Duda Fortes / Agencia RBS
Um estudo com dados de 2.494 gaúchos identificou um aumento de sintomas de ansiedade e depressão de níveis moderados a graves, após a ocorrência da enchente de maio de 2024 no Estado.
A pesquisa intitulada de “Sintomas depressivos e ansiosos após as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, Brasil: achados da coorte PAMPA”. foi publicada na revista Cadernos de Saúde Pública, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
A publicação contou com a participação de 12 pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), da Universidade Brown, dos Estados Unidos.
A análise avaliou adultos com idade média de 43 anos, com predominância de mulheres, que corresponderam a 69,6% dos entrevistados e abrangeu 60% das cidades gaúchas.
Durante a passagem do evento climático no Estado, 459 dos 497 municípios gaúchos foram atingidos, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Para a pesquisa, foram utilizados dados do Estudo Prospectivo sobre Saúde Mental e Física em Adultos (PAMPA), uma coorte populacional conduzida no Rio Grande do Sul. Os participantes responderam a um questionário online entre setembro e novembro de 2024.
O que os pesquisadores encontraram
Entre os 2.494 entrevistados, 83,8% relataram algum impacto das enchentes de 2024. Desse total, 29,7% enfrentaram alta sobrecarga durante o período pós-desastre. A ocorrência de ansiedade foi de 72% e a de depressão 52%.
Segundo a pesquisa, os impactos mais intensos foram observados entre pessoas pardas, com menor escolaridade e que viviam sozinhas. No grupo mais afetado, 36% precisaram sair de casa. As perdas foram parciais para 15,8% e totais para 4,6%. Já entre os participantes com baixa carga de impacto, 94,8% não tiveram necessidade de deslocamento.
O deslocamento forçado esteve associado a maior prevalência de sintomas de ansiedade.
— Enviamos sumários dos achados para secretarias de saúde e os dados estão disponíveis no Centro de Pesquisa em Atividade Física, Saúde e Tecnologia da UFPel. Reconhecemos limitações do estudo, mas os dados podem incentivar novos estudos e apoiar decisões para melhorar a saúde da população gaúcha — destaca Natan Ferreira, coordenador da Coorte PAMPA, pesquisador da UFPel e pesquisador associado no Department of Biological Sciences, da Universidade do Sul da Califórnia.
Metodologia
O impacto das enchentes foi medido com base em 12 perguntas sobre consequências diretas e indiretas, como falta de energia, deslocamento forçado e perdas materiais. A carga do impacto foi classificada como baixa, média ou alta.
— Agora, planejamos novas coletas ao longo do tempo para acompanhar a trajetória a longo prazo, esperando que os sintomas ainda sejam maiores que antes das enchentes, mas com tendência de queda — complementa Natan.
O último estudo estudo foi publicado em inglês e pode ser acessado na íntegra através do link.
Um novo ciclo de pesquisas deve iniciar em junho deste ano. O projeto possui financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs).
Estudo começou na pandemia
Conforme Natan Ferreira, a pesquisa da Coorte PAMPA iniciou em 2020 e buscava avaliar os impactos da Covid-19. Contudo, foi prolongada e, em 2024, devido a ocorrência da enchente, os pesquisadores decidiram avaliar o impacto do evento climático.
— Nosso objetivo inicial era fornecer dados sobre os efeitos indiretos da pandemia de Covid-19, mas tanto ela quanto o estudo duraram mais do que o esperado. O estudo, hoje com sete anos, acompanha 15 mil pessoas, é coordenado pela UFPel e foi idealizado por cinco profissionais — comenta o pesquisador.
Para participar, era necessário ter 18 anos ou mais e residir no Estado. O recrutamento ocorreu por meio de anúncios em sites universitários, redes sociais e indicações pessoais, com o objetivo de alcançar diversidade sociodemográfica.
Embora 15 mil pessoas sejam acompanhadas pelo estudo, na pesquisa da enchente somente as 2.494 foram avaliadas. Todos os participantes forneceram consentimento eletrônico, que foi aprovado por comitê de ética da UFPel.
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