O varejo alimentar brasileiro atravessa uma transformação profunda. Nos últimos dez anos, o crescimento acelerado dos atacarejos redesenhou o mapa do setor, ampliou a competição e consolidou uma dinâmica baseada em preços cada vez mais agressivos. Segundo dados da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), esse formato já responde por quase metade do faturamento do varejo alimentar no país, resultado de uma expansão consistente ao longo da última década.
Esse novo ambiente elevou o nível de pressão sobre as operações. Margens ficaram mais estreitas, o consumidor tornou-se mais sensível ao preço e a eficiência operacional passou a definir a capacidade de competir. Somado a isso, o cenário econômico de juros elevados no país ampliou ainda mais a pressão sobre os resultados do setor. Nesse contexto surge um paradoxo silencioso dentro das operações do varejo alimentar. Enquanto o setor disputa centavos nas gôndolas, uma das maiores ineficiências da cadeia alimentar permanece pouco visível dentro das lojas: a perda e o desperdício de alimentos.
O caso recente do Grupo Pão de Açúcar ilustra um processo mais amplo de transformação no varejo alimentar. Após registrar prejuízos e enfrentar dificuldades operacionais, a companhia alertou o mercado sobre riscos relacionados à sua continuidade. O episódio reflete mudanças estruturais que vêm alterando o funcionamento do setor. Nos últimos anos, novos modelos digitais passaram a reorganizar a logística e a forma de acesso ao consumidor. Plataformas, aplicativos e sistemas mais eficientes de distribuição ampliaram a concorrência e redefiniram o equilíbrio entre preço, conveniência e custo operacional.
Ao mesmo tempo, o comportamento de compra também mudou. Consumidores passaram a combinar diferentes canais, comparar preços com mais facilidade e buscar alternativas que ofereçam melhor relação entre custo e benefício. Redes tradicionais tiveram dificuldade em ajustar suas operações e propostas de valor a esse novo ambiente competitivo.
Depois de anos trabalhando diretamente com redes de supermercados e indústrias em diferentes regiões do país, coletando e analisando dados operacionais do setor, uma conclusão se tornou clara para mim: no varejo brasileiro, o desperdício não é apenas um problema logístico ou social. É, sobretudo, um problema que reflete a má gestão.
Mesmo diante dessa pressão por eficiência, parte relevante da operação do varejo alimentar ainda funciona com baixo nível de inteligência operacional. Muitos varejistas afirmam ter grande volume de dados, mas pouco do que poderiam extrair dessas informações é efetivamente utilizado; eles não sabem de fato o que e por que descartam tanto – e nem o tanto que descartam. Processos como controle de perdas, gestão de produtos próximos ao vencimento e destinação de itens fora do padrão comercial seguem pouco estruturados em muitas operações. Sem indicadores claros para medir e acompanhar essas perdas, o desperdício acaba tratado como um custo inevitável da atividade, permanecendo, em grande medida, invisível dentro da operação.
Mesmo com dados ainda fragmentados, a dimensão do desperdício no Brasil já deveria ser motivo de constrangimento para o setor. Todos os anos, milhões de toneladas de alimentos são perdidas no país, especialmente nas etapas de distribuição e consumo, justamente onde o varejo exerce papel central. Ainda assim, boa parte dessas perdas segue invisível nas operações, tratada como rotina, quando na verdade revela falhas profundas de gestão.
Na prática, a rotina das lojas tende a favorecer decisões rápidas e simplificadas: descartar é a solução imediata, enquanto estruturar sistemas de monitoramento, redistribuição e gestão de perdas exige mudanças mais profundas na forma de operar, ou até mesmo mexer em lugares mais profundos e obscuros das empresas. Toda operação varejista possui algum nível de perdas inevitáveis. A diferença entre operações eficientes e ineficientes está no que acontece depois delas: monitorar e estruturar a destinação desses alimentos transforma o desperdício em informação de gestão, permitindo identificar falhas e reduzir perdas ao longo do tempo.
O varejo alimentar brasileiro alcançou um alto nível de competitividade, mas ainda carrega práticas operacionais associadas a modelos de gestão de décadas anteriores. A próxima transformação do setor passa pela capacidade de transformar dados operacionais em inteligência de gestão na prática. Isso significa deixar de tratar o desperdício como uma consequência inevitável da operação e passar a administrá-lo como parte da eficiência do negócio.
Alexandre Vasserman, CEO da Infineat, startup que desenvolve tecnologia para gestão do desperdício de alimentos no varejo.
