
Fascinado, Devair levou o pó para casa. Ele mostrou para a esposa, Maria Gabriela, e para o irmão, Ivo Ferreira. Ivo, por sua vez, mostrou o pó para a filha, Leide das Neves, que passou horas brincando com a substância e depois comeu um ovo cozido que a mãe havia preparado, ingerindo partículas do material radioativo. Quinze minutos depois, começou a vomitar. Nas semanas seguintes, diversos familiares e amigos que tiveram contato com o material também adoeceram.
Leide e Maria Gabriela foram as primeiras vítimas do acidente. Ambas morreram no dia 23 de outubro, em quarentena num hospital após Maria Gabriela suspeitar que o pó branco era a causa do adoecimento da família e alertar as autoridades. Dois funcionários do ferro-velho, Israel Baptista dos Santos e Admilson Alves de Souza, morreram na mesma semana: Israel no dia 27 de outubro e Admilson no dia 28.
Devair e Ivo são considerados vítimas indiretas. Segundo relatos de familiares, ambos entraram em depressão após o ocorrido e desenvolveram vícios: “O Devair morreu sete anos depois do acidente, em 1994. O laudo médico disse que foi cirrose hepática, mas o laudo cadavérico constatou que ele tinha câncer em três órgãos. O Ivo morreu em 2003, de enfisema pulmonar. O que aconteceu foi que os vícios pegaram muita gente. O Devair foi com a bebida. Com o Ivo foi o cigarro, ele chegou a fumar seis maços por dia”, disse Odesson, irmão dos dois, à BBC em 2011.
Hoje, esse é considerado o maior acidente radiológico do mundo fora de usinas nucleares. A Associação das Vítimas do Césio 137 estima mais de cem mortes causadas pela contaminação nos anos seguintes, e afirma que cerca de 1.600 ainda sentem os efeitos da radiação: “Geralmente são doenças comuns, mas mais frequentes e precoces. Por exemplo, osteoporose e hipertensão são comuns, mas são comuns em jovens de 18, 20 anos? Outra doença constante é a úlcera. Quase todas as pessoas têm. E 100% das pessoas têm gastrite”, afirmou à BBC Odesson, presidente da associação.
