
(Fotos: Divulgação/ Ibama)
Manaus (AM) – O garimpo ilegal segue como um dos principais vetores de destruição ambiental e ameaça às populações amazônicas, especialmente no Estado do Amazonas.
Na última terça-feira (25), a Polícia Federal deflagrou a Operação Provérbios 22:1 (Recte) para desarticular uma organização criminosa envolvida na compra, transporte e comercialização ilegal de ouro. A ação cumpriu mandados em Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Amazonas e Pará.
Segundo a PF, o grupo usava o ouro extraído ilegalmente para lavagem de dinheiro, por meio da aquisição de veículos e imóveis. A operação busca reforçar provas reunidas durante a investigação. A iniciativa ocorre após a Operação Ita Yubá, realizada em agosto, que identificou outra rede criminosa responsável por movimentar cerca de R$ 200 milhões com extração e venda ilegal de ouro e pedras preciosas.
O professor Tássio Franchi, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e coordenador do GEDEFROM, fez uma avaliação e apontou com exclusividade ao Portal AM1, múltiplas frentes de exploração e impactos crescentes decorrentes do avanço de atividades voltadas ao garimpo ilegal.
Segundo ele, várias regiões do estado estão sob forte pressão do garimpo, incluindo áreas próximas das fronteiras e trechos importantes das principais bacias hidrográficas. Entre Vila Bittencourt e Tabatinga, além dos vales do Japurá, Javari e do Solimões, há uma intensa exploração de ouro.
Outras áreas críticas ficam perto de Presidente Figueiredo, na divisa com Roraima, e em regiões próximas ao Pará, como a Estação Ecológica do Alto Maués. Além da destruição da floresta, a contaminação por mercúrio é hoje um dos problemas mais graves.
“O Rio Negro já apresenta indícios significativos de contaminação por mercúrio vindo de garimpos colombianos”, explicou.
Na bacia do Rio Madeira, o cenário é ainda pior, influenciado pela atividade mineradora na Bolívia e no Peru, países que despejam resíduos que chegam à Amazônia brasileira.
“A Bolívia é hoje a principal porta de entrada de mercúrio na região amazônica”, disse Franchi.
Organizações criminosas ampliam influência econômica sobre o ouro ilegal
Embora o professor afirme que não há no Brasil grandes facções diretamente administrando garimpos, sua participação é decisiva em outras etapas. Elas atuam no financiamento, na compra de equipamentos, na logística e principalmente na aquisição do ouro para lavagem de dinheiro.
Segundo Franchi, existem três modelos de envolvimento criminal na Amazônia:
Administração direta do garimpo — comum em partes do Peru e da Colômbia;
Financiamento indireto, com fornecimento de equipamentos e apoio;
Compra do ouro como forma de escoar recursos ilícitos.
“No Amazonas, essas organizações atuam mais de forma indireta, mas são clientes preferenciais desse ouro, que compram sem nota e usam para lavar dinheiro”, afirmou.
Quanto ao uso de tecnologia, o professor explica que não houve grandes mudanças no modo como o garimpo é feito. A extração continua sendo um processo muito bruto, usando motobombas, dragas e a remoção irregular de terra.
A única novidade mais evidente é o uso de internet via satélite, como a Starlink, que facilita a comunicação e a fuga durante operações de fiscalização.
Operações reduzem atividade, mas logística da região dificulta combate
Operações conjuntas das forças de segurança têm conseguido resultados expressivos em algumas áreas da Amazônia. O exemplo mais notável é a Terra Indígena Yanomami, onde a atuação permanente reduziu em 98% o número de garimpos.
“A presença duradoura impede o retorno dos garimpeiros. Eles foram embora e não conseguiram voltar”, explicou o professor.
Operações pontuais também têm impacto, destruindo balsas, motores e equipamentos e interrompendo atividades por meses.
Outro obstáculo importante é o preço internacional do ouro, que subiu muito nos últimos anos. Há cerca de dez anos, uma grama valia em torno de R$ 200,00; hoje pode passar de R$ 500,00 ou R$ 600,00. Esse aumento torna o ouro ainda mais valorizado e acaba estimulando a atividade ilegal.
O professor explica que, desde 2014, países como a Rússia aumentaram muito suas reservas de ouro para se proteger de possíveis sanções internacionais, especialmente após a guerra na Ucrânia. Essa compra em grande escala ajudou a elevar o preço do ouro no mercado mundial. Com vários países fazendo o mesmo, a demanda ficou ainda mais alta, o que torna o metal muito valorizado e incentiva o garimpo ilegal, já que se trata de um negócio extremamente lucrativo.
Ele também reforça que outro fator que dificulta o combate ao garimpo é a logística na região amazônica. O Amazonas é um estado ribeirinho e com poucos acessos por rodovia. Por isso, deslocamentos por barco levam dias e podem ser facilmente percebidos por grupos criminosos. Quando as operações precisam ser feitas por helicóptero ou avião, os custos aumentam muito.
Assim, mesmo quando há denúncias e informações sobre garimpos ilegais, chegar até esses locais exige dias de planejamento e deslocamento. Diferente de estados do Sudeste, onde a fiscalização consegue chegar rapidamente, no Amazonas a dimensão do território torna tudo mais difícil.
“No Amazonas, chegar a um garimpo pode levar dias, seja por rio, seja por helicóptero, e isso custa muito caro”, disse Franchi.
Monitoramento por satélite impulsiona tendência positiva
Apesar das dificuldades, Franchi identifica avanços significativos no uso de tecnologia para detectar novos focos de garimpo.
Um dos principais pilares dessa evolução é o trabalho realizado pelo Censipam, que possui uma sede regional em Manaus. A instituição monitora continuamente o surgimento e a expansão das áreas de garimpo em toda a Amazônia, permitindo que o estado brasileiro tenha uma visão detalhada e atualizada do avanço da atividade ilegal.
“Hoje conseguimos identificar rapidamente novas áreas e priorizar alvos com os recursos limitados que temos”, destacou.
Nos últimos anos, o Brasil desenvolveu uma capacidade muito mais eficiente de monitorar e combater o garimpo ilegal, especialmente após uma série de operações importantes, entre elas, Verde Brasil, Sumaúma, Yanomami e Catrimani.
Essas operações marcaram um avanço significativo porque impulsionaram o uso de tecnologia, imagens de satélite e algoritmos de inteligência artificial para identificar áreas de garimpo com rapidez e precisão.
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