O novo guia e líder supremo do Irão, ayatollah Mojtaba Khamenei, está vivo e toda a confusão em torno desta questão “não tem razão de ser”, garantiu esta quarta-feira, 1 de abril, à Lusa o embaixador iraniano em Lisboa.

Numa entrevista à Lusa, Majid Tafreshi questionou-se por que razão o filho do anterior líder supremo Ali Khamenei, abatido a 28 de fevereiro, no primeiro dia dos ataques lançados pelos Estados Unidos e Israel contra o Irão, não deveria estar vivo, mesmo depois de confrontado com relatos internacionais que dão conta da morte do ayatollah Mojtaba.

“Por que não deveria estar vivo? Porque é uma mensagem. [Há muita confusão] e não sinto nenhum motivo por isso. Mas, de novo, o que é importante não é quem vai ser o próximo líder ou não”, referiu Tafreshi, escusando ir mais longe na resposta, refugiando-se na ideia da necessidade de haver paz e segurança.

Independentemente da liderança iraniana, pois Mojtaba Khamenei ainda não foi visto desde que a Assembleia de Peritos do Irão o escolheu, a 8 de março, para suceder ao seu pai, Tafreshi desdramatizou também os aparentes silêncios da China e da Rússia, aliados tradicionais do Irão, e mesmo a nova intervenção dos rebeldes huthis do Iémen.

“Eles não podem interferir, mas estão a aumentar a atenção. Acho que é uma boa política. Mas eles têm de fazer o seu dever através dos BRICS (de que o Irão é membro desde 2023) e de outras instituições para minimizar o risco de guerra. E eles estão a fazer isso. Eles têm muitas negociações, e todos estão a falar”, afirmou.

No entanto, passado mais de um mês do ataque de grande escala israelo-americano que é denunciado por várias vozes internacionais como uma violação do direito internacional, o bloco BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irão) permanece em silêncio.

Em 2025, durante a Guerra dos 12 dias, em junho, o grupo emitiu uma declaração em que criticava os ataques de Israel e dos Estados Unidos contra o território iraniano. Nas cimeiras, os BRICS declararam sempre apoio ao direito internacional, defendendo que as intervenções estrangeiras devem estar sob autorização do Conselho de Segurança da ONU.

Para Tafreshi, os Estados Unidos e Israel têm de cessar as hostilidades e Washington e Telavive “têm de aceitar que [o ataque] foi um erro de cálculo”, tal como fizeram com Ali Khamenei “que se manteve bravamente” no gabinete na altura dos bombardeamentos.

“A condenação está de um lado e ignorar o outro lado é um desastre. Não é saudável para a segurança da sociedade. Não devemos seguir as nossas políticas para a região ou para as nacionalidades. A humanidade tem aqui de prevalecer”, disse.

Estreito de Ormuz “é um campo de batalha, cuja passagem deixou de ser segura”

Sobre os Houthis, aliados de Teerão e que estiveram um mês em silêncio, lançando um primeiro míssil contra Israel precisamente a 28 de março, Tafreshi limitou-se a dizer que as autoridades rebeldes de Sanaa “foram atacadas pelos norte-americanos” e, daí, a resposta.

“Mas o que nós estamos a fazer é proteger todos os soldados. E os iranianos são grandes o suficiente para defender a sua própria soberania”, acrescentou Tafreshi, lembrando que o Irão é uma civilização com 3000 anos e que sempre sobreviveu a todos os ataques de que foi alvo.

“Tudo que foi feito poderia acontecer, mas através do sistema e de eleições. Nós tivemos 47 eleições. As pessoas podem decidir o sistema. Agora, essas pessoas são as mesmas e estão a defender os seus próprios valores. E defendem o sistema. Outras pessoas não podem decidir sobre o Irão. Antes de [Donald] Trump e de Israel, já outros tinham agredido o Irão. Desde os tempos dos mongóis, dos romanos. A nossa solidariedade é a mesma. A nossa língua, a nossa religião não mudou”, argumentou.

Frisando que conflito está a gerar uma grave crise económica internacional, o diplomata iraniano defendeu que Teerão sempre procurou “estar do lado certo da História”.

“[O Estreito de] Ormuz é o mesmo Ormuz de há 50 anos,100 anos. Por que não aconteceu nada? Agora, é um campo de batalha, cuja passagem deixou de ser segura”, referiu, aludindo o local por onde passa um quinto do petróleo mundial e que está na origem da crise mundial.

“O que precisamos é de confiança, de transparência. Nós precisamos de qualquer coisa. Por exemplo, quando [o secretário-geral da ONU] António Guterres condena algo, acho que a comunidade internacional, baseada no artigo 99.º da Carta da ONU, devia seguir e apoiá-lo. É um grande homem e deve ser apoiado”, frisou Tafreshi, lembrando as críticas que o antigo primeiro-ministro português é alvo por parte de Israel.

Em outubro de 2024, Israel declarou Guterres ‘persona non grata’ e impediu-o de entrar no país, criticando-o pela forma como condenou um ataque do Irão a Telavive.

Guerra é “um desastre para todos”, mas responsabilidade é de Israel, diz diplomata iraniano

O embaixador iraniano em Lisboa considerou que a guerra desencadeada por Israel e Estados Unidos a 28 de fevereiro “é um desastre para todos” e responsabilizou o primeiro-ministro israelita por procurar inimigos para o presidente norte-americano.

“É um desastre para todos. Desastre para o Irão, desastre para a região, desastre para a Europa. Uma melhor negociação é muito melhor do que uma boa guerra. A guerra é má, seja qual for o motivo, exceto em legítima defesa, como é o caso”, afirmou Majid Tafreshi, que pediu “respeito” pela lei internacional.

Questionado pela Lusa sobre se é o líder israelita Benjamin Netanyahu quem manipula meios e situações para Donald Trump agir, o diplomata iraniano aconselhou o presidente dos Estados Unidos, cujo país tem conduzido mais ataques contra o Irão, a “ver o que está a fazer”.

“Acho que ele deve ver o que está a fazer. Ele não é um homem de oito anos, acredita que todos o seguem. O que é a sua herança para a lei internacional? Se você for dar mais possibilidades para usar força e poder, não vamos ter no futuro, definitivamente, um mundo melhor”, afirmou Tafreshi.

“Mas o poder de lógica, o poder de compreensão, o poder de respeito, isso é o que precisamos como superpoder para viver na comunidade internacional. Hoje, a solidariedade iraniana dentro do país é muito maior do que há um mês, porque sabem que estamos a ser atacados”, acrescentou.

Para o diplomata iraniano, os Estados Unidos “não vieram para uma mudança de regime”, pois “mantêm ou aumentam as sanções”, bem como “os embargos bárbaros e ilegais”, ao mesmo tempo que “falam de direitos humanos”, razões de sobra para que Teerão “atue em legítima defesa, em prol dos valores e soberania” do Irão.

Instado pela Lusa sobre quem realmente manda no conflito, se Israel se os Estados Unidos, Tafreshi respondeu não ter dúvidas de que Trump “não queria atacar”.

“Se assim não fosse, porque começou a pedir negociações? Acho que isso é, de novo, um mau comportamento de Israel, que está a tentar encontrar e criar inimigos para si [Trump]. O inimigo de Israel é a sua própria política. Eles precisam é de encontrar um jeito de ter uma coexistência pacífica com eles próprios e com os países vizinhos”, frisou.

“Eles têm muito dinheiro. Poderiam investir em evitar toda uma guerra em vez de atacar. Que países Israel ainda não atacou? A Guerra dos Seis Dias, depois disso a Síria, a Palestina, o Líbano, o Irão e outros? Acusam, hoje, um, exageram, depois, com outro”, referiu, repetindo que a comunidade internacional deve respeitar as resoluções do Conselho de Segurança da ONU.

E insistiu: “Não há razão para a continuação [da guerra]. Mas a legítima defesa é a única razão para o Irão continuar a defender os seus próprios países e pessoas”.

Palavras que vão ao encontro da posição defendida pelo chefe da diplomacia iraniana, Abbas Araghchi, que afirmou que o Irão “está preparado para qualquer cenário”, mesmo o que prevê o envio de tropas terrestres norte-americanas para o país.

Reiterando que o Irão “não é uma ameaça para ninguém”, o embaixador iraniano em Lisboa defendeu a ideia de que a comunidade internacional deve, antes de mais, analisar as raízes das tensões entre Israel e Estados Unidos, de um lado, e o Irão, do outro, lembrando as resoluções da ONU.

Sobre a proposta de negociações lançada no passado fim de semana por Paquistão, Arábia Saudita, Egito e Turquia, o representante diplomático de Teerão mostrou-se recetivo, pois a diplomacia, defendeu, “é a única solução válida para a paz e segurança no mundo”.

“Usa-se a força e abusa-se do poder. Essa metodologia, dia após dia, aumenta esse ‘feedback’ negativo. Não se pode semear agora um conflito, pois os resultados no futuro serão assustadores. Bombardear a mesa das negociações é trair a diplomacia”, argumentou.

“Trump e outros. Não estou a fala apenas sobre Trump. Eles têm uma lógica para qualquer coisa. Exagerando. Esse tipo de atuação não é símbolo de democracia. O símbolo de um Presidente deve ser baseado nas leis internacionais. Não apenas com ‘bullying’. Eu estou a fazer isto, eu estou a fazer aquilo. Exageram para depois criar o conflito”, concluiu.

Os Estados Unidos e Israel lançaram a 28 de fevereiro um ataque militar ao Irão, que justificaram com a inflexibilidade da República Islâmica nas negociações para pôr fim ao enriquecimento de urânio no âmbito do seu programa nuclear, que afirma destinar-se apenas a fins civis.

Em retaliação, o Irão encerrou o Estreito de Ormuz e lançou ataques contra alvos em Israel, bases norte-americanas e infraestruturas civis em países da região como Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait, Jordânia, Omã e Iraque.

By Daniel Wege

Consultor HAZOP Especializado em IA | 20+ Anos Transformando Riscos em Resultados | Experiência Global: PETROBRAS, SAIPEM e WALMART

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