Contraste. Essa palavra resume potencial e carência do Vale do Taquari. De positivo, figura entre os mais dinâmicos do RS, com o Produto Interno Bruto (PIB) acima de R$ 19 bilhões. Trata-se da 8ª maior economia do Estado, com crescimento médio de 0,82% ao ano. Por baixo dessa vitrine produtiva, corre uma mazela: o esgoto sem tratamento.

“É um prejuízo imensurável”, afirma o doutor em Engenharia Ambiental e Sanitária, professor e pesquisador da Univates, Odorico Konrad. Está no risco da disseminação de doenças, como as hepatites, disenteria, leptospirose.

No Vale do Taquari, os índices de adoecimentos pela falta de tratamento do esgoto são ínfimos. O principal prejuízo está na contaminação dos arroios, rios, lagos e do lençol freático, diz Konrad.

“Só não temos mortalidade por doenças derivadas da falta de saneamento básico por termos o abastecimento de água universalizado. Os municípios, associações de água e a Corsan garantem o tratamento adequado e de boa qualidade.”

Com o prazo estabelecido pelo Marco do Saneamento, que exige 90% de tratamento dos efluentes domésticos até 2033, a região convive com um dos piores indicadores do RS. Apenas 8,6% da população tem acesso à rede de esgoto, ante a média de 42,7% no estado, conforme relatório do Departamento de Economia e Estatística (DEE), ligado à Secretaria Estadual de Planejamento.

Para o professor, esse percentual é otimista demais. “Pelo que conheço da realidade, não chegamos a 5% de esgoto efetivamente tratado no Vale”, afirma. Enquanto a economia se apoia na indústria alimentícia, calçados, móveis, no comércio e nos serviços, os sistemas domésticos despejam o esgoto em fossas rudimentares ou de forma direta rede pluvial.

Sistema de captação de água. A eficiência na distribuição contrasta com a ausência de coleta absoluta e com o despejo que contamina arroios e lençol freático. (Foto: divulgação)

“O Vale do Taquari teve uma urbanização muito acelerada, principalmente Lajeado. “Imagina um apartamento com dez andares construído na década de 1990, com um sistema individual, como fossa, filtro e sumidouro. Esse formato é ineficiente para áreas com alta densidade populacional”.

Em cima disso, indicadores maquiam a realidade, diz Konrad. Cada instituto de pesquisa apresenta percentuais distintos. O IBGE, por exemplo, contabiliza 86% do RS com esgoto tratado. “No Vale do Taquari, não chegamos a 5% de esgotamento sanitário.”

O ideal, realça, seria a coleta absoluta (residências ligadas à uma estação de tratamento), para que os efluentes recebam o tratamento adequado e a água volte sem contaminantes para os mananciais.

O rio paga a conta

Com esse índice pífio no tratamento dos efluentes, o Vale do Taquari tem uma das bacias hidrográficas mais poluídas do RS. Ainda que os sistemas individuais estejam previstos pela legislação, a falta de manutenção faz com que o material orgânico, depois de encher os recipientes, se espalham pelo solo e atinjam o lençol freático, alerta a engenheira ambiental da Secretaria de Meio Ambiente de Lajeado, Alana Foltz.

Os fatores da contaminação são diversos. “Temos um histórico de descontrole. As legislações avançaram. Ainda assim, temos um passivo. A poluição dos recursos hídricos não é de uma hora para outra. Em toda nossa região, temos atividades agrícolas, na suinocultura, também indústria. Mas hoje, o maior problema está nas residências.”

Há um lapso no que se refere à fiscalização. Nem mesmo o marco do saneamento deixa isso claro. “Quem faz? É a empresa que detém a outorga? É o poder público? O fato é que temos construções irregulares, com ligações do esgoto direto na rede pluvial, temos outras com fossa, mas sem limpeza periódica.”

Como resultado, o rio que dá nome à região está entre os mais poluídos do RS. Amostras do Comitê da Bacia Hidrográfica Taquari/Antas mostra níveis de oxigênio baixos, com alta taxa de contaminação por coliformes fecais e fósforo, o que inviabiliza irrigação de hortaliças, uso para recreação e a sobrevivência dos peixes.

Unidade opera com cerca de 300 ligações, muito abaixo da capacidade projetada, num cenário de redes fragmentadas e baixa cobertura

Qualidade de vida

Outro prejuízo está na qualidade de vida, em especial na relação entre sociedade e recursos naturais. Em Lajeado, o Arroio do Engenho era um local de encontro e de banhos em dias quentes, relembra a escritora Ana Togni, a Tia Chica. “Eu me criei no centro de Lajeado. Meus irmãos, amigos e familiares passávamos o dia na lagoa. A água era limpa, fazíamos pic nic, passávamos a tarde toda entre a água e as brincadeiras no Engenho.”

Era por volta dos anos de 1960. Onde hoje é a rua Décio Martins Costa, o arroio seguia aberto em direção ao Rio Taquari. Hoje chamado de Valão, está concretado. “É para não ver o que está correndo por baixo”, lamenta Tia Chica.

Na infância e em parte da adolescência, o trecho era chamado de canal. “A água era limpa. Fico imaginando, se fizéssemos um corredor de flores, o quão bonito seria. Hoje ainda vou no parque do Engenho caminhar. Tenho um misto de sentimentos. Por um lado a memória daqueles anos felizes e a tristeza de ver a situação de hoje.”

Depois das tragédias

O Vale do Taquari foi o epicentro das tragédias ambientais de 2023 e do ano passado. Tanto o professor Odorico Konrad quanto a engenheira ambiental Alana Foltz asseguram que a qualidade da água piorou após a série de inundações.

“Fizemos uma coleta recente, e mostrou que os índices de contaminação estão muito elevados. Podemos pressupor que as enchentes têm relação com isso. Mas precisamos manter um histórico de análises para acompanhar com mais frequência o grau de poluição”, argumenta Alana.

Para Konrad, as tragédias também mostraram o conjunto de erros de planejamento das cidades. Por conceito, o saneamento básico se sustenta em quatro bases: abastecimento de água, tratamento de esgoto, coleta e destino do lixo, além da drenagem urbana. “O quanto de lixo foi levado pela água, isso mostrou que não temos um sistema robusto. Os bueiros entupiram e até agora estão com problemas.”

Lembra ainda da imagem que correu o pós-enchente de maio. “Lajeado teve um momento de relembrar o antigo lixão”. O professor se refere aos desmoronamentos na barranca do rio, nas proximidades do bairro Carneiros, em que o lixo enterrado voltou a aparecer.

Contrastes: residências ainda despejam esgoto a céu aberto enquanto sistemas modernos de tratamento, com tanques de alta eficiência, mostram como a carga orgânica poderia retornar limpa ao meio ambiente

Desafio nacional

O cenário no país ajuda a dimensionar o tamanho do desafio do Vale. Dados do relatório Trata Brasil, do sistema federal de saneamento, apontam que o país está perto de universalizar o abastecimento de água, com índice de atendimento em torno de 83%e quase 94% entre os 100 maiores municípios.

Quando o tema é coleta e tratamento de esgoto, o quadro muda. A média nacional de atendimento com rede coletora é de 55,2%. No tratamento, o indicador que mede quanto do esgoto retorna à natureza após passar por uma estação atinge 51,8%.

Com a lei aprovada em 2020, a meta é chegar até 31 de dezembro de 2033 com 99% da população com acesso à água potável e 90% de coleta e tratamento de esgoto. Para cumprir o prazo, seria necessário investir, em média, R$ 223,82 por habitante ao ano.

No grupo dos 20 piores municípios (com mais de 100 mil habitantes) avaliados pelo Ranking do Saneamento, o valor médio investido foi de R$ 78,40. Uma diferença de 65% abaixo do patamar considerado mínimo para chegar à universalização.

No RS, a coleta avança, mas o tratamento fica para trás. A estimativa é de que apenas um quarto do esgoto gerado receba algum tipo de tratamento antes de ser lançado em rios, arroios ou no solo.

divulgação

Indicadores do Vale do Taquari

  • População estimada em 380 mil habitantes
  • Urbanização de 79,4% (RS: 87,5%)
  • 8,6% da população com acesso à rede de esgoto (DEE/SPGG)
  • Menos de 5% dos efluentes efetivamente tratados (estimativa técnica local)

Uma Estação de Tratamento de Esgoto em operação em Lajeado, com pouco mais de 300 residências ligadas (quando poderia passar de mil). Outra em fase de ativação (Encantado)

Rios e arroios em níveis críticos de contaminação, classificados como ruins ou péssimos. Desaconselhado para banho, pesca e até para irrigação de hortaliças.

Impactos ambientais
– Coliformes fecais e fósforo acima dos limites
– Baixa oxigenação em arroios urbanos
– Mortandade de peixes em períodos de estiagem

Principais desafios locais
– Urbanização acelerada sem um sistema de coleta absoluta
– Fossas sem manutenção periódica
– Ligações irregulares nas redes pluviais
– Falta de definição clara sobre quem fiscaliza
– Redes antigas, fragmentadas e sem padrão técnico
– A conta da falta de esgoto tratado se acumula em três linhas:
– Ambiental – rios, arroios e lençóis freáticos contaminados;
– Sanitária – risco de doenças e de aumento de internações evitáveis;
– Qualidade de vida – perda de potencial turístico, encarecimento da água, necessidade de obras corretivas mais caras no futuro.

Caminho para 2033

  • Ampliar redes coletoras em áreas urbanas consolidadas
  • Adequar contratos entre municípios e prestadoras de serviço às metas do Marco Legal
  • Garantir investimentos estáveis e previsíveis por mais de uma década
  • Implantar modelos combinados (rede, sistema misto e fossas geridas) sem perder controle técnico
  • Incorporar saneamento como eixo central de políticas de reconstrução e adaptação climática no Vale do Taquari

Cenário estadual e nacional

  • RS: 25,3% do esgoto tratado
  • Brasil: índice médio de 51,8%
  • Meta Marco Legal: 90% até 2033
  • Investimento nacional necessário: R$ 500 bilhões

By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART

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