O Diretor de Desenvolvimento, Fernando Postal detalha atuação no agro, crédito empresarial, setor público e modernização do Banrisul, e faz alerta sobre situação fiscal do Estado
Em um cenário marcado por taxa básica de juros elevada, eventos climáticos extremos e reorganização fiscal do Estado, o Banrisul busca equilibrar resultado financeiro, responsabilidade institucional e fomento ao desenvolvimento regional. A avaliação é do Diretor de Desenvolvimento da instituição, Fernando Postal, que detalhou em visita ao Semanário, as frentes estratégicas do banco e os principais gargalos enfrentados pela economia gaúcha.
Segundo ele, a estrutura sob sua gestão abrange quatro grandes eixos: repasse de recursos federais para desenvolvimento e inovação, crédito imobiliário, relacionamento com o setor público e agronegócio, este último responsável por mais de 40% do Produto Interno Bruto (PIB) do Rio Grande do Sul. “O foco de tudo isso é o desenvolvimento do Estado. O Banrisul tem uma responsabilidade com o desenvolvimento do Estado. Não é só por ser mais um banco”, afirma.
Crédito subsidiado e inovação
Uma das principais ferramentas de estímulo à economia está na operacionalização de recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). As linhas são direcionadas à modernização produtiva, aquisição de maquinário e investimentos em inovação tecnológica.
Postal explica que, diante de uma Selic em 15%, o crédito com recursos livres perde competitividade e compromete a capacidade de investimento das empresas. “Se ele não conseguir linhas do BNDES e do governo federal fica difícil. A roda não gira como deveria girar”, avalia.
A leitura do dirigente dialoga com o comportamento recente do mercado: juros elevados aumentam o custo do capital, reduzem o apetite por expansão e impactam diretamente micro, pequenas e médias empresas, perfil predominante na carteira da instituição.
Imobiliário pressionado por falta de funding
No crédito habitacional, o desafio é estrutural. O funding (financimaneto) tradicional das operações imobiliárias é lastreado majoritariamente na poupança, modalidade que tem registrado retração nos últimos anos. “Estamos enfrentando dificuldades no financiamento de imóveis. Não quer dizer que não está fazendo, mas a questão das taxas e da falta de funding dificulta”, explica.
Ele ressalta que o problema não é isolado, mas afeta praticamente todo o sistema financeiro. Com menor captação em poupança e juros altos, a equação do crédito imobiliário torna-se mais restritiva.
Relação institucional com o poder público
Outra frente relevante é a gestão de contas governamentais. Atualmente, mais de 200 prefeituras realizam a folha de pagamento por meio do banco, além dos principais órgãos estaduais, Executivo, Assembleia Legislativa, Judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública e Tribunal de Contas. “Isso tem um significado muito grande para nós”, destaca.
A atuação junto ao setor público reforça o caráter institucional e sua vinculação histórica ao Estado.
Força econômica e vulnerabilidade climática
Se o agro representa potência econômica, também exige cautela redobrada. O banco opera linhas como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e o Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp), além de crédito com recursos livres.
Ele explica que o limite do Pronaf, atualmente em torno de R$200 mil por operação, muitas vezes não atende integralmente a necessidade de investimento do produtor. Quando o valor ultrapassa esse teto, o agricultor precisa migrar para linhas como o Pronamp ou crédito com recursos livres, que operam com taxas mais elevadas, especialmente em um cenário de juros altos.
Postal observa que a sequência de três estiagens e uma enchente recente provocou impacto significativo na capacidade de pagamento de produtores. “A inadimplência, de um modo geral, aumentou bastante em todas as áreas. Não no Banrisul. O banco é um dos que têm a menor inadimplência”, afirma.
Ele explica que medidas de refinanciamento, algumas com prazo de até nove anos, e aporte estadual, ajudaram a mitigar os efeitos da crise. Após as enchentes, o governo do Estado destinou R$150 milhões para subsidiar juros e aliviar o endividamento rural. “Conseguimos dar um fôlego maior para a maioria dos nossos clientes”, sustenta.
Seguro agrícola: gargalo estrutural
Um dos pontos mais sensíveis é a baixa cobertura de seguro rural no Estado. Postal relata que regiões com maior risco climático enfrentam dificuldade até mesmo para contratar apólices. “Qual é o estado que menos tem seguro agrícola? O Rio Grande do Sul, devido as intempéries que já aconteceram, é preocupante”, afirma.
Postal exemplifica que o custo e a viabilidade do seguro variam conforme a região e o histórico climático. Em áreas como Ibirubá, com forte produção de grãos e presença de irrigação, o risco é menor e o seguro tende a ser mais acessível. Já em municípios da Metade Sul, como Bagé, marcados por estiagens recorrentes, há casos em que seguradoras sequer oferecem cobertura, o que amplia a exposição financeira do produtor e do próprio sistema de crédito.
Seletividade e garantias
Com o ambiente macroeconômico pressionado,as instituições financeiras passaram a exigir garantias mais robustas nas operações. “Hoje, os bancos estão querendo aval, hipoteca, porque a situação está bastante delicada”, explica.
Postal lembra que grandes corporações costumam acessar diretamente linhas federais subsidiadas, enquanto o banco estadual concentra esforços no varejo e em empresas de menor porte. “Nós somos uma entidade de varejo. Temos limites”, observa.
Enchentes e atuação social
O dirigente também enfatiza o papel social desempenhado pela instituição em momentos de crise. “Nas enchentes, fomos o primeiro banco a criar linhas específicas para ajudar quem foi atingido”, afirma.
Ele acrescenta que a instituição destinou recursos para a recuperação de prédios públicos e investiu na área cultural. Em 2025, segundo ele, foram aplicados R$10 milhões na recuperação de bibliotecas públicas do Estado. “O Banrisul busca resultado, mas também faz o social”, argumenta.
Recuperação fiscal
Ao analisar o cenário macroeconômico estadual, Postal faz uma ponderação relevante: o Estado atravessa um momento de recuperação, mas com suspensão temporária do pagamento da dívida. “Eu vejo o RS numa situação de recuperação, Mas nunca se esqueçam que ele também não vem pagando a dívida. Quando voltar a pagar, vai ter que se reorganizar”, afirma.
Segundo ele, a retomada do pagamento, prevista para 2027, exigirá novo rearranjo fiscal. Ao mesmo tempo, projetos estruturantes, como a construção de um grande DataCenter em Eldorado do Sul, podem impulsionar a economia regional.
Digitalização e modernização física
No campo tecnológico, o dirigente avalia que a instituição vive um momento de consolidação digital. “Hoje você faz tudo pelo celular. O banco investe muito em segurança de TI”, afirma.
Ele destaca, porém, que a digitalização não elimina a importância da presença física. Com quase 500 agências, a instituição iniciou um processo de modernização estrutural, especialmente em Porto Alegre, com ambientes mais abertos e menos burocráticos. “As pessoas ainda precisam de contato pessoal. Isso é básico”, sustenta.
Apesar do cenário desafiador, a instituição registrou o maior lucro de sua história no último exercício, alcançando R$1,604 bilhão.
O resultado, segundo ele, demonstra que é possível combinar desempenho financeiro com atuação estratégica no desenvolvimento regional. Entre juros elevados, vulnerabilidade climática e ajustes fiscais, o banco estadual busca reafirmar sua posição como instrumento econômico do Rio Grande do Sul, com desafios estruturais à frente, mas também com margem para expansão.
