É fresca a notícia de que os alertas de desmatamento na Amazônia e no Cerrado caíram em 2025, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O Ministério do Meio Ambiente atribui a redução ao reforço da fiscalização após as queimadas recordes do ano passado, mas reconhece que os níveis seguem elevados.
São os dois maiores biomas do país em extensão territorial e em diversidade de flora e fauna, além de abrigarem territórios de grande parte da população originária brasileira. Mas parece que todos os olhos se voltam sempre e apenas para a Amazônia.
Conhecido popularmente por suas árvores de troncos retorcidos, o Cerrado é muito menos popular e chama menos a atenção. Ainda assim é a savana com a maior variedade de árvores do mundo, berço de quatro mil plantas que não se encontram em nenhum outro lugar e habitat de 800 espécies de abelhas.
“O Cerrado é um bioma de rara beleza, mas mesmo assim ele continua tendo a sua importância ignorada! Acho que já passou da hora de contratarmos uma boa empresa de relações públicas… Isso é o que eu chamo de vazio ambiental…”
Com Cerrado em quadrinhos, publicado pela Editora Peirópolis em 2024, o geógrafo e quadrinista Evandro Alves busca chamar a atenção para essa área negligenciada que ocupa o centro do Brasil.
Alerta para a falta de mecanismos de proteção contra a devastação ambiental trazida pelas monoculturas de soja, eucalipto e cana-de-açúcar, criação de gado, queimadas criminosas, urbanização desenfreada, mineração e todas as consequências para o meio ambiente e a população local.
“Está cada vez mais difícil fazer jus ao nome de sempre-viva.”
Num mundo em que a leitura de imagens é uma habilidade cada vez mais importante para comunicar, diferenciar, discernir e desenvolver olhar e pensamento crítico, a apresentação do Cerrado e de suas ameaças na linguagem de quadrinhos é um diferencial.
Atrativo para crianças e adolescentes, traz um texto também direto, conciso e possível de ler em pílulas que podem ser exploradas de forma independente do conjunto e virar alvo de reflexão mais aprofundada. Sobretudo destaca-se o humor na combinação certeira entre as palavras e as ilustrações. As imagens, muitas vezes caricatas, revelam nuances e extremos do que vem acontecendo no bioma.
“O Cerrado tem vários tons de verde, porém o que está mais na moda é o ‘verde-soja’!”
A obra faz um passeio pela região apresentando animais e plantas nativos – aves, répteis, mamíferos, insetos e muitas espécies vegetais –, a população local – indígenas, pequenos agricultores e quilombolas – e até instrumentos musicais, como a maraca, o tambor e a viola geraizeira. Mostra também “o invasor-explorador”: grandes latifundiários e políticos, representando o estado e a iniciativa privada.
Impossível não olhar para o livro como um instrumento complementar e rico para o ensino da geografia – não é coincidência a formação do autor. As imagens são fortes e a mensagem muito imediata, provocando surpresa, perguntas e o desejo de conhecer mais. Incluindo uma viagem, por que não?
Se não der para ir em carne e osso, os quadrinhos te transportam ao cerrado procurando aguçar todos os sentidos: cores, sotaques, a voz dos animais, o cheiro e a textura das plantas e das queimadas, o gosto das frutas e, ainda, o amor por esse imenso bioma meio esquecido.
A gente fica com vontade de saber mais, de aprofundar.
Quando começou essa mudança na paisagem? Como? Por quê? O que é o progresso? Existe “progresso” sem destruição? Existe vida sem “progresso”? Para onde vai quem abandona um lugar devastado? Passa a viver como e de quê? Nós, nas grandes cidades, temos algum tipo de responsabilidade sobre o que acontece lá no centro do Brasil?
“E a biodiversidade versus a ‘biodivercidade’!”
Sobre o autor
Evandro Alves é cartunista, quadrinista, ilustrador e mestre em Geografia. Recebeu mais de 50 prêmios em salões de humor no Brasil e no exterior. Cerrado em quadrinhos é fruto de uma exposição feita em 2015 no Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte (MG).
Cerrado como cenário e personagem
O Cerrado é a paisagem – e talvez um dos personagens principais – da obra de um dos mais importantes autores brasileiros, João Guimarães Rosa. Em 1952, ele acompanhou a condução de uma boiada no interior de Minas Gerais montado na mula Balalaika. A trilha serviu de inspiração para seu único romance, o Grande Sertão: Veredas.
Em 2023, a editora ÔZé lançou No longe dos gerais, em que o autor e ilustrador mineiro Nelson Cruz relata a condução dessa boiada segundo a perspectiva de um personagem anônimo, um menino de aproximadamente nove anos.
O livro foi publicado pela primeira vez em 2004 e, na nova edição, tem mais ilustrações e texto atualizado. A paisagem, a vida do boiadeiro e os detalhes da vida no Cerrado estão destacados na obra. Para contemplar e admirar, bem devagarinho, a beleza do traço do artista e a vida local, no ritmo do trote dos cavalos.
