogo de O’Brien. Lembrem a gente por que o Oscar demorou tantos anos para chamá-lo para apresentar? — A.G.

Aleatório: Amy Madigan acaba com uma seca de 40 anos no Oscar

Amy Madigan Oscar
Foto: Cindy Ord/VF26/Getty Images para Vanity Fair

A última vez que Amy Madigan foi indicada ao Oscar foi em 1986, quando recebeu uma nomeação de Melhor Atriz Coadjuvante por Duas Vezes na Vida. Quarenta anos depois, a veterana foi indicada na mesma categoria, por seu papel como a perturbadora e bruxesca Tia Gladys no A Hora do Mal (2025), de Zach Cregger (sua franja vermelho-fogo e o uso generoso de batom eram tão marcantes que o apresentador Conan O’Brien fez disso o foco do seu número de abertura). A disputa estava acirrada na cerimônia, e muitos prognósticos apontavam que Teyana Taylor levaria a estatueta por seu papel em Uma Batalha Após a Outra (Taylor superou Madigan no Globo de Ouro, mas Madigan venceu no Critics’ Choice Awards). A própria Madigan parecia chocada, caindo na risada ao subir ao palco para receber o prêmio. “Todo mundo me pergunta na imprensa: ‘Bem, faz 40 anos. O que é diferente desta vez?’”, disse ela. “O diferente é que eu tenho esse carinha dourado!” — Angie Martoccio

Melhor: a diretora de fotografia de ‘Pecadores’, Autumn Durald Arkapaw, faz história

Autumn Durald Arkapaw Oscar
Foto: Arturo Holmes/Getty Images

A Academia entrega prêmios de fotografia desde a primeira cerimônia, em 1929. Mas ela sequer indicou uma mulher até 2018, quando Rachel Morrison concorreu pelo trabalho em Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi. E só premiou uma mulher neste ano, quando Autumn Durald Arkapaw levou a estatueta por Pecadores. Arkapaw fez um discurso inspirado, em que citou e celebrou suas predecessoras, incluindo Morrison, e pediu que todas as mulheres da plateia se levantassem. “Sinto que não chego aqui sem vocês”, disse ela. “Eu realmente, de verdade, digo isso. Eu senti muito amor de todas as mulheres na campanha, conheci tantas pessoas. E sinto que momentos como este acontecem por causa de vocês.” Foi um momento histórico. Tomara que não precisemos esperar outros 97 anos para ver isso acontecer de novo. — A.G.

Aleatório: uma reunião desperdiçada de ‘Missão Madrinha de Casamento’

Missão Madrinha de Casamento Oscar
Foto: Foto: Al Seib / The Academy via Getty Images

Quando surgiram as notícias no começo deste mês de que o elenco de Missão Madrinha de Casamento se reuniria no Oscar, a internet explodiu de empolgação — dá para dizer que a gente estava pronto para paaaarrrtaaaay. Faz 15 anos desde a amada comédia de Paul Feig sobre casamentos, amizade, ciúmes e ter uma diarreia explosiva no meio da rua usando um vestido de noiva. Os fãs estavam prontos para celebrar o aniversário. Infelizmente, embora tenha sido nostálgico ver o elenco junto de novo (com exceção de Wendi McLendon-Covey, que, segundo relatos, teve conflitos de agenda), e embora elas tenham arrancado algumas risadas, o momento não esteve à altura da ocasião. O número, em que as atrizes liam em voz alta bilhetes “engraçadinhos” da plateia, pareceu um desperdício de cinco talentos cômicos incríveis. Talvez tivesse sido melhor se fosse um livro manuscrito bem triste? Considerem isto nossa petição para que Feig faça uma sequência de Missão Madrinha de Casamento em que essas mulheres possam realmente brilhar. — A.M.

Pior: compositor de ‘KPop Demon Hunters’ é cortado

KPop Demon Hunters Oscar
Foto: Kevin Winter/Getty Images

No ano passado, Adrien Brody falou por intermináveis cinco minutos e 40 segundos ao ganhar Melhor Ator por O Brutalista. Em nenhum momento o microfone dele foi desligado. Mas, neste ano, quando a música “Golden”, de KPop Demon Hunters, venceu — a primeira canção de K-pop a ser homenageada pela Academia — um membro da equipe de compositores, Yu Han Lee, não conseguiu passar de um “obrigado” antes de os produtores cortarem e desligarem seu microfone… e não o devolverem, mesmo após uma reação negativa audível da plateia enquanto a orquestra crescia. Foi um momento chocantemente grosseiro com um grupo de pessoas que acabara de fazer história, e cuja música chiclete fez a plateia cantar junto mais cedo na noite. Podiam ter dado a essa pessoa 30 segundos para curtir a glória. E, quando Brody apresentou alguns minutos depois e zombou do seu discurso longo do ano passado, a piada caiu com um baque. — A.G.

Melhor: a vitória de Michael B. Jordan é duas vezes mais especial

Michael B. Jordan Oscar
Foto: Mike Coppola/Getty Images

Entre as 16 indicações recordes que Pecadores recebeu neste ano estava a primeira indicação de atuação da carreira de Michael B. Jordan. Agora, sua dupla interpretação dos gêmeos Fumaça e Fuligem também lhe rendeu sua primeira vitória. Jordan subiu ao palco em lágrimas, sem acreditar, ao receber o prêmio. Ele fez questão de saudar sua cidade natal, Newark, em Nova Jersey, e também sua mãe (“Mamãe, beleza?”), que assistia da plateia. “Eu estou aqui por causa de quem veio antes de mim”, disse ele, citando lendas de Hollywood negra como Sydney Poitier, Denzel Washington, Halle Berry, Jamie Foxx, Forest Whitaker e mais. É difícil acreditar que Jordan demorou tanto para ganhar um Oscar — e ainda mais para sequer ser indicado —, mas tomara que seja o primeiro de muitos. — A.M.

+++LEIA MAIS: Brasil fica sem prêmios no Oscar 2026; confira a lista de vencedores

By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART

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