A presença de microplásticos na alimentação tem vindo a ganhar atenção do público, que associa sobretudo estes contaminantes a frutos do mar. Contudo, estudos recentes indicam que a ingestão de microplásticos através de outros alimentos e bebidas é muito mais comum do que a maioria das pessoas imagina.
De acordo com Catherine Rolph, especialista em Engenharia Ambiental da Open University, e relatado originalmente no The Conversation, a ingestão diária de microplásticos pode variar entre zero e 1,5 milhões de partículas, sendo a água engarrafada uma das fontes mais significativas. A especialista identificou cinco fontes surpreendentes destes contaminantes que muitas pessoas não consideram na sua dieta diária.
Pastilhas elásticas podem libertar centenas de microplásticos
Ao mastigar uma pastilha elástica, está essencialmente a mastigar uma base de plástico. A maioria destas contém uma base composta por plásticos e borracha, à qual se adicionam aromatizantes e adoçantes. Durante a mastigação, esta base liberta microplásticos, com uma única grama de chiclete a libertar até 637 partículas.
Pastilhas elásticas naturais feitas com polímeros vegetais não são significativamente melhores, sugerindo que os microplásticos podem também surgir durante a produção ou embalagem. A maior parte das partículas é libertada nos primeiros oito minutos de mastigação, pelo que para reduzir a exposição, é preferível mastigar uma única por mais tempo do que ingerir constantemente novos pedaços.
Sal: um ingrediente aparentemente puro
Apesar de parecer um alimento simples, o sal é amplamente contaminado por microplásticos. Estudos mostram que 94% dos produtos de sal testados em todo o mundo contêm microplásticos, sendo o sal marinho um potencial indicador da poluição por microplásticos nos oceanos.
A contaminação é mais elevada em sais terrestres, como o sal do Himalaia, e muitos contaminantes provêm do processo de produção e embalagem. Além disso, moinhos de plástico descartáveis podem libertar até 7.628 partículas de microplásticos ao moer apenas 0,1 g de sal. Para minimizar a exposição, Rolph recomenda utilizar moinhos de cerâmica ou metal e armazenar o sal em recipientes não plásticos.
Frutas e vegetais também contêm microplásticos
Estudos identificaram a presença de microplásticos em frutas e vegetais, incluindo nanoplásticos (partículas menores que 1.000 nanómetros) que podem ser absorvidos pelas raízes das plantas. Maçãs e cenouras foram identificadas como os produtos mais contaminados, enquanto a alface apresenta níveis mais baixos.
Apesar disso, a quantidade de microplásticos nestes alimentos é relativamente pequena comparada com produtos mais processados. A especialista alerta que os antioxidantes naturais das frutas e vegetais, como as antocianinas que lhes dão cor, mantêm os consumidores saudáveis, pelo que não devem deixar de ser consumidos.
Chá, café e bebidas quentes
Os saquinhos de chá não são a única fonte de microplásticos em bebidas quentes. Folhas de chá, café e leite podem estar contaminados, e o uso de copos descartáveis com revestimento plástico é uma das maiores fontes de contaminação. Temperaturas elevadas facilitam a libertação de microplásticos dos recipientes para a bebida.
Rolph recomenda chá a granel e copos reutilizáveis em vidro ou metal para reduzir a exposição. Estudos indicam que bebidas frias contêm menos microplásticos, enquanto alguns refrigerantes e cervejas em garrafas de vidro podem apresentar contaminação superior às equivalentes em plástico devido às tampas metálicas pintadas.
Frutos do mar recebem atenção excessiva
Embora a maioria dos frutos do mar esteja contaminada com microplásticos, a atenção que recebem é desproporcionada. Estudo citado por Rolph indica que bivalves filtradores, como mexilhões, contêm apenas 0,2 a 0,7 partículas por grama, significativamente menos do que uma única chávena de chá preparada com saquinho plástico, que pode libertar 11,6 mil milhões de microplásticos.
Evitar alimentos processados e recipientes plásticos, assim como aquecer alimentos em vidro em vez de plástico, são estratégias eficazes. A água engarrafada continua a ser a principal fonte de microplásticos, com até 240.000 partículas por litro, sendo a água da torneira uma alternativa mais segura.
Embora eliminar completamente os plásticos da dieta seja praticamente impossível, pequenas mudanças podem reduzir significativamente a exposição.
