À hora que escrevo, nada sei do domingo eleitoral para lá da inevitabilidade de voltarmos às mesas de votos no dia 8 de fevereiro – se não for este o cenário quando acordar, caro (e)leitor, isso sim será uma grande surpresa. E lá por fora, as mais recentes arruaças do bully Trump no recreio geopolítico internacional são algo tão deprimente que temo não conseguir escrever sobre isso sem uma dúzia de impropérios pelo meio.

Felizmente a ciência vai resistindo ao novo obscurantismo e brinda-nos aqui e ali com alguns sinais de esperança e motivos para um sorriso. Neste caso, com o seu quê de redenção nostálgica. Explico: uma equipa multinacional de cientistas do CERN – a organização europeia para a investigação nuclear -, da qual fizeram parte dois investigadores portugueses, publicou um estudo que, leio no jornal espanhol El Confidencial, devolve algum crédito a Armageddon, um dos maiores campeões de bilheteira de Hollywood na última década do século passado e, simultaneamente, um dos filmes mais massacrados pela crítica e pela… comunidade científica.

Recordemos: realizado por Michael Bay, um expert dos blockbusters de ação, o filme tinha um elenco recheado de estrelas, liderado por um Bruce Willis no auge, e um argumento tão simples quanto bombástico: usar uma bomba nuclear para salvar o planeta da ameaça de um asteroide assassino. O rigor científico é sempre algo relativo nestas megaproduções, mas Armageddon foi especialmente “abusado”: a NASA encontrou mais de 160 erros factuais e transformou o filme numa espécie de exemplo pedagógico sobre tudo o que não se deve fazer.

No entanto, o estudo dos investigadores do CERN vem mostrar que a ideia base do “plano Armageddon” – explosões nucleares para desviar asteroides – pode mesmo funcionar melhor do que se pensava, sobretudo no caso de asteroides metálicos. Para o testar, os investigadores bombardearam um meteorito rico em ferro e níquel, simulando as condições extremas de uma explosão nuclear. Em vez de se desintegrar em fragmentos apocalípticos, que é o principal receio da opção nuclear, o material absorveu a energia, amoleceu e deformou-se (para voltar depois a endurecer, com até 2,5 vezes mais resistência), sugerindo que um asteroide pode aguentar o “empurrão” nuclear que o desvie para uma rota menos ameaçadora.

E o tema não é meramente teórico, numa altura em que a comunidade científica vigia o asteroide 2024 YR4, com remotas probabilidades de atingir a Terra, mas uns respeitáveis 4,3% de hipóteses de colidir com a Lua em 2032.

Armageddon não estava afinal completamente errado na intuição e a ciência faz agora alguma “justiça” à missão encabeçada pelo corajoso Harry Stamper (Bruce Willis). O problema é, quando voltamos a olhar à nossa volta, perceber que desviar um asteroide, mesmo com recurso a física nuclear de emergência, parece hoje uma tarefa mais simples do que recolocar o mundo na órbita do bom senso.

Editor do Diário de Notícias

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By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART

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