Qual é a sensação de morrer? Estamos cada vez mais perto de saber (e não parece ser assim tão mau).
“Oh wow, oh wow, oh wow”. Antes de morrer, o fundador da Apple, Steve Jobs, terá proclamado estas palavras de espanto. Não sabemos porquê, mas estamos cada vez mais perto de descobrir, acreditam alguns cientistas.
Sabemos já que o cérebro pode não “desligar-se” de forma imediata e passiva nos instantes finais da vida. Há vários relatos de breves explosões de atividade neural altamente coordenada pouco antes de se verificar a morte cerebral — mesmo em pacientes que já não tinham há muito essa capacidade mental — e ainda mais relatos de sobreviventes de experiências de quase morte, que descrevem memórias intensas, sensação de “clareza” e visões.
Nos últimos anos, equipas de investigação começaram a analisar registos de eletroencefalograma (EEG) obtidos em doentes que faleceram enquanto eram monitorizados, na tentativa de mapear o “último capítulo” da atividade cerebral.
Concluíram primeiro que a paragem do coração não equivale, de imediato, a morte do cérebro. Mesmo quando o fluxo sanguíneo é interrompido, as células cerebrais conseguem manter alguma atividade durante um curto período, por terem reservas energéticas. O fim dos batimentos cardíacos não é, tecnicamente, o nosso fim.
Como explica o neurocirurgião e neurocientista Ajmal Zemmar, citado pela BBC, a morte cerebral ocorre mais tarde, provavelmente mais de um minuto após o coração parar. Do ponto de vista do EEG, isso corresponde ao momento em que o registo mostra a interrupção efetiva da atividade elétrica do cérebro. Quando o cérebro deixa de receber oxigénio — uma condição chamada hipóxia — desencadeia-se uma sequência de eventos.
Primeiro, pode surgir um aumento abrupto de atividade, interpretado como uma resposta de emergência do organismo, possivelmente ligada a mecanismos instintivos de sobrevivência.
Depois, observa-se uma fase de ondas cerebrais de baixa frequência, seguida do “silêncio” elétrico no EEG.
Durante a hipóxia, inicia-se também a morte celular. Um dos processos mais importantes chama-se despolarização: os neurónios perdem a sua carga elétrica, o que provoca uma libertação em cadeia de neurotransmissores e de iões como sódio, potássio e cálcio.
Em estudos com animais, este mecanismo tem sido associado a uma grande “onda” de atividade pós-paragem, descrita por Zemmar como uma espécie de assinatura em três fases — uma “onda tripásica” em que os neurónios disparam de forma descontrolada, comparável, na metáfora do investigador, a um final de fogo-de-artifício.
A questão decisiva é saber se esta fase corresponde a alguma experiência consciente.
Para Zemmar, se houver perceção subjetiva, deverá ocorrer mais cedo, no momento inicial de maior atividade, quando o padrão observado é mais coordenado. Ao contrário da despolarização caótica, esta “explosão” organizada assemelha-se a estados em que o cérebro normalmente sincroniza redes neuronais, por exemplo, durante meditação ou tarefas cognitivas exigentes. Mas os registos são poucos e, na maioria dos casos, os doentes não estão conscientes e não podem relatar o que sentem.
Uma das análises que reforçam esta hipótese foi conduzida por investigadores da Universidade de Michigan, que estudaram dados de quatro doentes que morreram enquanto eram monitorizados por EEG e eletrocardiograma (ECG) numa unidade neurointensiva. Todos estavam inconscientes, mas os aparelhos registaram a atividade cerebral de forma contínua nos minutos e segundos antes da morte cerebral. Em dois casos, quase não houve alterações marcantes; nos outros dois, os investigadores observaram um aumento relevante de ondas gama poucos segundos após a remoção do ventilador.
As ondas gama são as de maior frequência entre os padrões clássicos do EEG e estão, em geral, associadas a processamento cognitivo complexo e integração de informação — fenómenos frequentemente ligados a estados de consciência. Neste estudo, a atividade coordenada apareceu sobretudo em regiões temporo-parietais e occipitais, áreas que integram o chamado “hot zone” posterior do córtex, frequentemente associada, na literatura, a componentes essenciais da experiência consciente.
Para Jimo Borjigin, neurocientista que liderou a investigação, os resultados contrariam uma ideia dominante: a de que, perto da morte, o cérebro simplesmente “desiste” e reduz progressivamente a atividade até ao zero. Pelo contrário, os dados sugerem que pode ocorrer uma breve fase de “hiperativação”, particularmente na gama, antes do colapso final.
Estudos anteriores também relataram picos de atividade cerebral após a retirada de suporte de vida. Um conjunto de casos descrito em 2009 identificou um aumento de atividade em sete doentes pouco depois da interrupção do suporte; um estudo de seguimento, em 2017, encontrou padrões semelhantes em frequências próximas, em cerca de metade dos doentes analisados. Ainda assim, nem todos os trabalhos confirmam este tipo de explosões, e essa inconsistência alimenta uma nova pergunta: por que razão só alguns cérebros apresentam este padrão?
A experiência subjetiva permanece, por agora, impossível de determinar. Mesmo assim, Borjigin levanta a hipótese de que estes sinais possam corresponder a uma “assinatura neural” de EQM. Em parte, porque os dados apontam para forte ativação de áreas relacionadas com memória, o que faz eco de relatos comuns de sobreviventes: revisão da vida, recordações vívidas, ou a impressão de ver pessoas queridas. A hipótese é que a hipóxia desencadeie uma cascata que ativa circuitos de evocação, mesmo sem estímulos externos.
Se esta “onda” final estiver de facto ligada à recordação, poderá ajudar a esclarecer não só o processo de morrer, mas também enigmas maiores sobre a consciência: como o cérebro constrói experiência subjetiva e por que motivo mobiliza energia para gerar memórias num momento em que, à primeira vista, isso não oferece vantagem imediata.

