A comuna de Saint-Louis, no leste de França, vive uma crise de saúde pública sem precedentes depois de se ter descoberto que a água da torneira consumida por cerca de 60 mil pessoas está contaminada com PFAS: substâncias químicas per- e polifluoroalquil, conhecidas como “químicos eternos”. A situação levou à maior proibição de consumo de água da torneira alguma vez imposta no país, afetando 11 comunas da região de Haut-Rhin, junto à fronteira com a Suíça e a Alemanha. Desde então, crianças com menos de dois anos, mulheres grávidas ou a amamentar e pessoas imunodeprimidas foram aconselhadas a evitar totalmente o consumo de água da rede pública.

Sandra Wiedemann, de 36 anos, residente em Buschwiller, uma das localidades afetadas, conta que ficou em choque ao saber pela televisão que a água com que cozinhava, lavava os legumes, tomava banho e amamentava o filho de seis meses, Côme, estava contaminada. “Mesmo que deixemos de a beber, continuamos expostos. E não podemos fazer nada”, lamenta. Poucos dias depois da emissão da reportagem, os supermercados da região encheram-se de pessoas à procura de água engarrafada, enquanto os alertas das autoridades começavam a chegar às caixas de correio dos residentes.

A origem da contaminação foi identificada num produto utilizado durante décadas no aeroporto internacional de Basileia-Mulhouse-Freiburg: uma espuma de combate a incêndios, rica em PFAS, aplicada em treinos e operações reais desde os anos 60 até 2017. Estes compostos altamente persistentes infiltraram-se no solo e acabaram por atingir os lençóis freáticos que abastecem a rede pública de água. Testes recentes revelaram concentrações de PFAS quatro vezes superiores ao limite que passará a ser imposto em toda a União Europeia a partir de 2026: 0,1 microgramas por litro.

Bruno Wollenschneider, líder da associação de moradores Adra, enviou dez amostras de sangue de residentes locais para um laboratório independente. Os resultados mostraram níveis médios de 14,9 microgramas por litro, com o valor mais elevado a atingir os 22 microgramas – muito acima dos 6,9 microgramas identificados pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos como ponto de risco para efeitos negativos na saúde. “O Estado devia proteger-nos. Se tivéssemos sido avisados mais cedo, podíamos ter evitado esta exposição”, criticou. Segundo documentos oficiais, os níveis elevados de PFAS já tinham sido detetados em 2017 por agências governamentais, mas só agora foram divulgados.

As consequências da exposição prolongada aos PFAS vão desde disfunções imunológicas a problemas reprodutivos e certos tipos de cancro. Sandra Wiedemann, que se mudou para Buschwiller em 2020, teve dois abortos espontâneos e foi recentemente diagnosticada com endometriose. “Os problemas de saúde começaram quando vim para cá. Não consigo provar que está relacionado, mas questiono-me”, afirma. As autoridades regionais atribuem agora um subsídio de 80 euros por pessoa vulnerável para ajudar com os custos da água engarrafada, mas muitos residentes consideram a medida insuficiente.

Os PFAS são utilizados em centenas de produtos industriais e domésticos devido às suas propriedades impermeáveis e antiaderentes. Estão presentes em revestimentos de frigideiras, embalagens de alimentos, têxteis e dispositivos eletrónicos, além de espumas contra incêndios. A sua resistência química extrema impede que se degradem naturalmente, acumulando-se no organismo humano e em espécies animais. Estudos internacionais detetaram efeitos devastadores em ecossistemas contaminados, incluindo crocodilos com feridas crónicas nos EUA e alterações hormonais em focas no Ártico.

Perante a gravidade da situação, as autoridades locais planeiam construir estações de tratamento de água no valor de 20 milhões de euros, com custos operacionais anuais de 600 mil euros. A fatura poderá ser parcialmente transferida para os consumidores a partir de 2026. Bruno Wollenschneider, que vive a cinco minutos do aeroporto, exige que este assuma a responsabilidade financeira pela descontaminação. “A água é um bem público. As autoridades esconderam esta informação durante anos. Agora é a altura de obrigar legalmente o aeroporto a pagar”, defende.

O caso de Saint-Louis poderá ser apenas o início de uma crise mais vasta na Europa. De acordo com o mapa “Forever Pollution”, gerido pelo CNRS francês, há mais de 23 mil locais contaminados com PFAS no continente, dos quais 2.300 já excedem os futuros limites legais. Só em França, 34 comunas estão afetadas, incluindo 50 localidades na região de Lyon, onde 160 mil pessoas consomem água acima dos níveis permitidos. Em Itália, na região do Véneto, até 350 mil pessoas foram expostas a PFAS vindos de uma fábrica que operou entre 1964 e 2018. E na Bélgica, cerca de metade da população que vive num raio de 5 km de uma fábrica da 3M em Antuérpia tem níveis elevados de PFAS no sangue.

À medida que a UE se prepara para impor limites mais rígidos, o caso de Saint-Louis serve de alerta. “Acho que estamos apenas no início da história”, afirma Séverine Maistre, residente da região. “Se procurarmos os PFAS, vamos encontrá-los. Eles estão por todo o lado.” A crise do leste de França revela assim uma ameaça silenciosa que poderá ter consequências muito mais vastas para a saúde pública e os ecossistemas de toda a Europa.

By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART

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